Entrevista com Cláudio Valente, IKEA: «Queremos ser agentes de transformação da narrativa dominante em relação aos refugiados»

Celebra-se hoje o Dia Mundial do Refugiado. Sendo este um tema fundamental para IKEA, que este ano lança a segunda edição do seu Programa de Empregabilidade para Refugiados, falámos com falar Cláudio Valente, responsável de People and Culture da organização, sobre os objetivos e aprendizagens. desta iniciativa.

 

Por Sandra M. Pinto 

A segunda edição deste programa recruta pessoas várias nacionalidades, que, depois de completarem um estágio até ao verão, podem ser integradas na IKEA. De referir que na primeira edição, foram recrutados 20 refugiados para participar e sete foram integrados como colaboradores.

Como e quando surgiu o Programa de Empregabilidade para Refugiados da IKEA?
Na IKEA estamos comprometidos em sermos agentes de transformação da narrativa dominante em relação aos refugiados e contribuir para uma sociedade mais justa e inclusiva. Queremos ser promotores de uma mudança positiva na integração dos refugiados nas comunidades onde estão inseridos, removendo as barreiras do preconceito, mas também dando ferramentas concretas e essenciais para um futuro melhor. Foi a partir daqui que nasceu, em 2021, o Programa de Empregabilidade para Refugiados, que tem como objectivo a integração de refugiados em Portugal, promovendo a sua empregabilidade e inclusão no mercado de trabalho. Queremos ser um exemplo e partilhar o nosso conhecimento com outras empresas e decisores, para que percebam que este movimento faz todo o sentido, não só para a sociedade, como para os próprios negócios.

De que forma se integra ele na política de Responsabilidade Social da empresa?
A nossa ambição enquanto empresa é ter um impacto positivo no planeta e nas pessoas, independentemente de quem são ou de onde vêm. Tudo o que fazemos, a nível de negócio e de Responsabilidade Social, é com este objectivo em mente. E é isso que procuramos fazer com o Programa de Empregabilidade para Refugiados, com o qual reforçamos, também, a nossa vontade de ter um ambiente de trabalho diverso e inclusivo, proporcionando igualdade de oportunidades para todos.

Qual a missão e a finalidade do Programa de Empregabilidade para Refugiados da IKEA?
Os refugiados chegam aos países de acolhimento com a esperança de recomeçar, mas sabemos que, muitas vezes, encontram dificuldades na integração nas comunidades e no mercado de trabalho. O que queremos fazer é dar este apoio inicial, que é tão necessário, e demonstrar o valor destas pessoas, contribuindo para uma mudança positiva e para inverter a tendência de desinformação em torno dos refugiados. O Programa de Empregabilidade para Refugiados tem como objectivo potenciar a integração social e laboral – seja na IKEA ou em qualquer outra empresa -, através do desenvolvimento de competências para a empregabilidade no contexto laboral português e na criação de relações de confiança dentro das equipas e comunidades em geral.

Analisando a vossa estratégia de Recursos Humanos, podemos afirmar que este programa é uma mais-valia para a organização?
Sem dúvida. A integração destas pessoas contribui para o objectivo de termos equipas cada vez mais diversas e traz-nos pontos de vista diferentes, o que é fundamental para o negócio da IKEA. Além disso, internamente, recebemos feedback muito positivo. Ao vivenciar esse processo no dia-a-dia, os colaboradores ficam ainda mais conscientes e comprometidos com a integração dos novos colegas, bem como uma mudança positiva na perspetiva sobre os refugiados.

De que forma decorre exatamente o programa?
Trata-se de um estágio profissional remunerado, com a duração de seis meses, com uma abordagem integrada que combina formação on-the-job, aulas de português e sessões socioculturais e de empregabilidade.
Cada estagiário é alocado a um departamento para aprendizagem de uma função (Logística, IKEA Food, Recovery, Vendas e Apoio ao Cliente). Todos são acompanhados pelo responsável de equipa de cada área e também de um buddy – um colaborador IKEA da equipa de acolhimento. Através deste acompanhamento mais próximo, queremos não só proporcionar uma integração mais fluída, mas também a troca de experiências e aprendizagens e quebrar noções preconcebidas.
Além disto, são oferecidas 75 horas de aulas de português que têm como objectivo reforçar a familiarização com o alfabeto latino, com expressões relacionadas com trabalho e ajudar a facilitar as interações sociais. São ainda promovidas várias sessões socioculturais e de empregabilidade, nas quais se partilha a cultura e as tradições portuguesas e se potencia o desenvolvimento de soft skills e a preparação prática para processo de procura de trabalho, para uma mais rápida integração no mercado laboral português.

Para a sua execução têm alguma parceria com entidades dedicadas ao tema?
Sim, este programa é realizado em parceria com o CPR (Conselho Português para os Refugiados) e o ACM (Alto Comissariado para as Migrações), duas entidades com quem a IKEA já colabora há vários anos.

Até que ponto são essas parcerias/colaborações importantes?
Estas entidades são fundamentais porque contribuem com o seu know-how para que este Programa de Empregabilidade para Refugiados tenha, verdadeiramente, impacto na vida destas pessoas e na sua integração em Portugal. São também estas entidades que identificam as pessoas que podem integrar o programa e nos dão apoio de um ponto de vista mais logístico.

Está a decorrer a segunda edição. Quantas pessoas estão envolvidas? De que nacionalidades?
Este ano foram recrutados 12 estagiários do Afeganistão, Somália, Egito, Sudão, Serra Leoa, Camarões e Guiné-Bissau. Em termos de idades, os grupos etários mais representativos são dos 18 aos 29 anos e +42 anos.

De que forma são estas pessoas escolhidas? Ou seja, qual o processo de seleção?
O processo de selecção é feito com o CPR (Conselho Português para os Refugiados) e o ACM (Alto Comissariado para as Migrações), as duas entidades parceiras da IKEA neste projeto. As pessoas identificadas por estas organizações são entrevistadas e, com base na sua formação, conhecimento da língua portuguesa ou inglesa, ou experiência profissional anterior, são alocadas aos departamentos mais relevantes.

E depois, existe a possibilidade de algumas dessas pessoas serem integradas na organização?
Sim. A primeira edição contou com 20 participantes e, no final, foram integradas sete pessoas, que trabalham hoje em dia como colaboradores da IKEA nas áreas de Recovery, Logística, Design de interiores, Restauração e Apoio ao cliente.

Vão levar a efeito mais alguma ação dedicada ao tema ainda no decorrer de 2022?
Hoje, no Dia Mundial do Refugiado, lançamos a campanha “Juntos por todos os refugiados”, que reforça o compromisso da marca em mudar a narrativa em torno dos refugiados, já que todos merecemos sentirmo-nos em casa, independentemente de quem somos ou de onde vimos. Com este movimento, queremos promover a angariação de fundos para ajudar a preencher a falta de financiamento para combater esta crise humanitária. Pela primeira vez, a IKEA promove doações nas suas plataformas, seja online, na app ou nas lojas físicas, a favor do ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, parceiro da marca há mais de 10 anos. Esta campanha, que estará a decorrer nos vários mercados onde a IKEA está presente, tem como objetivo atingir os 20 milhões de euros em doações a nível global.

Também este ano, em Março, a IKEA Portugal criou uma task-force específica para responder às necessidades da comunidade ucraniana que chega a Portugal. Este grupo de trabalho interno avançou, proactivamente, com o contacto a autarquias e associações que trabalham no acolhimento destas pessoas deslocadas de guerra, disponibilizando-se para apoiar com artigos para a casa. Até agora, já doámos 2.788 artigos, no valor de cerca de 30.000€, impactando a vida de 192 pessoas deslocadas.

A nível europeu, o Grupo Ingka disponibilizou 10 milhões de euros para apoio de emergência a esta comunidade, em doações de produto e financeiras, com particular enfoque nos países que fazem fronteira com a Ucrânia. Portugal é um dos países incluídos neste apoio internacional da marca, não só porque tem uma grande comunidade ucraniana, mas também pelo imediato movimento de acolhimento do país.

O que é exatamente o ACNUR?
O ACNUR, Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, é uma agência da ONU que actua com a missão de assegurar e proteger os direitos das pessoas em situação de refúgio em todo o mundo. Parte da sua actuação é garantir que os países entendem e cumprem as suas obrigações quanto ao acolhimento e proteção de refugiados. A IKEA tem uma parceria de longa data com esta agência, para apoiar projectos de acolhimento e integração.

É hoje ainda mais importante mudar a narrativa em torno dos refugiados?
O apoio aos refugiados é um dos eixos de atuação da IKEA para alcançar e proporcionar um impacto positivo na vida das pessoas. Juntamo-nos, anualmente, à homenagem que o ACNUR faz à resiliência e coragem dos refugiados em todo o mundo, celebrando a 20 de junho, o Dia Mundial do Refugiado com o objectivo de contribuir para esta mudança de narrativa.

No entanto, segundo o ACNUR, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, há mais de 100 milhões de pessoas forçadas a fugir de conflitos, violência, violações dos direitos humanos e perseguição em todo o mundo, dos quais, cerca de 6 milhões serão ucranianos. É o número mais alto da história moderna. O que nos leva a sentir que é ainda mais urgente e importa sermos uma voz ativa neste tema, inspirando a que mais empresas e mais pessoas de juntem e trabalhem para mudar a narrativa em torno dos refugiados, desconstruir preconceitos e apoiar financeiramente esta causa.

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