Envelhecimento em Portugal: Um trabalhador por pensionista?

A III Conferência Verlingue Expertise, dedicada ao tema da longevidade, reuniu especialistas de diferentes áreas para debater os impactos económicos, sociais e empresariais de viver mais num contexto de crescente incerteza. A longevidade crescente exige antecipação dos riscos, reforço da protecção e investimento na prevenção para garantir qualidade de vida.

Tânia Reis
14 de Maio 2026 | 11:19
Envelhecimento em Portugal: Um trabalhador por pensionista?

Portugal está já entre os três países mais envelhecidos do mundo e aproxima-se de um cenário em que poderá existir pouco mais de um trabalhador por pensionista. Perante este contexto, a III Conferência Verlingue Expertise colocou a longevidade sob o mote do “Contratempo”, destacando que, num percurso de vida cada vez menos linear, se torna essencial antecipar riscos, reforçar a protecção e investir na prevenção, para garantir não apenas mais anos de vida, mas mais qualidade ao longo desse tempo.

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Promovido pela Verlingue Portugal, o encontro teve como objectivo contribuir para o aumento da literacia em seguros e reforçar a consciência sobre os desafios e oportunidades associados à longevidade, com impacto directo nas empresas, nos sistemas sociais e nas diferentes gerações.

Num momento em que a longevidade se afirma como um dos temas estruturais da sociedade, a conferência destacou a importância da colaboração entre sectores público e privado, contando com a participação do Instituto da Segurança Social, Universidade Católica Portuguesa, Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores (CPAS), Adecco, Associação Terra dos Sonhos e CUF. O evento contou ainda com o patrocínio da AIG, Generali Tranquilidade, MetLife e Multicare (Fidelidade), reforçando a relevância e o envolvimento do sector segurador na resposta a este desafio.

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Na sessão de abertura, José Félix Morgado, presidente do Conselho de Administração da Verlingue Portugal, defendeu que viver mais exige maior capacidade de antecipação do risco. «A longevidade não é apenas uma conquista demográfica, é um desafio colectivo que exige novas respostas ao nível da protecção, da prevenção e da sustentabilidade ao longo de todo o ciclo de vida.»

Pressão crescente sobre o sistema social

Pedro Corte Real, presidente do Instituto da Segurança Social, traçou um retrato claro da realidade portuguesa: actualmente, existem cerca de 2,63 activos por cada reformado, num contexto de redução progressiva da força de trabalho, aproximando o país de um cenário em que poderá existir pouco mais de um trabalhador por pensionista.

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Neste contexto, alertou para a necessidade de reforçar a sustentabilidade do sistema, defendendo uma abordagem integrada entre os diferentes pilares da reforma (público, ocupacional e individual) e um maior investimento em literacia financeira, bem como em soluções de poupança e protecção.

Empresas no centro da resposta à longevidade

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O primeiro painel evidenciou que a longevidade já está a transformar o mundo do trabalho e a redefinir as expectativas dos colaboradores. Alexandra Andrade, Country manager da Adecco Portugal, destacou que os profissionais valorizam cada vez mais segurança, bem-estar e protecção ao longo de carreiras mais longas e incertas, tornando os benefícios não salariais um factor crítico na atracção e retenção de talento. Partilhou ainda que, actualmente, já coexistem até cinco gerações no mercado de trabalho, o que reforça a complexidade da gestão de talento e a necessidade de soluções de proteção mais flexíveis e adaptadas a realidades distintas.

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Esta visão foi complementada por Alexandra Cordeiro, head of Health da Verlingue Portugal, que sublinhou a necessidade de uma mudança de paradigma nas organizações: da resposta reactiva ao sinistro para uma abordagem preventiva e contínua, assente numa cultura de saúde, bem-estar e literacia.

A integração entre saúde física, mental e financeira foi apontada como essencial para reduzir riscos, absentismo e perdas de produtividade, garantindo soluções relevantes para uma força de trabalho cada vez mais diversa e multigeracional. A dimensão humana da protecção esteve no centro da intervenção de Madalena D’Orey, consultora e Patient advocate da CUF e fundadora da Associação Terra dos Sonhos, que lembrou o impacto emocional, social e financeiro, muitas vezes invisível, de doenças graves e eventos críticos de vida. Defendeu uma maior humanização do tema da protecção e reforçou o papel das empresas enquanto agentes activos de apoio, não apenas financeiro, mas, também, emocional e social, sublinhando a importância da literacia e da antecipação.

Riscos invisíveis e desigualdades crescentes

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O segundo painel aprofundou os riscos menos visíveis da longevidade, nomeadamente os associados a carreiras mais longas e fragmentadas. Pedro Mota Soares, vice-presidente da CPAS, alertou para a vulnerabilidade financeira crescente, sobretudo entre trabalhadores independentes, e para a necessidade de reforçar soluções complementares de protecção. Destacou ainda o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em parceria com a Verlingue Portugal, no sentido de reforçar os mecanismos de protecção no âmbito do sistema próprio da CPAS.

Céline Abecassis-Moedas, pró-reitora, professora e directora do Center of Longevity Leadership da Universidade Católica Portuguesa, destacou o trabalho desenvolvido pela Universidade Católica Portuguesa, nomeadamente através do Longevity Leadership Programme e do Center on Longevity Leadership, enquanto plataformas de investigação e de ligação ao tecido empresarial, reforçando a importância de aproximar conhecimento científico na resposta aos desafios económicos e sociais de uma população mais envelhecida. Apoiou, ainda, a adopção de modelos de educação inversa, nos quais as gerações mais jovens assumem um papel activo na transmissão de conhecimento aos mais seniores, reflectindo novas dinâmicas de aprendizagem.

António Pedro Barreiro, mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa e aluno do Executive MBA da AESE Business School, trouxe a perspectiva das gerações mais jovens e destacou a intergeracionalidade como estratégia para diluir riscos e robustecer a cultura das instituições. Sublinhou a importância de redescobrir ritos de passagem que ajudem a prevenir a infantilização da juventude e alertou ainda para os riscos de uma longevidade mal vivida, que pode conduzir ao “isolamento geracional dos incumbentes, promovendo uma visão excessivamente centrada no presente e limitando a capacidade de reflexão estratégica de longo prazo.”

«Estamos preparados para viver mais num mundo mais incerto?»

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No encerramento, Miguel Morgado, professor no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, lançou uma reflexão provocadora sobre as novas vulnerabilidades associadas ao aumento da esperança média de vida, defendendo que a longevidade deve ser abordada como um fenómeno económico, social e político, e não apenas biológico. Inspirando-se no pensamento de Francis Bacon (século XVII), um dos primeiros autores a defender que a ciência deveria contribuir para prolongar a vida humana, foi sublinhado que viver mais só constitui um verdadeiro progresso se estiver associado a mais qualidade, proteção e capacidade de antecipação do risco.

Neste contexto, destacou ainda profundas transformações sociais em curso, como o aumento dos divórcios, a diminuição dos casamentos, a redução da natalidade para níveis inferiores a dois filhos por casal e o crescimento da solidão, factores que reforçam a necessidade de repensar os modelos de protecção e apoio ao longo da vida. “Estamos preparados para viver mais tempo num mundo mais incerto?”, foi o desafio deixado à sociedade, às empresas e aos decisores.

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