Especialistas da ONU consideram que desenvolvimentos e riscos da IA não podem ser deixados “aos caprichos” do mercado

Margarida Lopes
20 de Setembro 2024 | 11:50
Especialistas da ONU consideram que desenvolvimentos e riscos da IA não podem ser deixados “aos caprichos” do mercado

O desenvolvimento da inteligência artificial (IA) e os riscos associados não podem ser deixados «aos caprichos» do mercado, alertaram especialistas da ONU, que defendem ferramentas de cooperação internacional em vez de uma agência de governação global.

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Em Outubro do ano passado, o secretário-geral das Nações Unidas lançou um órgão consultivo multissectorial de alto nível sobre IA, que junta representantes do Norte Global, Sul Global, academia, sector privado e decisores políticos, para ajudá-lo nas questões da IA e o futuro da sua governação global.

O relatório final, publicado a poucos dias da «Cimeira para o Futuro», em Nova Iorque, constata, sem surpresa, «o défice na governação global em questões de IA» e a quase exclusão dos países em desenvolvimento das discussões sobre um assunto existencial.

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Dos 193 Estados-membros da ONU, apenas sete fazem parte de sete grandes iniciativas ligadas à governação da IA (no âmbito da OCDE, do G20 ou do Conselho da Europa), e 118 estão completamente ausentes, principalmente países do sul.

No entanto, a própria natureza «transfronteiriça» destas tecnologias «requer uma abordagem global», insiste o órgão consultivo.

«A IA deve servir a humanidade de forma justa e segura», reiterou António Guterres esta semana. «Se não forem controlados, os perigos representados pela inteligência artificial poderão ter implicações graves para a democracia, a paz e a estabilidade».

Os especialistas destacam o papel «crucial» dos governos nesta matéria.

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Neste contexto, o comité de especialistas apela aos Estados-membros da ONU para que implementem ferramentas para uma melhor cooperação global, incentivem o progresso da humanidade e evitem retrocessos, porque «ninguém» pode prever a evolução destas tecnologias e quem toma as decisões não é responsável pelo desenvolvimento e utilização de sistemas «que não compreende».

Nestas circunstâncias, «o desenvolvimento, a implantação e a utilização de tal tecnologia não podem ser deixados apenas aos caprichos dos mercados», advertem, sublinhando o papel «crucial» dos governos e das organizações regionais.

Sugerem a criação de um grupo internacional de peritos científicos em IA, inspirado no modelo dos peritos climáticos da ONU (IPCC) cujos relatórios são uma referência no tema.

Estes cientistas esclareceriam a comunidade internacional sobre os riscos emergentes, áreas onde é necessária investigação adicional ou identificariam como certas tecnologias poderiam ajudar a cumprir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (eliminação da fome, pobreza, igualdade de género, clima).

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Esta ideia é retomada no projecto do Pacto Digital Global, ainda em discussão, que deverá ser adoptado no domingo pelos 193 Estados-membros da ONU durante a «Cimeira do Futuro».

Os especialistas sugerem ainda o estabelecimento de um diálogo político intergovernamental regular sobre o assunto e de um fundo para ajudar os países mais atrasados.

Para interligar as diferentes ferramentas, os especialistas apelam à criação de uma estrutura leve no seio do secretariado da ONU em vez da ideia de criar uma agência de governação global, referida por Guterres, tendo como modelo a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

Embora o mandato exigisse que explorassem esta possibilidade, «não recomendamos nesta fase a criação de uma agência deste tipo», referem.

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«Se os riscos da IA se tornarem mais graves e mais concentrados, poderá ser necessário que os Estados-membros considerem uma instituição internacional mais robusta, com poderes de monitorização, comunicação, verificação e aplicação», afirmam.

Mesmo que observem que a elaboração de uma lista exaustiva de riscos é uma «causa perdida» num sector em rápido desenvolvimento cuja evolução ninguém pode prever, enumeram, no entanto, certos perigos identificados: desinformação que ameaça a democracia, ‘deepfakes’ mais pessoais (sexuais em particular), violações dos direitos humanos, armas autónomas, utilizadas por grupos criminosos ou terroristas.

«Dada a velocidade, autonomia e opacidade dos sistemas de IA, esperar que surja uma ameaça pode significar que já é tarde demais para responder», admitem, contando com a avaliação e constantes intercâmbios científicos e políticos para que o «mundo não seja tomado de surpresa».

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