Este ano, o grande desafio não será atrair talento, mas saber organizá-lo

Human Resources
4 de Março 2026 | 11:00

Por José Pedro Fernandes, vice-presidente da SISQUAL® WFM

 

Este ano não faltará talento, mas muitas organizações vão perceber definitivamente que precisam de melhorar a forma como o organizam. Os problemas não surgirão nos processos de recrutamento nem nas políticas de atracção, mas na operação diária: turnos que não encaixam, substituições que chegam tarde, alterações que geram fricção e decisões que dependem de demasiadas validações quando o tempo já não joga a favor.

A primeira grande tendência que marcará a Gestão de Pessoas nos próximos meses é clara: a transição definitiva do planeamento estático para a gestão do trabalho em tempo real. Escalas fechadas com semanas de antecedência já não se ajustam a um contexto em que a procura oscila, os imprevistos são frequentes e a pressão para manter o serviço não admite margem de erro. É neste ponto que o Workforce Management deixa de ser uma ferramenta operacional e passa a ser uma vantagem competitiva, permitindo às empresas antecipar necessidades, planear recursos e tomar decisões mais estratégicas através de mecanismos de aprendizagem automática e análise preditiva.

Esta transição não tem que ver com improvisação, mas com melhor antecipação. As organizações que começarem a trabalhar com dados reais de actividade, ausências e necessidades operacionais conseguirão absorver picos de procura com maior normalidade. As que não o fizerem continuarão a reagir tarde, transferindo a tensão para as equipas e pagando o custo sob a forma de desgaste, rotatividade e perda de qualidade dos serviços. E quando a operação depende de equipas com algum grau de rotatividade e contratos temporários, a margem de erro reduz-se ainda mais.

Continue a ler após a publicidade

A segunda tendência para este ano é a autonomia operacional bem estruturada. Durante demasiado tempo confundiu-se autonomia com concessão ou benefício. Na realidade, a autonomia é uma ferramenta de estabilidade quando é enquadrada por regras claras e transparência. Permitir que as equipas participem na organização do seu trabalho reduz fricções, melhora a resposta a imprevistos e reforça o compromisso, eliminando parte significativa da burocracia quotidiana.

Quando cada pequeno ajuste exige uma cadeia de e-mails, autorizações e excepções, a organização torna-se lenta. Quando os critérios são claros e as pessoas podem actuar dentro de um enquadramento definido, a operação ganha fluidez sem perder controlo. Em 2026, a autonomia deixará de ser um elemento aspiracional para se tornar uma alavanca directa de produtividade.

A terceira tendência prende-se com o cumprimento legal e a rastreabilidade. Longe de ser um travão, o cumprimento bem integrado será um dos grandes aceleradores da gestão do trabalho. O erro habitual tem sido tratar estes requisitos como uma camada adicional, posterior e desligada da operação. Isso gera fricção, atrasos e a sensação constante de estar a “apagar fogos”.

Continue a ler após a publicidade

Quando a legalidade, a rastreabilidade e a segurança jurídica fazem parte natural dos fluxos de trabalho, a gestão simplifica-se. As decisões são tomadas mais cedo, os erros diminuem e a organização ganha tranquilidade. Em 2026, cumprir não será um encargo adicional para quem gere pessoas, mas uma condição integrada em sistemas de gestão que funcionam de forma fluida.

Há ainda um elemento transversal a todas estas tendências: a pressão para reduzir fricções invisíveis. Não as grandes ineficiências, mas as pequenas, aquelas que não surgem nos indicadores tradicionais, mas que consomem tempo, geram tensão e corroem a confiança. Cada procedimento desnecessário, cada validação redundante e cada processo mal integrado acrescenta desgaste.

Neste cenário, falar de bem-estar sem abordar a organização do trabalho será insuficiente. Prometer flexibilidade sem a tornar operacional gerará frustração. E desenhar políticas sem rever a forma como são executadas no dia-a-dia continuará a criar um desfasamento entre o que a organização comunica e o que realmente acontece.

O ano de 2026 marcará uma fronteira clara. As organizações que compreenderem que a vantagem competitiva está na forma como o trabalho é organizado ganharão resiliência, estabilidade e compromisso. As que continuarem a tratar a gestão diária como um assunto interno, secundário ou meramente administrativo descobrirão que os problemas surgem precisamente quando mais precisam que tudo funcione.

A gestão do trabalho deixou de ser um tema de suporte para se tornar um factor estratégico. E num contexto cada vez mais exigente, essa diferença não se fará sentir nos discursos, mas na capacidade de responder com naturalidade quando outros apenas conseguem reagir.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar


Mais Notícias