Estórias com Propósito. O fogo que mudou a serra… mas não as pessoas

Desde cedo, provavelmente influenciado pelos ensinamentos do escutismo, aprendi a envolver-me com compaixão e dedicação em causas em que acredito que, sozinho ou com a minha rede de amigos, posso fazer a diferença na vida de alguém. Em 2018, Monchique ardeu. Através da Plataforma Ajuda Monchique, apadrinhei a reconstrução de três casas, entre outros projectos. E ganhei muitos amigos. Leia o artigo de Miguel Tiago de Oliveira, biólogo Marinho e director de Engenharia, Operações e Qualidade do Oceanário de Lisboa.

Human Resources
31 de Março 2026 | 11:50

 

Por Miguel Tiago de Oliveira, biólogo Marinho e director de Engenharia, Operações e Qualidade do Oceanário de Lisboa

 

Em Agosto de 2018, a serra de Monchique foi assolada por um imenso mar de chamas. Quem assistiu de perto descreveu o cenário como “o inferno que veio à serra”. Os serviços de protecção civil, marcados pelos acontecimentos de Pedrógão Grande, apressaram-se a retirar todos os habitantes das suas propriedades, colocando-os em segurança. Mas ficou tudo para trás – e tudo foi devorado pelo fogo.

Rapidamente, surgiu a Plataforma Ajuda Monchique (PAM), um movimento cívico, informal e totalmente voluntário, criado de forma orgânica para apoiar a comunidade afectada. Sob coordenação de Joana Sousa Martins, especialista em liderança em resposta rápida a crises humanitárias, juntaram-se 286 voluntários e uma série de entidades parceiras, como a Câmara Municipal de Monchique, a Escola Básica Manuel do Nascimento, o Corpo Nacional de Escutas e a Associação Guias de Portugal, a Associação Espiral de Vontades, os Bombeiros Voluntários de Monchique, as juntas de freguesia do Concelho, a Coopachique – Cooperativa Agrícola de Monchique, a AEPRA – Associação de Empresas Remoção de Amianto, o BMW Motorrad Fans Club e 228 doadores singulares e colectivos.

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Juntos – e durante três meses –, fizeram o levantamento das zonas e famílias afectadas, mapearam necessidades urgentes, asseguraram a distribuição e recepção de bens essenciais e intervieram no terreno, dando resposta quase imediata a situações de maior precariedade. Um trabalho voluntário com um nível de profissionalismo e competência assinalável, reconhecido pelo Voto de Louvor atribuído em Dezembro de 2018, pela Assembleia de Freguesia de Monchique.

Em números, em 87 dias de actividade, mais de 370 famílias foram referenciadas. Dessas, 160 receberam apoio directo de alimentos e bens; 108 tiveram apoio técnico e material para reabilitação de sistemas de água; 70 receberam ferramentas agrícolas; 30 receberam electrodomésticos e mobiliário; e 18 foram apadrinhadas. Sete pessoas foram alojadas temporariamente e três pessoas, isoladas, receberam apoio permanente. Mais: 275 árvores foram plantadas; 23 colmeias foram distribuídas; 15 máquinas agrícolas foram entregues; e 24 toneladas de amianto foram removidas.

Perante este cenário, desafiado pelo voluntário Gonçalo Vizela Cardoso, meu primo, amigo e companheiro de viagens, trocámos as férias no norte de Espanha por um rumo inesperado: numa quinta-feira depois do trabalho, montados nas motas, seguimos para Monchique para ajudar três pessoas identificadas, que viviam sozinhas e precisavam de apoio.

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A entrada na serra queimada
Entrámos na serra já de noite, vindos de São Teotónio. A brisa oceânica deu lugar a uma atmosfera pesada, com um cheiro intenso a madeira queimada. Na manhã seguinte, o cenário era devastador: onde antes havia verde, agora era tudo negro.

Fizemos uma breve visita à vila, uma reunião rápida na Ajuda Monchique, passámos pelo centro improvisado de rulotes para alojamento temporário – onde entregámos alguns materiais para abastecimento de água – e seguimos para visitar o Baltazar, o Vítor e o Franco.

Baltazar
Mestre de obras de profissão, perdeu a casa que herdara dos pais, o armazém de ferramentas, o dumper e, o tractor. Restou-lhe apenas a roupa do corpo e a carrinha. Com telefonemas, contactos e muitas mãos, conseguimos novas ferramentas, recuperámos o dumper, e, com a ajuda da Espiral de Vontades, dos Rotários do Algarve e de amigos, arranjámos telhas e tijolos. Meses depois, a nova casa e o novo armazém do Baltazar ganharam forma.

E o Baltazar juntou-se a nós e contribui voluntariamente, com a sua arte, para a reconstrução de outras casas.

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Vítor
Octogenário e paraplégico, vivia do que produzia: galinhas, coelhos e produtos hortícolas. A sua casa de chão de terra e paredes de pedra resistiu! Mas quando foi obrigado a sair de casa, para sua segurança, o triciclo Piaggio – as suas “pernas” para o mundo – foi a única coisa que não ficou para trás, no fundo do vale. O galinheiro, as coelheiras e os animais desapareceram no incêndio. Essa foi a sua maior mágoa.

Reconstruímos o que o fogo levou, ampliámos o alpendre para proteger a Piaggio, deixámos um novo amigo de quatro patas para lhe fazer companhia e assegurámos financeiramente o apoio domiciliário através da Casa do Povo do Alferce, até 2021. Nesse ano, um sobrinho regressou e acompanhou o senhor Vítor até ao seu falecimento, em Março de 2022.

 

Franco
Pastor, foi encontrado num palheiro vários dias após o incêndio destruir a sua casa. Salvaram-se apenas os animais, a pocilga e o palheiro. Espírito livre e inocente, tinha um único sonho: voltar a ter uma casa. Até hoje, vive num anexo improvisado junto ao palheiro, onde instalámos janelas e criámos um espaço minimamente protegido.

A reconstrução da casa do Franco pode ser apoiada pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), mas o processo exige projecto de arquitectura e especialidades como se de uma moradia de luxo, a construir numa qualquer situação de normalidade, se tratasse. E apoio para custear projectos? Talvez, um dia, quando – e se – aprovado. Como é possível que os processos desta natureza sejam tratados assim? Como é que um homem que nada tem e está desesperado pode suportar o custo de elaboração de projectos? A necessidade de um contacto de email é a cereja no topo do bolo… O Estado devia olhar a estes processos que só servem a quem tem recursos financeiros e tempo… Mas estou a desviar-me do tema.

Perante esta realidade, mais uma vez, valeu a solidariedade. E mãos à obra: o arquitecto Carlos Martins ofereceu o projecto de arquitectura, e os amigos engenheiros da proM&E, HC – Horácio Costa, EBRJ Engenharia e WeDoEng, asseguraram projectos de especialidades e fiscalização. O processo foi entregue em Fevereiro de 2022, à Câmara Municipal de Monchique e, com o apoio municipal, o financiamento do IHRU e da Cáritas foi garantido. O senhor Varela, proprietário da construtora, lá vai avançando com a obra, à espera de um dia receber. E tem valido também a disponibilidade da Clara e do Jorge, que me acompanharam ao longo destes anos na teimosia de ver a casa reconstruída.

A obra arrancou em Maio de 2024, mas avança a um ritmo penoso, com paragens sucessivas devido à demora nos pagamentos. Para quem vive num palheiro improvisado há anos, cada inverno é desumano. Acredito – e espero – que este ano o Natal será passado na nova casa. E deixo desde já um novo desafio a quem queira ajudar: há que garantir mobiliário e equipamentos para a nova casa do Franco.

 

O que ganhei
Ao longo destes anos, ganhei muito mais do que dei. Entre voluntários e pessoas que ajudámos, fiz amigos para a vida. Aos amigos e familiares que se associaram e foram tornando possível tudo isto, bem hajam.

Valeu a pena e não descansei até apagar a imagem do filho da Marta a tomar um banho de alguidar num campo de rulotes improvisado… “Há-de voltar a casa”, prometi a mim mesmo. E voltou!

Guardo na memória as tardes no barranco do Vítor, entre tostas com mel (produzido por si), que eram companhia nas longas conversas sobre os seus feitos passados. Posso sempre contar com o sorriso do Franco, cansado e ainda à espera de ter a sua casa, mas sempre verdadeiro, e com os ovos frescos que insiste em oferecer “para os meninos”.

As conversas com o amigo Baltazar, na sua sala, à beira da salamandra e com vista para a serra, acompanhadas de medronho, amendoins e do som do seu acordeão – hoje, um dos meus lugares de refúgio e conforto.

Em 2020, o Gonçalo – meu primo, meu amigo e responsável por me levar a Monchique – partiu. Em sua memória, esta “estória com propósito” só ficará verdadeiramente concluída quando o Franco voltar a casa.

 

 

Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 183) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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