Uma investigação realizada com a participação do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra, defende a implementação de simulações de conflitos e decisões éticas antes da promoção a cargos de chefia, bem como auditorias e canais confidenciais de denúncia para prevenir abusos de poder nas empresas.
Bruno Cordeiro, investigador do ISMT e coautor do estudo, explicou que «devem ser criados mecanismos para que os erros aconteçam primeiro numa simulação e não no local de trabalho».
Segundo o investigador, as empresas devem escolher os seus líderes «pela capacidade de estes gerarem confiança na estrutura, de promoverem comunicação e coesão nas equipas e de prepararem a organização para responder melhor a situações de crise».
A investigação sublinha que a selecção para cargos de chefia deve considerar também a empatia, a inteligência emocional, a capacidade de resolver conflitos e de tomar decisões éticas, não bastando a obtenção de resultados operacionais, económicos ou financeiros positivos.
Bruno Cordeiro alertou que «quando uma organização não supervisiona, não responsabiliza nem avalia os comportamentos das suas chefias, está a criar as condições para que pessoas com perfis de liderança tóxica cheguem ao poder e aí permaneçam».
Os primeiros sinais de uma liderança deficiente apontados no estudo incluem microgestão, favoritismo, comunicação deficiente e ausência de prestação de contas aos proprietários das empresas.
A investigação concluiu ainda que indivíduos que foram alvo de chefias abusivas tendem a repetir esse comportamento quando chegam a liderar.
O trabalho, publicado no livro Employee Experience Management for Organizational Resilience, propõe “inventários de personalidade que permitam identificar traços associados ao narcisismo, ao maquiavelismo e à psicopatia, e simulações de cenários em que o candidato tenha de tomar decisões éticas e resolver conflitos”, conforme indicado pelo ISMT.
Após a promoção, os autores recomendam «avaliações a 360 graus», realizadas por superiores, pares e subordinados, e sugerem auditorias regulares à liderança, canais confidenciais e anónimos para comunicar comportamentos abusivos e comissões de ética independentes. Propõem ainda que os sistemas de recompensa valorizem comportamentos éticos e colaborativos.
«Prevenir e combater lideranças tóxicas não é um exercício de bondade organizacional – é uma condição para a sustentabilidade das organizações», sustentou Bruno Cordeiro.
Entre as propostas está também a utilização da realidade virtual e ambientes imersivos para simular conflitos, decisões sob pressão e situações de abuso de poder, permitindo observar as reacções dos candidatos. «O erro mais caro que uma empresa pode cometer é deixar que um líder aprenda a liderar à custa da própria equipa», defendeu o investigador.
O estudo alerta ainda para os riscos da vigilância excessiva dos trabalhadores e do uso de algoritmos que reproduzam desigualdades existentes. Recomenda que a inteligência artificial e a análise de dados apoiem a supervisão e a decisão, mas nunca substituam a avaliação humana.
A tecnologia não tem ética própria, tem a ética de quem a utiliza, indicou Bruno Cordeiro, acrescentando que uma organização que implementa inteligência artificial sem princípios claros de transparência está apenas a automatizar os seus próprios problemas.
O estudo reuniu a literatura científica internacional sobre liderança tóxica e é da autoria de Bruno Cordeiro, do ISMT, Fernando Oliveira Tavares, da Universidade Portucalense, e Pedro Marques, da Universidade de Coimbra.


















