Europa regula salários. Mas conseguirá regular o valor?

Opinião de Inês Segurado Marques, head of Client Growth da KWAN

Human Resources
8 de Maio 2026 | 11:00

Por Inês Segurado Marques, head of Client Growth da KWAN (empresa portuguesa de outsourcing e nearshoring de perfis tecnológicos)

 

A transparência salarial está a chegar e, desta vez, não como tendência, mas como obrigação. A partir de 2026, as empresas na União Europeia terão de tornar mais claros os critérios de remuneração, justificar diferenças e reportar dados de forma estruturada. À primeira vista, parece um avanço natural. E é. Mas não é um tema simples. E tratá-lo como se fosse pode levar a conclusões erradas.

A ideia de transparência parte de um princípio justo: tornar visível aquilo que durante anos foi opaco e, muitas vezes, desigual. E há um ponto que não pode ser ignorado – existem, de facto, assimetrias. No setor tecnológico, por exemplo, onde a presença masculina continua a ser significativamente superior, é expectável que, em termos agregados, os homens recebam mais. Isto não elimina a necessidade de corrigir desigualdades reais, mas ajuda a compreender que parte das diferenças resulta também da composição do próprio mercado.

É aqui que simplificar começa a ser perigoso.

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Porque quando descemos do agregado para o individual, a realidade deixa de ser linear. No mercado de IT, o valor de cada profissional não é determinado apenas por anos de experiência, nem pode ser reduzido a categorias estanques. Duas pessoas com percursos aparentemente semelhantes podem ter impactos completamente diferentes – pela tecnologia em que trabalham, pela escassez dessa competência no mercado, pelo contexto em que se inserem ou pela forma como aplicam o que sabem.

Uma pessoa com menos anos de experiência numa stack altamente procurada pode, legitimamente, ter uma remuneração superior a alguém com mais anos noutra tecnologia menos valorizada. E isso não é, por si só, um sinal de desigualdade. É o mercado a funcionar.  Para alguns pode ser imperfeito, sim, mas é, essencialmente, dinâmico.

É por isso que a tentativa de transformar tudo em métricas fechadas, comparáveis ao detalhe, pode criar uma perceção de justiça que não corresponde à realidade. Nem tudo é equiparável. Nem tudo pode ser explicado ao cêntimo. E, sobretudo, nem tudo pode ser reduzido a fórmulas.

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Isso não diminui a importância da transparência. Torna-a mais exigente e mais responsável.

Ao mesmo tempo, é inevitável reconhecer que a transparência trará consequências. Ao tornar visíveis diferenças que hoje passam despercebidas, poderá introduzir comparação direta onde antes havia perceção difusa. E com isso virão desconforto, questionamento e, em alguns casos, conflito. Não porque a transparência seja negativa, mas porque expõe uma realidade que nunca foi totalmente equilibrada.

Neste contexto, o papel dos gestores torna-se ainda mais crítico. São eles que têm a responsabilidade de interpretar o contexto, avaliar o contributo, tomar decisões e, agora, explicá-las. A transparência não elimina a necessidade de julgamento, aumenta, sim, a exigência sobre ele. E isso implica maturidade, consistência e, acima de tudo, integridade.

Há também uma questão menos discutida: o equilíbrio entre regulação e autonomia. A Europa, ao contrário de outros blocos, tem assumido um papel mais interventivo – não necessariamente na criação de mercado, mas na sua regulação. Enquanto outras geografias aceleram inovação ou escala, a Europa define limites, enquadra e corrige. A transparência salarial é mais um exemplo disso.

Mas há um desafio implícito nesse caminho: o de garantir que o aumento de regulação não reduz em excesso o espaço de decisão das empresas a modelos demasiado rígidos, num contexto onde a flexibilidade e a capacidade de adaptação são, muitas vezes, determinantes. O desafio não está em tornar visível – está em fazê-lo sem perder a capacidade de reconhecer o que não é padronizável.

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No fundo, a transparência pode trazer clareza, mas não resolve, por si só, a questão essencial: como valorizamos as pessoas.

Se o foco estivesse, de forma consistente, no impacto gerado, no que cada um entrega, na forma como contribui para o coletivo, talvez a necessidade de regulação fosse menor. Talvez a confiança fosse maior. Talvez as diferenças fossem mais compreendidas – mesmo quando existem.

A transparência é um passo importante. Mas, sem critério, não garante justiça; apenas torna as diferenças visíveis e não substitui aquilo que está na base de qualquer organização saudável: critério, coerência e a capacidade de tomar decisões justas num contexto que, por natureza, nunca será totalmente igual.

 

Texto escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 em vigor desde 2009.

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