A emblemática Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, a primeira e mais antiga do País, abriu as portas a mais um Executive Lunch promovido pela Human Resources em parceria com a Randstad, onde o sector em destaque foi a Hotelaria. Dos salários às competências, passando pela urgente necessidade de mudar a forma como o sector é visto enquanto empregador, foram muitos os temas à mesa. A conclusão: «são muitas as frentes de actuação».
Por Ana Leonor Martins e Tânia Reis | Fotos Nuno Carrancho
O sector do Turismo é fundamental para a economia nacional, e os desafios que enfrenta, nomeadamente em termos de Gestão de Pessoas, são muitos. Motivo mais do que suficiente para reunir alguns dos mais importantes players do mercado, de norte a sul do País, sem esquecer as ilhas da Madeira e dos Açores, para reflectir sobre eles.
Quais os principais desafios que enfrenta no que respeita às pessoas? Falta de pessoas ou falta de pessoas com as qualificações necessárias? Que perfis e competências existe maior dificuldade em encontrar? Quais os sectores com os quais mais competem pelos recursos? A resposta estará na imigração? E que dificuldades acrescidas trará? O sector é realmente atractivo para trabalhar? O estigma dos salários corresponde à realidade? A sazonalidade e os turnos são uma “desvantagem” competitiva? Há maior facilidade em recrutar ou manter profissionais? Actualmente, quais são as prioridades?
Estas foram algumas das perguntas propostas para debate. Em formato de Executive Lunch, a iniciativa, promovida pela Human Resources em parceria com a Randstad, reuniu, na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, cerca de duas dezenas de especialistas, desde logo Ana Moreira, directora da Escola, e Catarina Paiva, administradora do Turismo de Portugal, responsável do pelouro da Formação. Entre os representantes de unidades hoteleiras, estiveram presentes: Ana Cardeira, directora de Recursos Humanos da Quinta do Lago; Elsa Guerreiro, directora de Recursos Humanos da AP Hotels; Gabriela Correia, directora de Recursos Humanos da PHC Hotels; Joana Ferreira, coordenadora de Recursos Humanos do Vila Galé Hotéis; John Antunes, Executive director do Sana Hotels; Mafalda Brilhante, directora de Recursos Humanos Corporate do Grupo Pestana; Mara Leitão e Filipe Bonina, directora de Recursos Humanos e director de Marketing, respectivamente, do DHM (Discovery Hotel Management); Rute Alves, directora de Recursos Humanos do Grupo Altis Hotels; Sofia Mota, directora de Recursos Humanos do Grupo Bensaúde; Solange Moreira e Marta del Pozo Escribano, partner & CEO e Chief Revenue Officer, respectivamente, do Ukino Hotels; Tânia Pinto Correia, directora de Recursos Humanos do Savoy Signature Hotels; e Vitor Silva, director de Recursos Humanos do Hotel InterContinental de Lisboa. Da Randstad Portugal, participaram: Isabel Fonseca, National manager de Recrutamento & Selecção; Luís Tubal, Business Unit manager; Olga Caeiro, Business Unit manager; Olga Pamplona, Regional Business director; e Pedro Empis, director da área de Operational Talent Solutions.
A realidade vista em números
Previamente ao almoço, foi partilhado com os convidados o estudo “O mercado de trabalho no sector da Hotelaria”, da Randstad Research, com alguns números interessantes para enquadrar a conversa.
Nos últimos quatro anos, o sector da Hotelaria tem demonstrado uma recuperação considerável, tendo passado de 253,3 mil para 318 mil profissionais empregados em 2024. Ainda que o primeiro trimestre deste ano tenha registado uma queda de 4,1%, o sector – que inclui alojamento e restauração – emprega um total de 316,7 mil profissionais – 58% mulheres –, representando 6,1% do emprego total em Portugal.
Esta é a primeira grande conclusão da análise que, perante a predominância no sector de profissionais qualificados de 38,9% e de semiqualificados de 24% em 2023, alerta ainda para a necessidade de especialização do sector.
Impulsionada pela necessidade de atrair talento e pelo contexto nacional de aumento salarial, também a remuneração no sector tem evidenciado uma tendência de crescimento. No último ano, registou um crescimento de 6,9%, alcançando os 1198 euros em Dezembro de 2024. Obviamente, a compensação varia dependendo da função e do tipo de estabelecimento, com cargos qualificados a terem salários mais elevados.
Outro ponto relevante é o desemprego. A forte dependência do Turismo, e consequente sazonalidade, resultavam, em Fevereiro passado, em 12,4% do total de desempregados registados nos Centros de Emprego do País (mais de 38 500 pessoas). Numa análise comparativa, esse valor reflecte uma diminuição de 5,2% em relação ao mês anterior, mas um aumento de 9,9% em comparação com o período homólogo de 2024, reflectindo uma tendência crescente.
Sem surpresa, a região mais afectada é o Algarve, com 11 182 desempregados (50% do desemprego total da região), seguido pelas regiões de Lisboa (10%) e do Norte (9,8%). Embora com menor expressão, o sector tem um peso relativo considerável no desemprego da Madeira (1039; 17%) e nos Açores (677; 15,2%), onde a sua relevância para o mercado de trabalho local é notória.
Apesar destas flutuações sazonais, a análise mostra que a tendência no sector Hoteleiro é de expansão e que permanece vital no contexto do Turismo, um dos principais motores da economia portuguesa.
Trabalhar o prestígio enquanto empregador, precisa-se
Numa rápida análise aos resultados do estudo da Randstad, Pedro Empis, da empresa especialista em Gestão de Pessoas, destacou que, no geral, são positivos em termos de hóspedes e de receitas, dando nota de que os turistas oriundos dos Estados Unidos da América (EUA) e Alemanha foram o público que mais cresceu. A criação de hotéis também aumentou. E o contributo para o PIB nacional é muito relevante. Chamou, no entanto, a atenção para o facto de, em termos de criação de emprego, os números serem baixos: emprega apenas 6% do total, valor que diminuiu no primeiro trimestre deste ano.
Já Catarina Paiva, administradora do Turismo de Portugal, colocou o foco na necessidade de formação e capacitação, ressalvando, porém, que este tema é transversal a todos os sectores e actividades, tal como o desafio na atracção e retenção de talento. «Prende-se com a alteração na sociedade e a mudança na forma de encarar o trabalho. O sector continua a crescer muito, mas com algumas dores de crescimento, o que torna ainda mais importante a sua valorização. Reconhecendo que os desafios são muitos, defendeu que são várias as vertentes em que é preciso actuar, identificando algumas: liderança, «pondo as pessoas no centro da estratégia e tendo maior atenção à forma como se desenha a employee experience »; atractividade salarial, porque apesar de, «em bom rigor, ter havido um aumento significativo, ainda está abaixo da média nacional, mesmo considerando que os valores médios na remuneração da hotelaria são mais elevados do que na restauração»; e capacitação, pois «o sector está a trabalhar para mercados cada vez mais exigentes, e o serviço – e as pessoas – tem de ser de cada vez maior qualidade. O sector tem-se vindo a sofisticar e a exigência é maior.» Fez ainda notar que o «Turismo é um ecossistema muito diversificado e complexo.»
Concordando-se com o retrato traçado, sublinhou-se, contudo, que «a responsabilidade não pode estar sempre toda do lado dos empresários». A carga fiscal foi de imediato apontada como grande obstáculo. «É impossível competir os salários internacionais», lamentou-se. «O primeiro passo seria rever a elevadíssima carga fiscal.»
Leia o artigo na íntegra na edição de Junho (nº. 174) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.












































































































































































































