Perfil ilustrativo, construído a partir de padrões de consumo reais, para mostrar uma decisão que muitas famílias foram adiando ao longo do Verão e que agora já é possível avaliar com números fechados.
Sérgio e Marta vivem com dois filhos num apartamento com potência contratada de 6,9 kVA e um consumo médio de 400 kWh por mês. É o perfil que costuma servir de referência para a família típica portuguesa. Aderiram a uma tarifa indexada no início do ano, depois de perceberem que a diferença para a melhor tarifa fixa disponível era pequena e que, em meses de preços grossistas baixos, o indexado ficava à frente.
Em Julho, a conta ainda dava razão a essa escolha em termos de ordem de grandeza: a distância entre o custo mensal do indexado e a melhor oferta de preço fixo do mercado era de 11,49 euros. Nas simulações do início de Agosto, essa distância passou para 25,45 euros. Mais do que duplicou num único mês, sem que o consumo da casa se tenha alterado. O indexado ficou nos 98,78 euros mensais e a melhor tarifa fixa nos 73,33 euros.
O que aconteceu no intervalo entre as duas medições não teve nada que ver com Sérgio nem com Marta. Os preços grossistas de electricidade voltaram a subir com força durante o Verão, com o calor a manter o consumo em máximos em toda a península. Uma tarifa indexada transmite essa variação directamente para a factura, com um desfasamento curto. Uma tarifa de preço fixo absorve-a por conta do comercializador, que assumiu o risco no momento da contratação. É a diferença essencial entre os dois produtos, e só se torna visível quando o mercado se move muito.
Há um pormenor neste caso que merece nota e que muda a leitura. A tarifa indexada não ficou apenas mais cara do que a melhor alternativa: ficou mais cara do que a pior. A oferta de preço fixo mais dispendiosa do mercado, para o mesmo perfil, ficou-se pelos 97,21 euros, abaixo do indexado. Numa família nesta situação, qualquer tarifa fixa disponível teria produzido uma factura menor em Agosto, e isso é um resultado que raramente se observa.
Sérgio fez a conta ao fim de semana e a decisão foi rápida, mas vale a pena registar as duas perguntas que fez antes de mudar, porque são as que evitam trocar um problema por outro. A primeira foi sobre fidelização: quanto tempo dura o preço da nova oferta e qual a penalização se sair antes. A segunda foi sobre a base de comparação: se o valor apresentado incluía já as tarifas de acesso e os impostos, ou apenas o preço da energia. Sem estas duas respostas, comparar propostas de electricidade é comparar números que não medem a mesma coisa.
Falta dizer o que este caso não prova. Não retira mérito à tarifa indexada enquanto produto, e muito menos à decisão que Sérgio e Marta tomaram em Janeiro, que estava certa com os dados de então. Prova que a escolha entre preço fixo e preço de mercado não é uma decisão que se toma uma vez: é uma posição que exige revisão periódica, porque o que a justifica pode inverter-se em semanas. A diferença entre uma família que revê o contrato duas vezes por ano e outra que o assinou e nunca mais lhe tocou vale, neste momento, mais de 300 euros anuais para exactamente o mesmo consumo.














