Falta de trabalhadores ameaça retoma dos sectores tradicionais da economia portuguesa

Human Resources com Lusa
22 de Novembro 2021 | 16:45
Falta de trabalhadores ameaça retoma dos sectores tradicionais da economia portuguesa

A falta de trabalhadores está a ameaçar a recuperação dos sectores mais «tradicionais» da economia portuguesa, do têxtil ao calçado, construção ou mobiliário, num problema que não é novo, mas se agravou com a retoma pós confinamento.

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Em declarações à agência Lusa, representantes de várias associações sectoriais defenderam a urgência de políticas de incentivo à contratação de profissionais, para que a escassez de recursos humanos não ponha em causa a recuperação económica daquelas actividades, a par de campanhas de valorização dos sectores ditos mais «tradicionais», muito afectados por «estigmas» e «estereótipos» que os tornam pouco atractivos para os mais jovens.

Segundo o director executivo da Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins (APIMA), «o cluster debate-se com uma grande dificuldade de atracção de talento, registando-se um preocupante envelhecimento da mão-de-obra actualmente empregada nestes sectores».

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«Além do desafio actual, que leva já dezenas de empresas a recusarem encomendas por ausência de colaboradores que permitam dar resposta, prevemos um agravamento deste cenário pela incapacidade de renovação de geração actual por jovens especializados», refere Gualter Morgado.

Embora «as dificuldades sejam transversais», o responsável precisa que «têm particular incidência em posições que exigem alguma especialização, nomeadamente marcenaria, tornearia e estofagem, entre outros».

«As consequências imediatas são a recusa de encomendas e de novos clientes o que, inevitavelmente, provoca constrangimentos ao crescimento das empresas e do próprio sector», refere.

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O dirigente associativo alerta para que, numa fase de retoma como a que se vive actualmente, em que o sector se está novamente a promover internacionalmente nos grandes fóruns internacionais, «é muito preocupante que, depois, não possa ser dado o devido seguimento aos contactos e pedidos de encomenda».

«A fileira tem uma reputação muito positiva a nível global, estamos em cada vez mais mercados e não podemos desperdiçar esta confiança que demoramos muitos anos a conquistar», disse Gualter Morgado à Lusa.

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Apesar de ser «extremamente difícil para uma empresa abordar e resolver autonomamente» esta situação, a APIMA elenca algumas ações a tomar para aumentar a atractividade do sector, como «o investimento no marketing, na modernização da marca e na capacidade de comunicar eficazmente as condições oferecidas e o progresso realizado ao longo dos últimos anos».

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«A nível global, acreditamos que terá de existir um esforço concertado entre os vários players, desde logo no que concerne ao ensino. É essencial que a oferta educativa se adeque àquilo que são as necessidades das empresas, melhorando substancialmente a relação atual entre a oferta e a procura de talento», defende.

Já ao nível legislativo, a APIMA diz ter vindo a propor algumas medidas às entidades regulatórias, nomeadamente a realocação dos reformados, que acredita que «assegurarão, pelo menos a curto prazo, uma melhor capacidade de resposta às empresas».

Também no sector do calçado «a escassez de mão de obra qualificada é, desde há muito, um problema», que, contudo, se «agravou nos últimos meses, por via do aumento significativo das encomendas».

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«O sector praticamente esgotou a mão de obra disponível nas zonas de forte concentração da indústria de calçado, obrigando as empresas a contratar novos profissionais nos concelhos limítrofes», avançou à Lusa o director de comunicação da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS).

Segundo Paulo Gonçalves, «existem vários estereótipos relacionados com a indústria que importa combater», mas «isso só se fará se forem desenvolvidas iniciativas de grande escala que permitam sensibilizar os mais jovens e os seus familiares».

Citando dados da Comissão Europeia, a APICCAPS salienta que, nos setores da moda, «serão precisos na próxima década 500 mil novos colaboradores para que a indústria europeia permaneça na vanguarda», o que levou mesmo o executivo comunitário a desenvolver uma campanha específica, que a associação integrou, designada Open Your Mind.

Para a APICCAPS, urge «reforçar a comunicação com os centros de emprego, com vista a identificar profissionais desempregados em idade activa», assim como «todos os mecanismos de formação à medida das empresas, procurando requalificar trabalhadores». Adicionalmente, impõe-se «a realização de campanhas de sensibilização de grande espectro, que permitam combater os estigmas e as ideias preconcebidas».

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Na fileira da moda, também os setores têxtil e do vestuário se debatem com a escassez de trabalhadores, garantindo a associação empresarial que «não é, como se julga, uma questão salarial», mas antes «uma questão de imagem» que afecta toda a indústria dita «tradicional».

Segundo o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), Mário Jorge Machado, «o sector já antes da pandemia se defrontava com carências de mão de obra, sobretudo em determinadas profissões mais orientadas para a parte produtiva, como costureiras ou operadores de algumas máquinas, ou no apoio à produção, como afinadores ou técnicos de manutenção».

Esta situação voltou agora «a florescer com a retoma da atividade, agravada por uma maior inconstância e disrupção na cadeia de abastecimento e pelo facto de as marcas tomarem cada vez mais decisões de última hora, procurando respostas cada vez rápidas».

O dirigente associativo realça que «estas são profissões que carecem de muita formação profissional e só ao final de vários anos e muita formação e investimento é que se consegue ter profissionais competentes, eficientes e que trazem mais-valia às organizações».

Por isso, sustenta, «a formação profissional deve continuar a ser valorizada e promovida» e «todos, incluindo o Governo e a comunicação social, devem fazer um esforço para valorizar a indústria e as suas profissões, de forma a atrair jovens profissionais, rejuvenescendo o sector e atraindo outras competências igualmente importantes e essenciais, por exemplo, para a transição climática e digital».

«Importa dar a conhecer junto da sociedade, dos consumidores e das famílias, a inovação, I&D [Investigação & Desenvolvimento], tecnologia, criatividade que está presente todos os dias nas nossas empresas. Temos empresas fantásticas a ganhar prémios de inovação e sustentabilidade, com excelentes práticas, por exemplo, ao nível da responsabilidade social e essa informação acaba por apenas ser disseminada num circuito muito fechado ou não ser conhecida de todo», defende.

Mário Jorge Machado diz também que tem sido crescente no sector o recurso à contratação de mão de obra estrangeira, «cada vez mais disponível no mercado e com vontade de trabalhar e de fazer a formação necessária».

A escassez de recursos humanos é também, há vários anos, recorrentemente apontada como um «problema grave» no sector da construção, na sequência da saída para o estrangeiro de milhares de trabalhadores durante a última crise, e continua atualmente a condicionar o crescimento da actividade: «Além do problema das matérias-primas, temos o problema grave da mão de obra e não sei qual deles é pior», afirmou recentemente o presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), em declarações à Lusa.

Salientando que «o sector precisa de 70 mil trabalhadores», mas «neste momento não há mão de obra», Manuel Reis Campos questiona o porquê de, segundo os dados oficiais, estarem registados no fundo de desemprego «32 mil trabalhadores da construção».

«Não se percebe porquê, mas é verdade», lamenta.

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