Por Ricardo Florêncio
Há dois problemas que estão, hoje, no centro das preocupações de quem gere empresas, e com especial relevância para quem gere pessoas nas organizações: o défice de competências digitais e a escassez de talento. Separados, já seriam desafios consideráveis. Juntos, são uma equação difícil de resolver. E vemos que muitas empresas ainda não perceberam o que devem fazer, por onde devem começar.
A escassez não é apenas numérica. Não se trata só de não encontrar pessoas. Trata-se de não encontrar as pessoas certas, com os perfis certos, para um mundo que mudou mais rapidamente do que os sistemas de educação, formação e recrutamento conseguiram acompanhar. O mercado de trabalho está a tentar responder a uma realidade nova com ferramentas antigas. E o défice digital não é um problema de gerações. É um problema de cultura organizacional. De empresas que investiram em tecnologia sem investir devidamente nas pessoas que têm de as usar. Que compraram plataformas e múltiplas soluções de inteligência artificial (IA) e esqueceram-se da literacia. Que desejam medir a transformação em ferramentas instaladas e não em comportamentos alterados.
O que falta, na prática, não são apenas competências técnicas. Falta pensamento crítico. Falta capacidade de questionar a máquina, de trabalhar com a máquina, mas sem lhe delegar o pensamento, e muitas vezes a decisão. E isso não se resolve numa formação de três ou quatro dias.
A grande questão não é o que falta. É o que vamos fazer. E com que urgência. Porque o talento não vai aparecer por decreto e as competências não se desenvolvem por boa vontade. Há curiosidade, isso é inegável. Mas curiosidade dispersa não é estratégia. E quando essa energia se volta mais para o uso pessoal da tecnologia do que para o que ela pode fazer pelas organizações, o gap não fecha, aumenta.
O que se exige agora é foco, investimento e, acima de tudo, tempo. Mas tempo é precisamente o que as organizações sentem que não têm. E enquanto decidem por onde começar, o mundo não espera…
Editorial publicado na revista Human Resources nº 185, de Maio de 2026














