Recentemente, em Tóquio, um robô controlado por IA debruçou-se sobre um homem deitado de costas, colocou suavemente uma mão no seu joelho e outra no seu ombro e virou-o de lado — uma manobra utilizada para mudar fraldas ou prevenir escaras em idosos, noticia a Reuters.
O robô humanóide de 150 kg movido a IA chamado AIREC é um protótipo de um futuro “cuidador” para a população japonesa que está a envelhecer rapidamente e para a escassez crónica de profissionais de geriatria.
«Dada a nossa sociedade envelhecida e altamente avançada e o declínio da natalidade, precisaremos do apoio de robôs para cuidados médicos e de idosos, e nas nossas vidas diárias», disse Shigeki Sugano, professor da Universidade Waseda que lidera a investigação do AIREC com financiamento governamental.
O Japão é a sociedade mais envelhecida do mundo (29,6% da população tem mais de 65 anos), com uma reduzida taxa de natalidade, uma população em idade activa em queda e políticas de imigração restritivas. O restante top 3 é ocupado por Itália (24,2%) e Portugal (24,1%).
O “problema do ano 2025” do Japão
A geração “baby boomer” fez pelo menos 75 anos até ao final de 2024, juntando-se a uma faixa etária chamada “idosos em fase avançada”.
O número de bebés nascidos em 2024 caiu pelo nono ano consecutivo, em 5%, para um mínimo recorde de 720.988, revelaram dados recentes do Ministério da Saúde do Japão.
Enquanto isso, o sector de enfermagem luta para preencher vagas. Havia apenas um candidato por cada 4,25 vagas disponíveis em Dezembro, muito pior do que a proporção geral de empregos por candidato do país, de 1,22, de acordo com dados do governo.
À medida que o governo procura no exterior ajuda para colmatar a lacuna, o número de trabalhadores estrangeiros no sector cresceu ao longo dos anos, mas situou-se em apenas 57.000 em 2023, ou menos de 3% da força de trabalho geral no sector.
«Já estamos numa situação delicada. Daqui a 10 ou 15 anos, será bastante pior», disse Takashi Miyamoto, director na Zenkoukai, operadora de instalações de cuidados a idosos. «A tecnologia é a nossa melhor hipótese de evitar isso.»
O Japão precisa de mais cuidadores
Estima-se que o Japão, um país com uma população em idade activa em declínio, necessite de 2,72 milhões de enfermeiros até 2040, um aumento de 28% em relação ao nível real de 2023.
A Zenkoukai adoptou activamente novas tecnologias, mas o uso de robôs tem sido limitado até agora.
Numa unidade em Tóquio, um robô do tamanho de uma boneca auxilia um profissional de geriatria cantando músicas pop e orientando os residentes em exercícios simples de alongamento, enquanto os cuidadores humanos realizam outras tarefas urgentes.
Uma das utilizações mais práticas das tecnologias de cuidados de enfermagem actualmente são sensores de sono colocados debaixo dos colchões dos residentes para monitorizar as suas condições de sono, reduzindo a necessidade de humanos fazerem as rondas à noite.
Embora os robôs humanóides, como o Optimus da Tesla, estejam a ser desenvolvidos para um futuro próximo, Sugano disse que os robôs que podem interagir fisicamente com os humanos em segurança exigem precisão e inteligência de alto nível.
«Os robôs humanóides estão a ser desenvolvidos em todo o mundo. Mas raramente entram em contacto directo com os humanos. Apenas fazem tarefas domésticas ou algumas tarefas em contexto de fábrica», disse Sugano, que é também presidente da Robotics Society of Japan.
«Quando os humanos entram em cena, surgem questões como a segurança e como coordenar os movimentos de um robô com os de cada indivíduo.»
O robô AIREC é capaz de ajudar uma pessoa a sentar-se ou calçar meias, cozinhar ovos mexidos, dobrar a roupa e realizar outras tarefas úteis em casa. Mas Sugano não espera que o AIREC esteja pronto a ser utilizado em instalações médicas e de enfermagem antes de 2030 e a um preço inicial elevado de 10 milhões de ienes (64 mil euros aproximadamente).
Takaki Ito, profissional de geriatria numa unidade de Zenkoukai, está cautelosamente optimista em relação ao futuro da enfermagem robótica. «Se tivermos robôs equipados com IA que possam compreender as condições de vida e as características pessoais de cada paciente, poderá haver um futuro para que prestem cuidados de enfermagem directamente.»
«Mas não acho que consigam compreender tudo. Robôs e humanos a trabalharem juntos para melhorar os cuidados de enfermagem é um futuro que anseio», conclui.













