
Flash Talk com Ana Santos, InvestigArte: Transformar a investigação criminal numa ferramenta de desenvolvimento de colaboradores
Num mercado onde dinâmicas de team building não faltam, a InvestigArte propõe uma alternativa peculiar: experiências de investigação criminal. Fundada por Ana Santos e Nuno Campos, o objectivo é transformar a arte de investigar numa ferramenta de desenvolvimento humano.
Por Tânia Reis
Fundada a partir da complementaridade entre criatividade e pensamento analítico, a InvestigArte nasceu com a ambição de levar a lógica da investigação criminal para as empresas. O projecto distingue‑se por dinâmicas assentes na análise de informação, na comunicação entre colegas e na construção colectiva de raciocínio. Hoje, é procurado por organizações que querem desenvolver competências essenciais — como a cooperação, o pensamento crítico e a tomada de decisão — através de experiências envolventes, personalizadas e práticas para o dia‑a‑dia das equipas.
Como surgiu a Investigarte?
A InvestigArte nasceu da conjugação de dois perfis complementares. Por um lado, o meu espírito empreendedor e criativo; por outro, a organização, a racionalidade e o pensamento analítico do Nuno. Desde o início, o objectivo foi criar um projecto que reflectisse estas duas dimensões e as transformasse numa experiência com valor real para as pessoas e para as organizações.
Embora ambos apreciem jogos de tabuleiro, a InvestigArte vai muito além desse universo. O projecto assenta num interesse comum pela investigação criminal, pelo raciocínio lógico, pela análise de informação e pela resolução de problemas complexos. Foi essa base que deu origem à ideia de transformar a arte de investigar numa ferramenta lúdica e estruturada.
Hoje, a InvestigArte desenvolve jogos e experiências que estimulam a colaboração, a comunicação e o pensamento crítico, criando contextos onde as equipas trabalham juntas.
O que torna este projecto diferente dos jogos de investigação já existentes?
Este é, muito provavelmente, um dos poucos jogos de investigação que não depende da sorte para avançar. Não existem cartas, dados ou outros elementos aleatórios que influenciem directa ou indirectamente o desenrolar do jogo.
O foco está exclusivamente na forma como os participantes analisam a informação, colaboram entre si e constroem o raciocínio até chegarem ao criminoso. O resultado depende apenas da comunicação, do pensamento crítico e da dinâmica de grupo, tornando cada experiência única e centrada nas competências das próprias equipas.
Além do “comum cidadão”, está disponível para o mundo corporate. A que necessidades ou lacunas nas empresas procura responder esta iniciativa?
Este tipo de jogos surge como resposta à necessidade de criar dinâmicas de team building que combinem envolvimento, desafio intelectual e trabalho efectivo em equipa. Trata-se de uma actividade competitiva, com várias equipas a trabalharem em simultâneo para resolver o mesmo caso, mas em que a competição assenta sobretudo na qualidade do raciocínio e na colaboração interna, e não na sorte ou em factores aleatórios.
A experiência é sustentada por uma narrativa de investigação criminal envolvente e realista, inspirada em situações que poderiam ocorrer na vida real. Este enquadramento facilita o envolvimento dos participantes e promove uma participação activa, independentemente do seu perfil ou experiência prévia com jogos.
Enquanto dinâmica de grupo, a InvestigArte permite observar e trabalhar competências essenciais no contexto organizacional, como a comunicação, a partilha de informação, o pensamento crítico e a tomada de decisão em equipa. Ao contrário de outras actividades de team building mais centradas na rapidez ou na execução de tarefas físicas, o foco está no processo colectivo e na forma como as equipas constroem soluções em conjunto.
Desta forma, a InvestigArte posiciona-se como uma alternativa estruturada e relevante para o mundo corporate, respondendo à necessidade das empresas de promover a coesão das equipas e o desenvolvimento de competências interpessoais de forma envolvente e alinhada com a realidade profissional.
O que torna a vossa abordagem de team building inovadora e diferente?
Temos vindo a perceber que os team buildings, apesar de serem valorizados por todos, são também cada vez mais semelhantes entre si, o que faz com que as empresas tenham dificuldade em proporcionar momentos únicos e originais aos seus colaboradores.
Nesse sentido, a InvestigArte promove soluções personalizadas para empresas que queiram trabalhar connosco e, actualmente, dispomos de propostas que integram actores em cena, criando uma dinâmica ainda mais envolvente e distinta das abordagens mais tradicionais.
Que papel desempenha a arte no desenvolvimento das competências interpessoais e na coesão das equipas?
Para a InvestigArte, a arte é entendida como uma competência: a arte de investigar. Mais do que a simples observação de detalhes, investigar implica saber questionar, relacionar informação, estabelecer ligações entre acontecimentos e formular hipóteses de forma estruturada. Trata-se de uma capacidade que se desenvolve com a prática e que é altamente relevante no contexto organizacional.
Enquanto exercício colectivo, esta arte traduz-se num processo de aprendizagem experiencial, onde os participantes são levados a comunicar, a partilhar pontos de vista, a confrontar ideias e a construir conclusões em conjunto. Neste processo, a capacidade argumentativa de cada participante assume um papel central: saber explicar uma teoria, sustentá-la com factos e convencer a equipa da sua validade é tão importante quanto a capacidade crítica dos restantes elementos em questionar, contrapor e desafiar essas hipóteses. É desta dinâmica de argumentação e contraponto que emergem soluções mais sólidas e bem construídas.
Este trabalho conjunto reforça competências interpessoais fundamentais para as equipas, como a escuta activa, a colaboração, a confiança e a tomada de decisão partilhada. Ao ser aplicada em contexto de formação e team building, a InvestigArte cria um espaço envolvente e estruturado para o desenvolvimento destas competências, contribuindo para a coesão das equipas e para a construção de uma forma de pensar mais crítica, relacional e colaborativa, directamente transferível para o dia-a-dia profissional.
Pode explicar como é desenhada uma experiência típica para uma empresa?
Cada experiência é desenhada de forma personalizada, tendo em conta as características e necessidades de cada empresa e de cada equipa. O ponto de partida passa pela análise do número de participantes, do tipo de organização e dos objectivos que se pretendem trabalhar com a dinâmica.
Dispomos de uma versão base, adaptável a diferentes contextos empresariais, que garante uma experiência estruturada e consistente. A partir dessa base, existem soluções mais exclusivas para empresas que procuram um nível de imersão superior. Estas podem incluir a personalização de personagens, a integração de actores ao longo da experiência ou a adaptação de elementos narrativos ao contexto específico da empresa.
Para além disso, o processo é flexível e colaborativo, estando aberto a sugestões das próprias empresas, de forma a garantir que cada experiência é ajustada à realidade da equipa e alinhada com os seus objectivos, seja num contexto mais informal ou num ambiente mais estruturado.
Como garantem que estas experiências são práticas e aplicáveis ao dia-a-dia das equipas?
A personalização é um elemento central no desenho de cada experiência. Através de uma conversa prévia com as equipas de Recursos Humanos, procuramos compreender as necessidades específicas de cada empresa, seja ao nível do trabalho dentro das equipas, seja na promoção da ligação entre diferentes colaboradores.
Com base nesse diagnóstico, adaptamos a dinâmica e o enquadramento do jogo, garantindo que as competências trabalhadas — como a comunicação, a análise crítica e a tomada de decisão em grupo — são directamente aplicáveis ao contexto profissional. Desta forma, a experiência mantém uma ligação clara ao dia a dia das equipas e às suas realidades concretas.
Como asseguram que as experiências são inclusivas e acessíveis para todos?
Embora os desafios possam ser exigentes ao nível do raciocínio, a experiência é simples de compreender e de jogar, o que permite que os participantes entrem facilmente na dinâmica, independentemente do seu perfil ou experiência anterior. O foco está no processo colectivo e na participação de todos, e não na complexidade das regras.
Nas dinâmicas em contexto empresarial, as experiências são sempre acompanhadas por um – ou mais – moderador, responsável por gerir os tempos, apoiar o desenrolar do jogo e ajustar o nível de dificuldade sempre que necessário. Para além disso, procuramos compreender eventuais necessidades específicas das empresas ou das equipas, estando sempre disponíveis para adaptar componentes da experiência, de forma a garantir uma participação inclusiva e equilibrada.
Que benefícios poderá ter nas equipas participantes?
A experiência é, antes de mais, vivida de forma positiva pelos participantes. O feedback que temos recebido indica que as pessoas gostam genuinamente de jogar, o que faz com que associem a iniciativa a um momento valorizado e bem recebido dentro da empresa, gerando um sentimento de reconhecimento por parte dos colaboradores.
Para além da dimensão emocional, a experiência promove um forte sentimento de superação e de conquista colectiva. Resolver o caso exige envolvimento, persistência e trabalho em equipa, e o sucesso alcançado reforça a confiança do grupo. Essa sensação de objectivo cumprido cria um paralelismo directo com o contexto profissional, onde desafios partilhados e metas alcançadas em conjunto contribuem para equipas mais motivadas, coesas e orientadas para resultados.
Como medem o impacto destas iniciativas na cultura organizacional e no engagement dos colaboradores?
Embora o foco principal esteja sempre na experiência em si, procuramos medir o impacto das iniciativas através de feedback estruturado recolhido após cada sessão. Este feedback é obtido junto das equipas de Recursos Humanos e também directamente junto dos participantes, permitindo recolher percepções sobre o nível de envolvimento, a utilidade da experiência e possíveis sugestões de melhoria.
Durante a dinâmica, os moderadores acompanham activamente o funcionamento das equipas, observando a forma como comunicam, colaboram e tomam decisões ao longo do jogo. Esta observação em tempo real permite identificar padrões de interacção e níveis de engagement de forma natural e contextualizada.
No final de cada sessão, existe sempre um momento de partilha e devolução. As equipas são convidadas a reflectir sobre a experiência e a dar o seu feedback, ao qual se junta uma análise honesta por parte da InvestigArte, baseada no que foi observado durante a dinâmica. Este momento permite ligar a experiência ao contexto organizacional e reforçar a sua aplicabilidade prática.
Como vê a evolução do team building nos próximos anos? A arte terá um papel cada vez mais relevante?
A ideia de que o team building é uma tendência passageira não reflecte a realidade actual das organizações. Pelo contrário, estas dinâmicas tendem a assumir um papel cada vez mais relevante, sobretudo num contexto de trabalho marcado pelo teletrabalho, por modelos híbridos e por uma crescente distância entre pessoas e equipas.
Ao mesmo tempo, muitas empresas enfrentam uma saturação dos formatos tradicionais de team building, que nem sempre conseguem gerar envolvimento real ou aprendizagens duradouras. É neste cenário que a arte, no contexto da InvestigArte, assume um papel central. Falamos da arte de investigar: a capacidade de questionar, relacionar informação, construir hipóteses e tomar decisões em conjunto, competências essenciais num ambiente profissional cada vez mais complexo.
Num dia-a-dia cada vez mais fragmentado e mediado por ferramentas digitais, experiências que exigem presença, pensamento colectivo, argumentação e espírito crítico tornam-se particularmente relevantes. A abordagem da InvestigArte cria espaços onde as equipas são convidadas a pensar em conjunto, a debater ideias e a construir soluções de forma colaborativa.
Nesse sentido, a arte, tal como é entendida e trabalhada pela InvestigArte, terá um papel cada vez mais relevante no futuro do team building, não apenas como elemento diferenciador, mas como resposta directa às novas formas de trabalhar e de nos relacionarmos dentro das organizações.
Que competências do futuro podem ser potenciadas através de experiências artísticas?
O pensamento crítico, a capacidade de análise e a formulação de hipóteses sustentadas em factos são competências centrais desenvolvidas ao longo destas experiências. Investigar implica questionar, relacionar informação e tomar decisões em contextos de incerteza, com base em evidência concreta.
Em contexto de grupo, estas competências reforçam ainda a argumentação, a escuta activa e a tomada de decisão partilhada, preparando os participantes para desafios profissionais cada vez mais complexos e colaborativos.
Quais estão a ser os maiores desafios na implementação deste projecto junto das empresas?
Um dos principais desafios tem sido ultrapassar a percepção inicial de que se trata apenas de um jogo de tabuleiro. Em alguns contextos empresariais, existe ainda alguma resistência a iniciativas que fogem aos formatos tradicionais de team building, sobretudo quando incluem uma componente lúdica mais evidente. Essa percepção está, por vezes, associada à ideia de que a experiência poderá ser pouco envolvente, o que não corresponde à realidade.
Na prática, a dinâmica revela-se altamente participativa e estimulante, assente numa forte partilha de ideias, argumentação e construção conjunta de soluções. O envolvimento dos participantes é consistente ao longo da experiência e, até ao momento, não tivemos qualquer feedback que a descrevesse como aborrecida ou desmotivante, o que confirma o seu impacto junto das equipas.
Que objectivos definiram para o próximo ano?
O desempenho positivo das vendas digitais ao cliente final permite-nos encarar o próximo ano com objectivos bem definidos. Um dos principais passa por continuar a desenvolver novas experiências e novos jogos, aprofundando o conceito da investigação enquanto elemento central e diferenciador do projecto.
Em paralelo, queremos consolidar e expandir a presença da InvestigArte no mundo corporate, reforçando a oferta de dinâmicas de team building e formação para empresas. Procuramos também explorar novos formatos e canais, nomeadamente a presença em pontos de venda físicos e o desenvolvimento de parcerias estratégicas com outros players do mercado, que nos permitam ampliar o alcance e o impacto das experiências, mantendo sempre a coerência com o ADN do projecto.