Flash Talk com Bárbara Bouçon, district.space: «O espaço de trabalho é onde se constrói cultura, promove inovação e desenvolve confiança»

Os escritórios deixaram de ser apenas locais onde se trabalha. Para Bárbara Bouçon, Managing director do district.space, o futuro do trabalho passa por ambientes flexíveis, colaborativos e sustentáveis, capazes de gerar impacto positivo tanto nas empresas como nas cidades.

Tânia Reis
13 de Agosto 2026 | 11:20
Flash Talk com Bárbara Bouçon, district.space: «O espaço de trabalho é onde se constrói cultura, promove inovação e desenvolve confiança»

Por Tânia Reis

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Os espaços físicos assumem um papel estratégico. O modelo desenvolvido pelo district.space procura responder a esse desafio. Para a responsável do district.space, os espaços de trabalho devem ir além da sua função operacional, assumindo-se como plataformas de colaboração, aprendizagem e criação de valor para empresas, profissionais e comunidades.

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O district.space nasceu já com os princípios ESG integrados na sua génese. Na prática, o que muda quando uma empresa incorpora estas preocupações desde o primeiro dia, em vez de as acrescentar mais tarde à estratégia?

Muda praticamente tudo. Quando os princípios ESG fazem parte da génese de uma organização, deixam de ser um conjunto de iniciativas isoladas para passarem a orientar todas as decisões estratégicas. Influenciam a forma como estruturamos o negócio, escolhemos parceiros, gerimos os investimentos, desenhamos os espaços e até a cultura que queremos construir.

No district.space, nunca encarámos a sustentabilidade como uma resposta às exigências regulatórias ou como um elemento de comunicação. O projecto nasceu precisamente da convicção de que é possível conciliar desempenho económico com impacto positivo para as pessoas e para os territórios. Essa visão reflecte-se em decisões muito concretas, desde a adopção de princípios de economia circular, até à escolha de parceiros alinhados com os nossos valores, como o Café Joyeux, ou à promoção de iniciativas como o Diagnóstico ESG e o Mural do Clima para os nossos membros.

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Crescer com estes princípios desde o primeiro dia permite-nos tomar decisões mais consistentes e construir um modelo de negócio coerente e preparado para responder aos desafios actuais e futuros.

 

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Com mais de 15 anos de percurso profissional, de que forma estas experiências moldaram a sua visão sobre o futuro dos espaços de trabalho e influenciaram a criação do district.space?

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Ao longo da minha carreira, tive oportunidade de trabalhar em diferentes sectores e contextos internacionais, desde a cosmética até ao imobiliário e ao coliving. Apesar das diferenças entre estas áreas, houve uma aprendizagem que se manteve constante: as organizações mais resilientes são aquelas que colocam verdadeiramente as pessoas no centro da sua estratégia.

Estas experiências levaram-me a olhar para os espaços de trabalho de uma forma diferente. Durante muitos anos, o escritório foi encarado, sobretudo, como infra-estrutura necessária para desenvolver uma actividade. Hoje, sabemos que é muito mais do que isso. É um espaço onde se constrói a cultura organizacional, onde se promove a inovação, onde se desenvolvem relações de confiança e onde as equipas passam uma parte significativa do seu tempo.

Foi precisamente dessa reflexão que nasceu o district.space. Não pretendíamos criar apenas mais um operador de coworking, mas desenvolver um ecossistema capaz de responder às novas expectativas das empresas e dos profissionais. Um espaço onde flexibilidade, colaboração, bem-estar e sustentabilidade coexistem de forma natural, criando melhores condições para trabalhar, inovar e crescer.

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Como é que isso se consegue? A forma de trabalhar mudou tanto nos últimos anos…

A transformação que estamos a viver vai muito além da adopção de modelos híbridos. O que mudou foi a forma como as pessoas valorizam o trabalho e o papel que este ocupa nas suas vidas. Actualmente, existe uma expectativa muito maior em relação à qualidade da experiência proporcionada pelas organizações.

Neste contexto, os espaços de cowork assumem um papel cada vez mais relevante, porque conseguem combinar flexibilidade com sentido de comunidade. Deixaram de ser uma solução dirigida apenas a freelancers ou startups para passarem a integrar a estratégia de empresas de diferentes dimensões que procuram adaptar-se mais rapidamente às mudanças do mercado.

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Acreditamos que a produtividade depende, também, da qualidade das relações que se estabelecem entre as pessoas. Criámos espaços que incentivam o encontro, a colaboração informal, a partilha de conhecimento e a criação de redes profissionais. Quando diferentes organizações convivem no mesmo ecossistema, surgem novas perspectivas, oportunidades de colaboração e inovação que dificilmente acontecem em ambientes mais fechados. O futuro do trabalho passará, cada vez mais, por modelos flexíveis, mas também por comunidades capazes de potenciar talento, criatividade e aprendizagem contínua.

 

Muitas empresas procuram hoje atrair e reter talento num contexto cada vez mais competitivo. De que forma o espaço físico e a experiência de trabalho influenciam essa capacidade?

Hoje, o espaço de trabalho é uma extensão da cultura organizacional. É um dos primeiros elementos que transmite aos colaboradores aquilo que a empresa valoriza e a experiência que pretende proporcionar.

As pessoas procuram ambientes que favoreçam o bem-estar, a colaboração e a flexibilidade, mas também empresas cujos valores estejam alinhados com os seus. Um escritório pensado para responder a estas expectativas reforça o sentimento de pertença e contribui para uma experiência de trabalho mais positiva. Atrair talento já não depende apenas da remuneração ou da função. Depende também da capacidade de criar ambientes onde as pessoas sintam que podem crescer, colaborar e desenvolver o seu potencial.

 

O district.space aposta na regeneração urbana como parte do seu modelo de negócio. Como surgiu esta visão e de que forma a recuperação de edifícios e zonas urbanas pode gerar valor para empresas, trabalhadores e comunidades locais?

Desde o início, quisemos que o district.space tivesse um impacto que ultrapassasse os limites do próprio edifício. A nossa ambição nunca foi apenas disponibilizar espaços de trabalho, mas contribuir para tornar as cidades mais dinâmicas, colaborativas e preparadas para responder às novas formas de trabalhar.

Foi precisamente por isso que começámos por Setúbal. Poderíamos ter iniciado o projecto num mercado mais consolidado, mas acreditámos que havia uma oportunidade de gerar valor num território com enorme potencial de desenvolvimento empresarial e social. Essa escolha reflectiu a nossa convicção de que a regeneração urbana não acontece apenas através da reabilitação física dos edifícios, mas também da capacidade de criar comunidades e oportunidades económicas.

Cada unidade district.space procura integrar-se no ecossistema local, estabelecer parcerias com associações, instituições e empresas da região e criar uma rede de colaboração que beneficia todos os intervenientes. Quando conseguimos ligar pessoas, organizações e território, o impacto vai muito além da ocupação de um espaço físico.

 

Existe uma relação directa entre bem-estar, sustentabilidade e produtividade? Que aprendizagens têm retirado da operação dos vossos espaços relativamente ao comportamento e às expectativas dos utilizadores?

Sem dúvida que existe essa relação directa. Sabemos que a produtividade depende cada vez mais da qualidade da experiência de trabalho. Durante muitos anos, avaliámos o desempenho apenas através de indicadores quantitativos, mas percebemos que factores como bem-estar, conforto, bom ambiente ou sentimento de pertença têm um impacto muito significativo nos resultados das equipas.

Ao longo da operação, temos observado uma evolução muito interessante nas expectativas dos utilizadores. Continuam a valorizar a flexibilidade, mas procuram também espaços que promovam relações profissionais, oportunidades de aprendizagem, iniciativas ligadas à sustentabilidade e uma verdadeira comunidade.

É exactamente essa combinação que faz a diferença. Quando as pessoas encontram um ambiente onde conseguem ser produtivas, desenvolver relações de confiança e sentir que fazem parte de um projecto com propósito, o seu envolvimento aumenta. E organizações com colaboradores mais envolvidos tendem a ser, também, mais inovadoras e resilientes.

 

Que aprendizagens de liderança trouxe da carreira internacional que mencionou anteriormente para a construção do district.space?

Cada uma dessas experiências contribuiu para reforçar uma ideia que considero essencial. Liderar não significa ter todas as respostas, é criar as condições necessárias para que as equipas consigam encontrar as melhores soluções. Trabalhar em contextos tão diferentes ensinou-me a importância da adaptação, da escuta activa e da diversidade de perspectivas. Aprendi que as organizações evoluem mais rapidamente quando existe confiança, autonomia e uma cultura onde as pessoas sentem que podem contribuir.

No district.space, procuramos reflectir essa visão. Valorizamos uma liderança próxima, colaborativa e transparente, que incentive a aprendizagem contínua e a inovação. Acredito que o papel dos líderes será cada vez menos controlar processos e cada vez mais criar contextos onde as pessoas possam crescer, colaborar e desenvolver todo o seu potencial.

 

Falando em liderança, como vê evoluir o conceito de sucesso empresarial nos próximos anos?

Acredito que o conceito de sucesso empresarial está a tornar-se mais completo. Os resultados financeiros continuarão a ser essenciais, mas deixarão de ser o único indicador relevante.

As organizações serão cada vez mais avaliadas pela forma como gerem o talento, pela confiança que geram junto dos seus stakeholders e pelo impacto que têm nas comunidades e no ambiente. Esta mudança não resulta apenas de uma maior consciência social, mas também das expectativas de investidores, clientes e colaboradores. Os líderes terão, por isso, de demonstrar que é possível criar valor económico de forma responsável. Na minha perspectiva, esse equilíbrio deixará de ser uma vantagem competitiva, para passar a ser uma condição de sustentabilidade do próprio negócio.

 

Muitas organizações continuam a encarar os temas ESG [Environmental, Social, and Governance] como uma obrigação regulatória. O que falta para serem considerados uma verdadeira alavanca de negócio e de competitividade?

Creio que ainda falta demonstrar, de forma mais concreta, a relação entre sustentabilidade e criação de valor. Quando falamos apenas de cumprimento regulatório, o ESG tende a ser percepcionado como um custo. Quando demonstramos que contribui para atrair talento, aumentar a eficiência, reduzir riscos e reforçar a confiança de clientes e investidores, a perspectiva muda completamente.

Também será importante simplificar a forma como comunicamos estes temas. Muitas empresas sentem dificuldade em traduzir conceitos complexos em decisões práticas para o negócio. Quanto mais conseguirmos demonstrar resultados concretos e benefícios mensuráveis, maior será a integração dos princípios ESG nas estratégias empresariais. No futuro, acredito que a questão deixará de ser: “Vale a pena investir em sustentabilidade?”, para passar a ser “como é possível competir sem o fazer?”.

 

O mercado de trabalho valoriza cada vez mais propósito, identidade e sentido de pertença. Como podem os espaços de trabalho contribuir para criar comunidades mais fortes e culturas organizacionais mais humanas?

O sentimento de pertença não se constrói apenas através de políticas internas ou de eventos ocasionais. Constrói-se, também, nos espaços onde as pessoas trabalham diariamente e nas relações que aí desenvolvem.

No district.space, gostamos de falar em “comunidade”, porque acreditamos que o trabalho também deve criar ligações entre pessoas e organizações. Chamamos “Districteers” aos nossos membros, especificamente porque queremos que sintam que fazem parte de um projecto maior do que o espaço físico que ocupam. Promovemos momentos de networking, iniciativas ligadas à sustentabilidade, programas de formação e parcerias com organizações locais, porque defendemos que são experiências que fortalecem as relações entre empresas e profissionais.

No futuro, as organizações distinguir-se-ão não apenas pelos produtos ou serviços que oferecem, mas pela capacidade de criar comunidades onde as pessoas se sintam valorizadas, envolvidas e inspiradas.

 

Portugal tem vindo a afirmar-se como destino para talento internacional, empreendedores e trabalhadores remotos. Que oportunidades e desafios esta realidade coloca para as empresas e para os operadores de espaços flexíveis?

Portugal reúne condições muito competitivas para atrair talento internacional, como a crescente capacidade de inovação do seu tecido empresarial. Esta realidade representa uma oportunidade importante para as empresas, mas exige também novas respostas por parte dos espaços de trabalho.

Os profissionais procuram cada vez mais ambientes flexíveis, tecnologicamente preparados e capazes de facilitar a integração em novas comunidades. Já não basta disponibilizar uma secretária ou uma boa localização. É necessário criar experiências que favoreçam a colaboração, o networking e a construção de relações profissionais.

Ao mesmo tempo, esta diversidade de perfis representa um enorme potencial para estimular a inovação. Quando diferentes culturas, experiências e formas de trabalhar coexistem no mesmo espaço, criam-se condições muito mais favoráveis ao surgimento de novas ideias e projectos.

 

Quando imagina o mundo do trabalho daqui a dez anos, que transformações considera inevitáveis e que papel gostaria que o district.space desempenhasse nessa evolução?

Acredito que o trabalho será cada vez mais flexível, colaborativo e orientado para resultados, mas também mais humano. A tecnologia continuará a transformar profundamente a forma como trabalhamos, claro, mas vai abrir um novo espaço para que as pessoas se destaquem e se concentrem cada vez mais na criatividade, na inovação e na tomada de decisão.

Paralelamente, os espaços de trabalho continuarão a desempenhar um papel fundamental, mas com uma função diferente da que tiveram no passado. Deixarão de existir apenas para reunir equipas e passarão a ser locais onde se reforça a cultura organizacional, onde se promove aprendizagem, onde se desenvolvem relações e onde se criam comunidades.

Gostaria que o district.space contribuísse para essa transformação. Não apenas através da expansão da rede, mas sobretudo pela capacidade de demonstrar que os espaços de trabalho podem ser motores de desenvolvimento económico, social e urbano. Se conseguirmos ajudar empresas a crescer, pessoas a desenvolver o seu potencial e cidades a tornarem-se mais colaborativas e sustentáveis, estaremos a cumprir a missão que esteve na origem deste projecto.

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