Por Tânia Reis
Um ano após o lançamento do Movimento +Fertilidade, a iniciativa já envolveu perto de 30 empresas de 12 sectores de actividade e impactou mais de 30 mil colaboradores. Para a associação, estes números demonstram que as organizações começam a reconhecer a fertilidade e a parentalidade como temas estratégicos de Gestão de Pessoas, com impacto no bem-estar, na atracção e retenção de talento e também na resposta aos desafios demográficos do país.
Um ano após o lançamento do Movimento +Fertilidade, que balanço fazem?
Ainda existe um caminho pela frente, mas de forma geral o balanço é positivo porque demonstra que existe uma crescente consciência de que a fertilidade deixou de ser apenas um tema da esfera privada ou da saúde, e afirma-se cada vez mais como um desafio social, demográfico e também organizacional.
Este Movimento +Fertilidade lançado por nós, Associação Portuguesa de Fertilidade, pela Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução e pela Direção da Subespecialidade de Medicina da Reprodução da Ordem dos Médicos, nasceu precisamente para mobilizar empresas, instituições e sociedade civil em torno desta causa. Um ano depois, reúne já perto de 30 empresas de 12 sectores de actividade distintos e, através de sessões de esclarecimento, talks, debates e outras iniciativas de sensibilização, impactou mais de 30 mil colaboradores em Portugal.
Mais do que os números, é particularmente relevante verificar que a fertilidade começa finalmente a entrar na agenda das organizações. Existe, hoje, uma maior disponibilidade para discutir este tema, desenvolver políticas específicas e reconhecer que apoiar os colaboradores nos seus projectos de parentalidade também faz parte de uma estratégia moderna de Gestão de Pessoas.
Quais foram os principais impactos nas organizações que aderiram ao movimento neste primeiro ano?
O maior impacto foi, sem dúvida, o aumento de conhecimento e criação de compromisso das empresas. Algumas empresas aderiram ao Movimento sem terem ainda políticas estruturadas nesta área, mas com o compromisso de se inteirarem, envolverem os seus colaboradores em sessões de literacia, compreenderem melhor o tema e perceber como podiam evoluir.
Ao longo deste primeiro ano assistimos a uma maior abertura para falar de fertilidade no contexto laboral, desde a realização de acções de sensibilização, à revisão de benefícios existentes e, sobretudo, ao envolvimento das lideranças nesta reflexão. Para estas empresas o tema deixou de ser visto como uma questão exclusivamente individual para passar a ser entendido como parte integrante das políticas de bem-estar, diversidade, inclusão e conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar.
Este é um processo de transformação cultural que naturalmente leva tempo, mas acreditamos que foi dado um primeiro passo muito importante.
Que tipo de medidas têm tido maior adesão ou impacto junto dos colaboradores nas empresas envolvidas?
Temos verificado que as medidas mais valorizadas são aquelas que respondem às diferentes fases da vida dos colaboradores e que contribuem para uma melhor conciliação entre a vida profissional e familiar. Para além da flexibilidade de horários, do trabalho remoto ou do apoio durante e para tratamentos de fertilidade, existem muitas outras iniciativas que fazem efectivamente a diferença, como o alargamento da licença parental para além do previsto na lei, salas de amamentação, seguros de saúde para o agregado familiar, benefícios associados ao nascimento de filhos, apoio à infância, creches, colónias de férias ou dias adicionais dedicados à família.
Mas gostaria de destacar também a importância da literacia. Recentemente promovemos uma sessão online sobre fertilidade dirigida aos colaboradores das empresas aderentes, onde abordámos temas como a fertilidade masculina, a reserva ovárica, a endometriose, a Procriação Medicamente Assistida, a preservação da fertilidade e a doação de gâmetas em Portugal. A adesão foi muito significativa, sobretudo entre os colaboradores mais jovens, que participaram activamente colocando inúmeras questões. Isso demonstra que existe uma vontade real de compreender melhor estes temas e reforça a importância de as empresas promoverem informação credível e baseada na evidência.
Até que ponto as políticas de apoio à fertilidade e parentalidade influenciam hoje a atracção e retenção de talento?
Influenciam cada vez mais. Hoje, as pessoas procuram empresas onde sintam que podem desenvolver a sua carreira sem terem de adiar ou comprometer os seus projectos pessoais e familiares. As novas gerações valorizam organizações que demonstram preocupação genuína com o bem-estar dos colaboradores e que oferecem condições para conciliar a vida profissional com outras dimensões da vida.
Aliás, essa realidade ficou bem evidente numa das mais recentes sessões promovidas pelo Movimento +Fertilidade. Tratou-se de uma sessão online dedicada à fertilidade que contou com uma participação muito significativa, sobretudo de colaboradores mais jovens, que colocaram inúmeras questões sobre temas como a fertilidade masculina, a reserva ovárica, a preservação da fertilidade ou os tratamentos de Procriação Medicamente Assistida. Este interesse demonstra que existe uma geração cada vez mais informada, que procura empregadores alinhados com as suas preocupações e expectativas.
Quais são ainda as maiores barreiras ou resistências por parte das organizações quando se fala de fertilidade no local de trabalho?
A maior barreira continua a ser cultural. Durante muitos anos, o planeamento familiar foi estruturado na educação para a contracepção e toda a sociedade precisa mudar em direcção ao conceito de planeamento da sua fertilidade. Além disso a fertilidade era encarada como um assunto exclusivamente privado e, por isso, muitas organizações nunca reflectiram sobre o impacto que o contexto laboral pode ter nas decisões relacionadas com a parentalidade.
Existe também algum desconhecimento sobre o que significa, na prática, apoiar a fertilidade nas empresas. Muitas organizações acreditam que isso implica investimentos elevados ou mudanças profundas na sua operação, quando, na realidade, existem diversas medidas que podem ser implementadas de forma gradual e adaptadas à realidade de cada empresa.
Outro desafio passa por quebrar o estigma que ainda existe em torno deste tema. Muitos colaboradores continuam a sentir alguma dificuldade em falar sobre tratamentos de fertilidade ou sobre as dificuldades que enfrentam, por receio de serem vistos de forma diferente ou de isso poder ter impacto no seu percurso profissional. Criar uma cultura organizacional mais aberta e informada é, por isso, um passo fundamental.
Como podem as empresas integrar estas políticas de forma sustentável, equilibrando as necessidades do negócio com o bem-estar dos colaboradores?
O primeiro passo é perceber que não existe um modelo único. Cada empresa tem uma realidade diferente e deve construir um percurso adequado à sua dimensão, ao seu sector de actividade e às necessidades das suas equipas.
O mais importante é que estas políticas façam parte da estratégia de Gestão de Pessoas e não resultem apenas de iniciativas pontuais. As empresas podem começar por ouvir os colaboradores, identificar as áreas prioritárias e implementar medidas de forma gradual, avaliando o seu impacto ao longo do tempo.
A experiência das organizações que integram o Movimento demonstra que existem muitas formas de fazer a diferença: desde horários mais flexíveis, políticas de parentalidade mais abrangentes ou benefícios de apoio à fertilidade, até acções de sensibilização e promoção da literacia em saúde reprodutiva. Mais do que implementar medidas avulsas, o verdadeiro desafio é construir uma cultura organizacional onde a fertilidade e a parentalidade sejam encaradas como temas naturais, apoiados de forma consistente e sem estigma.
Num contexto em que a taxa de fertilidade em Portugal continua abaixo do limiar de substituição, que papel real podem as empresas desempenhar na inversão desta tendência?
É preciso dizer que não pretendemos forçar as pessoas a terem filhos. O que pretendemos é criar uma sociedade, onde todos os actores têm acesso ao conhecimento adequado sobre o tema para lhes permitir tomar decisões informadas. Dito isto, as empresas não conseguem resolver, por si só, um desafio demográfico desta dimensão, mas podem ter um papel muito relevante na criação das condições que permitem às pessoas concretizar os seus projectos familiares.
Sabemos que muitos casais adiam a decisão de ter filhos devido à instabilidade profissional, à dificuldade em conciliar vida pessoal e carreira ou ao receio de sofrer penalizações no contexto laboral. Quando as organizações criam ambientes mais favoráveis à fertilidade e à parentalidade, estão a remover alguns desses obstáculos. Naturalmente, esta resposta deve ser complementada por políticas públicas na área da saúde, da educação e da protecção social, porque estamos perante um desafio que exige uma actuação conjunta de toda a sociedade.
O Selo +Fertilidade surge como um marco importante. Que objectivos concretos pretendem alcançar com esta distinção?
O Selo +Fertilidade representa uma nova etapa na evolução do Movimento. O objectivo é reconhecer publicamente as organizações que integram, de forma consistente, iniciativas e políticas de apoio à parentalidade, à fertilidade e à conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar, criando exemplos que possam inspirar outras empresas.
Na sua primeira edição, o Selo terá um carácter altamente selectivo e será atribuído apenas a dez empresas. Esta opção pretende posicionar esta distinção como uma referência de prestígio e credibilidade, valorizando organizações que demonstrem um compromisso efectivo e sustentado, e não apenas a existência de iniciativas pontuais.
Queremos que, no futuro, o Selo +Fertilidade seja reconhecido como um indicador de excelência em Gestão de Pessoas e uma referência para colaboradores, candidatos e restantes organizações.
Que critérios são determinantes para a atribuição do Selo e como garantem que ele reflecte práticas verdadeiramente consistentes e não apenas declarações de intenção?
A atribuição do Selo assenta num processo de candidatura anual, reservado às empresas aderentes ao Movimento +Fertilidade, e numa avaliação independente conduzida por um Comité Técnico constituído pelas entidades fundadoras da iniciativa.
A avaliação vai muito além da existência de intenções ou compromissos genéricos. São analisadas as políticas concretas implementadas pela organização, a sua integração na estratégia de Gestão de Pessoas, as medidas de conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar, as iniciativas de promoção da literacia em saúde reprodutiva e planeamento familiar, os mecanismos de monitorização e avaliação do impacto das medidas e o envolvimento da liderança na construção de uma cultura organizacional verdadeiramente promotora da fertilidade e da parentalidade.
Pretendemos distinguir organizações que demonstrem consistência, continuidade e resultados, reforçando a credibilidade do Selo e incentivando outras empresas a evoluírem nesta área.
O Movimento defende uma ação articulada entre sector público e privado. Que medidas ou políticas públicas seriam essenciais para complementar o papel das empresas nesta área?
O desafio da fertilidade exige uma resposta integrada. As empresas têm um papel muito relevante na criação de ambientes de trabalho favoráveis à parentalidade, mas essa intervenção deve ser complementada por políticas públicas robustas.
Entre as medidas que consideramos prioritárias estão o reforço do acesso aos tratamentos de Procriação Medicamente Assistida, a redução dos tempos de espera no Serviço Nacional de Saúde, o reforço da literacia em saúde reprodutiva e a criação de incentivos à natalidade. O alargamento das licenças parentais e o reforço das políticas de conciliação entre vida profissional e familiar são igualmente instrumentos importantes para criar condições que permitam às pessoas concretizar os seus projetos familiares. Acima de tudo é fundamental tornar a natalidade / fertilidade uma prioridade a nível nacional.
Quando empresas e Estado caminham na mesma direcção, o impacto é significativamente maior. É precisamente essa complementaridade que o Movimento +Fertilidade procura promover: mobilizar toda a sociedade para criar condições que permitam às pessoas terem filhos quando o desejarem, sem que tenham de escolher entre a família e a carreira.



















