Por Tânia Reis
A procura por percursos profissionais alternativos está a ganhar expressão em Portugal, impulsionada pela necessidade de requalificação, pela ascensão da economia do bem-estar e pela procura de profissões mais resilientes à automação. Helena Berke explica como a formação especializada está a acompanhar esta evolução e porque continuará o capital humano a ser o principal factor de diferenciação das organizações.
A EFAPE [Escola Profissional de Estética e Cabeleireiro] surge num momento em que muitos profissionais procuram reinventar as suas carreiras. Qual é a missão da escola e que necessidades pretende responder no mercado português?
Uma das principais distinções da EFAPE, no mercado português há mais de 30 anos, foi o seu modelo de ensino, assente no rigor, na exigência e na constante actualização. A EFAPE não só acompanha a evolução do mercado como antecipa as tendências no segmento da estética tradicional e avançada.
Actualmente, mais do que nunca, este mercado aposta e valoriza profissionais que dominam os conhecimentos teóricos e práticos, capazes de proporcionar respostas adequadas a clientes cada vez mais exigentes. O acesso fácil a consultas através de agentes de IA coloca constantemente os profissionais modernos à prova.
Uma das principais missões é precisamente capacitar os profissionais para enfrentarem os desafios desta nova realidade com autoconfiança e expertise, destacando-os no mercado de trabalho nacional. É também missão preparar os profissionais para integrarem equipas dos espaços mais exigentes nas áreas da medicina estética, da longevidade e dos SPA de mais alto nível, através do acesso efectivo às tecnologias mais recentes e a cosmecêuticos avançados.
A quem se dirige a oferta formativa da EFAPE?
Dirige-se a todos os que pretendem obter uma formação diferenciada e de qualidade, e desenvolver carreiras de sucesso na área dos cuidados estéticos e de cabelo, quer como profissionais, quer como empreendedores.
Destina-se tanto a quem já trabalha na área e procura aprofundar ou actualizar competências, como a quem está a começar do zero, sem experiência prévia. Pretende, ainda, alcançar profissionais de áreas como fisioterapia e enfermagem que pretendam obter uma formação especializada em estética e cosmetologia, ou elevar o nível de conhecimentos já adquiridos através de cursos mais avançados, de nível Master.
Nos últimos anos tem aumentado a procura por percursos profissionais alternativos aos mais tradicionais. Que mudanças têm observado nas motivações e expectativas de quem procura formação nesta área?
As alterações são fascinantes, pois ocorrem de forma extremamente rápida, obrigando-nos a uma constante evolução. Os alunos que escolhem a EFAPE apresentam expectativas e ambições muito mais elevadas e bem definidas, e pretendem obter conhecimentos profundos, argumentação consolidada e acesso prático aos recursos mais recentes e inovadores.
Temos vindo a notar também um aumento significativo de pessoas que procuram uma verdadeira mudança de carreira, oriundas de áreas totalmente distintas, e que encontram na estética uma oportunidade de reinvenção profissional. Muitos destes alunos já entram com uma vontade clara de empreender, com o objectivo de vir a abrir o seu próprio espaço ou negócio, e não apenas de integrar equipas de terceiros.
Verificamos, igualmente, que desafiam a nossa equipa de formação com informação proveniente de IA e redes sociais. A nossa prioridade actual é acompanhar este nível de desenvolvimento, transformando-nos em verdadeiros mentores para estes profissionais.
Como avalia actualmente o estado do mercado da Saúde, Estética e Bem-Estar em Portugal?
As clínicas de medicina estética e integrativa passaram claramente a liderar este segmento de tratamentos, direccionado a clientes mais exigentes e com maior poder de compra. Já o segmento da estética tradicional é, infelizmente, dominado pelos serviços low-cost.
Os profissionais encontram-se numa fase de reinvenção, à procura de modelos que assegurem a sua evolução. Conceitos como a estética avançada premium, as clínicas de terapias manuais e de longevidade, ou espaços onde os serviços são feitos à medida, estão a emergir com uma frequência cada vez maior. Contudo, a limitação financeira continua a influenciar negativamente a evolução do sector.
Sentimos, ainda, de forma muito clara, um défice de mão-de-obra qualificada, o que representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade para escolas como a EFAPE, que assumem um papel cada vez mais relevante na resposta a esta necessidade do mercado. Paralelamente, a digitalização e a presença online tornaram-se factores decisivos. A reputação digital e a visibilidade nas redes sociais pesam hoje tanto, ou mais, do que a própria qualidade técnica na escolha de um espaço por parte do cliente.
A IA e a automação estão a transformar inúmeras profissões. Acredita que esta realidade está a levar mais pessoas a procurar carreiras assentes em competências técnicas, relacionais e humanas mais difíceis de substituir pela tecnologia?
Sem dúvida. O toque humano é único e, por muitos anos ainda, será essencial para o bem-estar do ser humano.
Temos assistido a um aumento claro da procura por profissões que são, por natureza, “à prova de automação”, carreiras onde a componente humana, relacional e manual continua a ser insubstituível. E, felizmente, a IA continua a ser vista sobretudo como fonte de informação, e não de prática.
O aumento da esperança média de vida, aliado a uma maior preocupação com a saúde e a auto-estima, está a transformar as necessidades dos consumidores. Como é que estas tendências estão a influenciar a procura por profissionais especializados?
A preocupação e a valorização do lifespan e do skinspan (juventude estética) estão a fundir os sectores da saúde, da estética e do bem-estar. A abordagem integral de tratamentos relacionados com a preservação da qualidade de vida e da aparência física está a originar uma procura e valorização de profissionais polivalentes, capazes de prestar serviços médicos e estéticos.
Esta tendência está a influenciar auxiliares de saúde, enfermeiros e fisioterapeutas a apostar na formação na área da estética avançada. Simultaneamente, os profissionais de estética que apostam na sua evolução procuram formações em áreas relacionadas com a saúde humana.
A “longevidade” será então uma das grandes tendências das próximas décadas…
Um dos principais pilares da filosofia do conceito “Longevidade e Biohacking” assenta numa abordagem de tratamento fisiologicamente biocompatível, ou seja, menos invasiva e mais natural. Ora, é aqui que a esteticista se torna determinante para o alcance do resultado pretendido.
Contudo, a colaboração e o acompanhamento de um utente, seguido por várias especialidades médicas, exige um nível de preparação profissional muito acima da média. O domínio da fisiologia dos processos de envelhecimento e rejuvenescimento, bem como um conhecimento sólido de princípios activos, tecnologias e recursos não invasivos, tornam-se indispensáveis.
É neste contexto que a EFAPE se posiciona, ao proporcionar este nível de conhecimentos teóricos e práticos, em parceria com os mais reputados profissionais das áreas médica e fisioterapêutica.
Num mercado cada vez mais competitivo, o que distingue hoje um profissional de excelência nas áreas da estética, saúde e bem-estar?
Sem dúvida, 100% orientação para a necessidade do cliente. Escutar, entender, saber gerir as expectativas, educar e sugerir uma solução bem fundamentada, que traga resultados reais.
Ainda assim, grande parte dos profissionais actuais, nas áreas da estética e do bem-estar, tem dificuldade em seguir esta estratégia, muitas vezes por falta de conhecimentos actualizados ou por desvalorizarem a importância da auto-evolução constante.
Que competências considera que serão mais valorizadas nos profissionais da Saúde e Bem-Estar no futuro?
Ultrapassar as expectativas do cliente, em tudo. Qualidade no atendimento, na informação prestada, na execução, e uma preocupação genuína com as necessidades e a satisfação do cliente.
Numa altura em que o cliente chega cada vez mais informado, a capacidade de comunicar e de educar, explicar o porquê de cada solução e não apenas executá-la, está a tornar-se uma competência tão valorizada quanto a própria técnica.
Além disto, num mercado que muda a um ritmo tão acelerado, a adaptabilidade e a aprendizagem contínua deixarão de ser um diferencial para passarem a ser uma exigência de base. E tornou-se indispensável integrar a IA no dia a dia, como ferramenta evolutiva constante.
Ainda que os equipamentos e as tecnologias evoluam rapidamente, até que ponto o sucesso de uma clínica ou negócio continua a depender do conhecimento, experiência e capacidade de intervenção dos profissionais?
A dependência é directa. A aplicação de qualquer recurso tecnológico ou cosmecêutico exige uma avaliação e uma prescrição correctas, que começam pelo entendimento da verdadeira necessidade do cliente.
É um facto que, muitas vezes, “eliminar rugas ou celulite” não significa o mesmo para o cliente e para o profissional. O papel fundamental deste último é, por isso, entender que resultado efectivo o cliente considera satisfatório e só depois desta fase é que deve ocorrer a prescrição.
Internamente, possuímos módulos específicos que desenvolvem a capacidade de criar programas de tratamento personalizados, independentemente das marcas dos fabricantes, na medida em que assentam nos benefícios e nas acções dos agentes físicos utilizados.
A inovação tecnológica é frequentemente vista como um factor de disrupção. Na prática, de que forma a EFAPE integra novas tecnologias e ferramentas digitais na formação dos seus alunos?
A EFAPE tem a enorme vantagem de fazer parte do grupo Sorisa, empresa de referência nacional nos segmentos da estética, saúde e bem-estar há mais de 45 anos. Esta ligação permite aos nossos formandos ter acesso directo, teórico e prático às tecnologias e marcas de cosmética mais recentes e mais reputadas, como ICOONE, ENDYMED, Dermalux, Dermapen, Hydropeptide, AROSHA ou VISBODY 3D, entre muitas outras.
Este acesso concretiza-se através de acções de formação exclusivas às alunas, em contexto de palestras, workshops e cursos específicos, o que lhes permite contactar directamente com estas tecnologias ainda durante o seu percurso formativo.
Actualmente, o grupo Sorisa dispõe de um portefólio único de mais de 100 marcas, distribuídas em Portugal em regime de exclusividade, não só na área da estética, mas também da medicina estética, fisioterapia, bem-estar e longevidade.
As organizações enfrentam dificuldades na atracção e retenção de talento, qual deve ser o papel da formação contínua no desenvolvimento e fidelização dos profissionais deste sector?
É fundamental que as entidades empregadoras invistam e subsidiem formações que contribuam para o desenvolvimento contínuo dos seus profissionais. Num sector onde o conhecimento se torna rapidamente desactualizado, a formação deixa de ser um benefício acessório para passar a ser uma verdadeira ferramenta de retenção de talento.
Quando um profissional sente que a organização investe genuinamente na sua evolução, cria-se um sentido de pertença e de reconhecimento que dificilmente se consegue apenas com compensação salarial. A formação contínua é, assim, também uma forma de fidelização, pois motiva, actualiza e prepara o profissional para responder às exigências crescentes do mercado. Simultaneamente, reforça o seu vínculo com a organização que investiu nele.
Do lado da EFAPE, temos procurado ser esse parceiro das organizações, ao desenvolver formações que respondem às necessidades reais das clínicas e espaços, e ajudam as próprias entidades empregadoras a reter e a valorizar as suas equipas.
Na sua perspectiva, porque é que o capital humano continuará a ser a principal vantagem competitiva para clínicas e empresas de Saúde e Bem-Estar?
Os fenómenos da fidelização e da recomendação estão assentes, primeiramente, na ligação entre o cliente e o profissional. O reconhecimento e a valorização dos quadros qualificados são, sem dúvida, um investimento no crescimento futuro e na consolidação de um projecto de sucesso.
É precisamente o capital humano que permite a uma clínica ou negócio distinguir-se da concorrência low-cost. Um profissional bem formado, actualizado e reconhecido é o que sustenta uma proposta de valor baseada na qualidade e na confiança, e não apenas no preço.
Por outro lado, reter bons profissionais é, também, uma vantagem competitiva de longo prazo. Organizações que conseguem fidelizar as suas equipas evitam os custos associados à rotatividade e constroem, ao longo do tempo, uma reputação mais sólida e consistente no mercado.
Olhando para os próximos cinco anos, quais serão os maiores desafios e oportunidades para os profissionais e empresas que actuam nas áreas da Saúde, Estética e Bem-Estar?
Os próximos cinco anos trarão, acima de tudo, uma aceleração daquilo que já hoje começamos a sentir. Ou seja, a fusão entre saúde, estética e bem-estar, impulsionada pelo conceito de longevidade, vai continuar a exigir profissionais cada vez mais polivalentes, tecnicamente sólidos e capazes de trabalhar em articulação com outras especialidades.
O maior desafio será, sem dúvida, acompanhar este ritmo de mudança, tanto pela evolução tecnológica e integração da inteligência artificial no dia a dia, como pelas exigências crescentes de um cliente cada vez mais informado. Os profissionais e as empresas que não investirem em formação contínua e em actualização permanente correm o risco de ficar para trás, sobretudo num mercado onde a oferta low-cost continuará a coexistir com uma procura crescente por serviços premium e diferenciados.
Por outro lado, é precisamente aqui que residem as maiores oportunidades. Quem apostar nas pessoas, na sua formação, valorização e retenção irá estar a construir uma vantagem competitiva difícil de replicar. O capital humano continuará a ser o verdadeiro factor de diferenciação, porque a confiança, a escuta e o toque humano nunca deixarão de ser insubstituíveis, por mais que a tecnologia evolua.
É neste contexto que continuamos a assumir o nosso papel, o de preparar hoje os profissionais que o mercado vai exigir amanhã.



















