Flash Talk com João Martins, NOVA Aerospace: O ensino aeroespacial em Portugal entrou numa nova fase

O NOVA Aerospace, da NOVA FCT, inclui um “living lab” no Aeródromo de Tires. João Martins, professor e coordenador da iniciativa, explica como este modelo imersivo pode acelerar a empregabilidade, reforçar a ligação entre empresas e academia e contribuir para posicionar o país como um hub europeu de inovação.

Tânia Reis
16 de Junho 2026 | 10:40

Por Tânia Reis

 

Com um aeroporto universitário como sala de aula e um modelo de ensino imersivo que liga academia e indústria no dia-a-dia, no próximo ano lectivo o NOVA Aerospace promete mudar a forma como se formam engenheiros em Portugal e responder à crescente procura por talento altamente qualificado no sector aeroespacial.

Que factores explicam o crescimento da indústria aeroespacial em Portugal e que oportunidades está a criar no mercado de trabalho?

O crescimento assenta em três pilares: a posição geoestratégica de Portugal, crucial para o controlo de tráfego atlântico e para o porto espacial dos Açores; o investimento em I&D ancorado pela Agência Espacial Portuguesa e pelo AED Cluster; e a capacidade de engenharia altamente qualificada. Também o novo paradigma da geopolítica actual e as implicações subjacentes no âmbito da defesa, potenciam o aumento do orçamento destinado à investigação e desenvolvimento neste sector.

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A transição de Portugal para um país criador de valor e sistemas integrados irá certamente atrair maiores multinacionais e potenciar novas startups. A criação de emprego altamente qualificado em engenharia de sistemas, desenvolvimento de software de aviónica, análise de dados de satélite, design estrutural avançado e gestão de frotas de UAVs (drones), serão certamente boas oportunidades no mercado de trabalho.

 

O que distingue o modelo de ensino do NOVA Aerospace face à oferta tradicional?

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A oferta tradicional de Engenharia Aeroespacial foca-se fortemente numa componente teórica e abstracta durante os primeiros anos, frequentemente desfasada da realidade operacional.

O projecto NOVA Aerospace inova ao introduzir um modelo imersivo descentralizado para um ambiente aeroportuário real. O modelo foi desenhado por forma a que o aluno não aprenda apenas a teoria da aerodinâmica ou dos sistemas, mas teste e aplique esses conceitos directamente em hangares e laboratórios vivos.

O projecto ancora-se nos 20 hectares de terreno, cedidos pela Câmara Municipal de Cascais, onde a visão estratégica e liderança política do seu presidente, Nuno Piteira Lopes, têm sido fundamentais para o sucesso desta parceria. A área ocupada pelo projecto compreende zona ar e zona terra onde a academia e empresas desenvolverão conhecimento num processo de co-criação.

 

Que impacto prático terá o ‘aeroporto universitário’ de Tires na formação dos estudantes?

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O Aeródromo de Tires funcionará como um “Living Lab” no ensino aeroespacial. Os alunos estudarão dinâmicas de voo, restrições de tráfego aéreo e segurança operacional in loco, e não apenas em simulações de computador. Existirá facilidade em realizar ensaios de telemetria, testes de propulsão e manutenção em ambiente real. Ideias e projectos desenvolvidos em ambiente de sala de aula podem ser testados em ambiente real de forma muito mais célere.

 

De que forma o contacto com drones, aerodinâmica aplicada e sistemas de controlo acelera a empregabilidade?

Actualmente o mercado procura profissionais que compreendam automação, algoritmos de guiamento e navegação, bem como sistemas autónomos. Ao dominar estas ferramentas na prática, o tempo de integração de um recém-licenciado numa empresa reduz-se drasticamente, tornando-o num activo produtivo imediato.

 

Como é que a articulação entre academia, indústria e empresas se concretiza no dia-a-dia do curso?

Esta articulação vai deixar de ser um protocolo de intenções e passará a ser rotina. As empresas que se vão instalar no pólo de Tires irão ter escritórios e laboratórios que vão possibilitar a partilha de conhecimentos. Muitos dos projectos, teses de mestrado e doutoramento, propostos aos alunos são baseados em problemas reais lançados por essas mesmas empresas, sendo co-orientados por docentes da NOVA FCT e quadros técnicos dessas parcerias.

 

Que papel podem ter as empresas na co-criação de programas formativos e que benefícios retiram?

Da mesma forma que as universidades actuam como bússola do que vai ser o mercado no futuro, as empresas actuam como bússola de relevância do mercado actual, podendo ajudar a definir competências que devem ser leccionadas.

Por outro lado, terão acesso privilegiado e precoce ao talento, capacidade de usar a infra-estrutura científica da universidade para resolver os seus próprios estrangulamentos tecnológicos e redução de custos de formação interna pós-contratação.

 

Quais são hoje as competências mais procuradas num sector tão especializado?

Além da sólida base de física e matemática, o mercado exige hoje engenharia de sistemas, capacidade de compreender como diferentes subsistemas, mecânico, eléctrico, software, interagem num veículo complexo, e soft skills.

 

Portugal está a conseguir atrair e reter talento qualificado? Que desafios persistem?

Portugal tem enorme capacidade de atracção, pela qualidade de vida, segurança e prestígio das suas universidades, atraindo cada vez mais estudantes e investigadores internacionais. Contudo, a retenção continua a ser o grande desafio, muito por conta da disparidade salarial.

 

Que perfis de estudantes esperam captar e que percursos profissionais podem ambicionar?

Procuram-se estudantes com um perfil marcado pela curiosidade, analítico e pragmático, jovens apaixonados pela ciência e tecnologia, mas que gostam de “pôr as mãos na massa” e ver as suas ideias a voar.

A NOVA FCT dispõe de uma oferta formativa integrada – Licenciatura, Mestrado e, em breve, Doutoramento – em Engenharia Aeroespacial, que responde aos desafios globais da mobilidade avançada e da exploração espacial, alicerçada na vasta experiência de investigação e excelência dos Departamentos de Engenharia Electrotécnica e de Computadores e de Engenharia Mecânica e Industrial.

Com esta formação sólida, as saídas profissionais são várias, desde engenheiros de design aeroespacial, a especialistas em sistemas autónomos, ou consultores tecnológicos.

 

Até que ponto modelos imersivos respondem à escassez de talento altamente técnico?

São uma resposta muito eficaz. O modelo tradicional de ensino cria frequentemente um fosso de desmotivação nos alunos que desistem devido ao excesso de teoria abstracta inicial. Um modelo imersivo acelera a curva de maturidade técnica do estudante e mantém os níveis de motivação elevados.

 

Como evoluem as necessidades de competências com as tendências da digitalização, automação e IA?

A engenharia aeroespacial, e não só, está a fundir-se com a digitalização. A aerodinâmica clássica agora depende imenso de Machine Learning para optimização de superfícies em tempo real; a manutenção de aeronaves é feita de forma preditiva com recurso a IA e sensores IoT; e a navegação espacial exige algoritmos avançados para decisões autónomas em fracções de segundo.

 

Que impacto espera que este modelo tenha no posicionamento de Portugal no ecossistema europeu?

O projecto NOVA Aerospace tem o potencial de elevar o posicionamento de Portugal de um “fornecedor de excelência” para um Hub Europeu de Inovação e Integração de Sistemas. Ao criar um ecossistema como este, que junta formação de topo, infra-estrutura operacional única, em Tires, investigação científica e incubação de empresas no mesmo espaço, Portugal ganha massa crítica para liderar consórcios e atrair investimentos de maior valor acrescentado, competindo directamente com os polos aeroespaciais tradicionais da Europa.

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