Flash Talk com Marisa Machado, ESSVA: «Nem sempre o melhor candidato é aquele que fez o percurso mais linear»

A disponibilização de três cursos em áreas da Saúde em regime pós-laboral surge como resposta ao papel cada vez mais estratégico da formação ao longo da vida. Para Marisa Machado, directora da Escola Superior de Saúde do Vale do Ave (ESSVA), o ensino superior tem de se adaptar a novos perfis de estudantes, criando respostas flexíveis que permitam conciliar qualificação, vida profissional e desenvolvimento de carreira.

Tânia Reis
29 de Setembro 2026 | 10:40
Flash Talk com Marisa Machado, ESSVA: «Nem sempre o melhor candidato é aquele que fez o percurso mais linear»

Por Tânia Reis

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Numa altura em que as organizações enfrentam desafios crescentes no recrutamento e retenção de talento, a requalificação profissional e a aprendizagem contínua ganham nova relevância. Marisa Machado aborda o impacto da evolução tecnológica, defende uma maior valorização dos candidatos que decidem regressar à sala de aula para reinventar o seu percurso profissional e deixa um apelo às empresas para que valorizem percursos profissionais menos lineares.

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O que motivou a decisão de disponibilizar, em regime pós-laboral, a Licenciatura em Farmácia e os Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP) em Secretariado Clínico e em Suplementação Alimentar, Saúde e Bem-Estar?

A decisão resulta, antes de mais, da necessidade de adaptar o ensino superior à realidade actual das pessoas. Hoje, quem procura uma formação superior já não corresponde a um único perfil. Temos os estudantes que chegam directamente do ensino secundário, naturalmente, mas temos também cada vez mais pessoas que já estão no mercado de trabalho e que pretendem adquirir novas competências, progredir profissionalmente ou mesmo mudar de carreira.

Para essas pessoas, a disponibilidade de horário é muitas vezes o principal obstáculo. Não podemos falar de aprendizagem ao longo da vida e de requalificação profissional se depois não criarmos condições concretas para que isso seja possível.

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Foi precisamente esse o objectivo da ESSVA ao disponibilizar a Licenciatura em Farmácia e os CTeSP em Secretariado Clínico e em Suplementação Alimentar, Saúde e Bem-Estar em regime pós-laboral, permitir conciliar a formação académica com a actividade profissional e a vida pessoal.

Mas houve também uma outra preocupação, fazê-lo em áreas com procura efectiva no mercado de trabalho. Estamos a falar de três formações ligadas à Saúde, mas com perfis profissionais diferentes e que respondem a necessidades concretas do sector. Portanto, não se trata apenas de oferecer os mesmos cursos noutro horário. Trata-se de criar uma oportunidade real de qualificação e requalificação em áreas com boas perspectivas profissionais.

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Que perfil de alunos esperam atrair com esta oferta pós-laboral?

Não procuramos propriamente um único perfil. E penso que essa diversidade será precisamente uma das mais valias desta oferta. Podemos ter jovens que terminam o ensino secundário e optam pelo pós-laboral porque pretendem conciliar os estudos com uma actividade profissional. Mas esperamos também candidatos que já estão no mercado de trabalho, alguns já na área da Saúde, e que procuram uma nova qualificação ou novas competências. E podemos receber profissionais de áreas completamente diferentes que decidiram, aos 30, 40 ou 50 anos, mudar de percurso. Essa diversidade é muito interessante pedagogicamente. Uma turma onde convivem estudantes mais jovens com profissionais que trazem vários anos de experiência permite uma partilha de perspectivas muito enriquecedora.

Por outro lado, uma característica comum que esperamos encontrar nestes estudantes, é a motivação. Voltar a estudar enquanto se trabalha, exige organização, compromisso e uma vontade muito clara de investir no próprio futuro.

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Num contexto em que tantas organizações enfrentam dificuldades de recrutamento, como explica as elevadas taxas de empregabilidade registadas por estes cursos?

Há uma questão estrutural que não podemos ignorar. As necessidades de saúde da população estão a aumentar e a tornar-se mais complexas. Temos uma população progressivamente mais envelhecida, maior prevalência de doenças crónicas, cuidados mais diferenciados e uma evolução científica e tecnológica muito rápida. Tudo isto aumenta a necessidade de profissionais qualificados e especializados.

Mas há outro indicador que, para nós, é particularmente importante, somos procurados pelas próprias instituições à procura de profissionais. Esse contacto directo com as entidades empregadoras permite-nos perceber, de uma forma muito concreta, onde existem necessidades no mercado de trabalho e as suas especificidades.

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No caso da Licenciatura em Farmácia, por exemplo, existe por vezes uma percepção demasiado limitada da profissão, resultado da sua nomenclatura, quem sabe! Quando pensamos em Farmácia, pensamos imediatamente em farmácia comunitária. Mas a realidade profissional é muito mais abrangente. Um diplomado em Farmácia pode desenvolver a sua actividade na farmácia comunitária ou hospitalar, indústria farmacêutica ou dermocosmética, investigação e desenvolvimento, ensaios clínicos, assuntos regulamentares, farmacovigilância, produção e controlo de qualidade, distribuição farmacêutica, suplementação alimentar, consultoria, formação ou empreendedorismo.

É esta combinação entre necessidades do mercado, formação especializada e diversidade de contextos profissionais que ajuda a explicar os elevados níveis de empregabilidade.

 

Quais são hoje as competências mais valorizadas pelos empregadores nestas três áreas e de que forma os planos curriculares procuram responder a essas exigências?

Diria que os empregadores procuram hoje uma combinação entre competência técnica, capacidade de adaptação e competências humanas. O conhecimento técnico continua, evidentemente, a ser indispensável, mas já não será suficiente porque na verdade as organizações procuram profissionais capazes de comunicar, trabalhar em equipa, resolver problemas, utilizar ferramentas digitais, interpretar informação, tomar decisões fundamentadas e adaptar-se rapidamente à mudança.

A licenciatura em Farmácia é um bom exemplo disso, sendo particularmente evidente uma formação que inclui áreas científicas fundamentais como a Biologia, Química, Bioquímica, Fisiologia, Farmacologia, Tecnologia Farmacêutica, Microbiologia e Toxicologia, mas integra também Nutrição, Fitoterapia e Suplementação Alimentar, Saúde Pública, Gestão e Empreendedorismo, Marketing, Psicologia e Comunicação. Ou seja, preparamos um profissional cientificamente muito bem preparado, mas que saiba comunicar e trabalhar com pessoas e organizações.

No Secretariado Clínico, a componente organizacional e administrativa é essencial, porque estamos a formar profissionais que vão integrar unidades de saúde e contribuir para o seu funcionamento.

Na Suplementação Alimentar, Saúde e Bem-Estar há uma competência que considero absolutamente central, saber aconselhar os inúmeros suplementos alimentares disponíveis no mercado, com base em conhecimento e evidência científica. É uma área em franca expansão e precisamente por isso precisamos de profissionais capazes de promover uma utilização segura, eficaz e responsável dos suplementos alimentares.

 

A procura por profissionais de saúde continua a superar a oferta em várias funções. Que sinais recebem das empresas relativamente às necessidades de talento nestes sectores?

O sinal mais objectivo é precisamente sermos contactados por instituições que procuram profissionais com determinadas características e a nossa relação permanente com campos de estágio, dá-nos uma informação muito real e relevante sobre as necessidades do mercado de trabalho. Mas aquilo que também percebemos é que a necessidade não é apenas quantitativa. Não se trata simplesmente de “precisamos de mais pessoas”. Existe uma procura por profissionais com competências cada vez mais diferenciadas e “humanas”.

A abordagem profissional da saúde e da doença tornou-se muito mais complexa. Hoje, a resposta ao doente depende de equipas multidisciplinares constituídas por profissionais com competências muito específicas e diversas. E algumas dessas profissões continuam a ser relativamente desconhecidas do público, apesar de apresentarem excelentes oportunidades profissionais. Os interesses dos estudantes nem sempre estão alinhados com os interesses/necessidades do mercado e muitas vezes por real desconhecimento das profissões de saúde e onde e como intervêm no sistema de saúde!

É por isso que considero tão importante que os candidatos, sobretudo os mais jovens, conheçam as profissões antes de escolherem os cursos. Costumo dizer que escolher um curso é, acima de tudo, escolher uma profissão. E conhecer verdadeiramente essa profissão — o que faz, onde pode trabalhar e quais são as suas perspectivas — permite tomar decisões muito mais informadas.

 

Para quem está a ponderar uma mudança profissional aos 30, 40 ou 50 anos, que oportunidades de carreira podem surgir após a conclusão destes cursos?

A expressão “mudar de carreira” pode não representar uma mudança total dentro do percurso, mas mesmo que o seja importa retirar alguma carga negativa ao facto! Hoje é perfeitamente normal uma pessoa ter mais do que uma etapa profissional ao longo da vida. Aos 30, 40 ou 50 anos ainda teremos muitos anos de vida profissional pela frente. Portanto, se existe vontade de mudar, faz sentido investir numa formação que permita fazê-lo com qualificações.

E estas três formações apresentam possibilidades interessantes precisamente porque correspondem a perfis diferentes.

A Farmácia oferece um campo profissional muito vasto, que ultrapassa largamente a farmácia comunitária: hospital, indústria farmacêutica e dermocosmética, investigação, ensaios clínicos, regulamentação, farmacovigilância, controlo de qualidade, distribuição, suplementação alimentar, consultoria, formação ou empreendedorismo, entre outras possibilidades. O Secretariado Clínico prepara para funções administrativas e organizacionais específicas das unidades de saúde, enquanto a Suplementação Alimentar, Saúde e Bem-Estar responde ao crescimento de uma área onde existe procura, por exemplo, de aconselhamento cientificamente fundamentado.

Portanto, não diria a alguém de 40 ou 50 anos que está atrasado para mudar de profissão. Diria que deve avaliar muito bem onde quer estar profissionalmente nos próximos 10, 15 ou 20 anos e preparar-se para lá chegar.

 

A experiência profissional prévia dos estudantes que ingressam nestes cursos pode constituir uma vantagem no processo de aprendizagem e posteriormente na sua integração profissional?

Um profissional que ingressa no ensino superior aos 30, 40 ou 50 anos não está a começar do zero, pode estar a iniciar uma nova formação, mas traz consigo anos de experiência e conhecimento profissional e de vida. Traz competências de comunicação, responsabilidade, organização, gestão do tempo, resolução de problemas, trabalho em equipa e, muitas vezes, experiência no relacionamento com clientes, utentes ou organizações. Tudo isso tem valor.

Do ponto de vista pedagógico, estes estudantes conseguem frequentemente estabelecer uma relação muito interessante entre os conteúdos académicos e situações que já viveram profissionalmente. Fazem perguntas diferentes, trazem problemas reais para a sala de aula e enriquecem a discussão com a sua experiência. Por outro lado, numa perspectiva académica, também é possível avaliar todo este portefólio com a possibilidade de creditar unidades curriculares afins a essa experiência profissional.

E depois, quando regressam ao mercado de trabalho com uma nova qualificação, não apresentam apenas esse novo diploma. Apresentam uma integração entre formação recente e experiência profissional anterior e essa combinação pode ser extremamente interessante para um empregador.

 

De que forma a ligação da Escola Superior de Saúde do Vale do Ave ao tecido empresarial e às instituições de saúde da região contribui para a empregabilidade dos diplomados?

Esta realidade é absolutamente fundamental. Uma instituição de ensino superior na área da Saúde não pode formar profissionais afastada da realidade das instituições onde esses profissionais irão trabalhar. A ligação aos hospitais, clínicas, farmácias, empresas e restantes instituições, através de diferentes dinâmicas, que podem passar por colaboração em estágios, projectos de investigação e desenvolvimento, eventos científicos, projecto comunitário, entre outros, permite-nos conhecer as necessidades existentes, perceber a evolução das profissões e acompanhar aquilo que o mercado espera dos futuros profissionais.

Para os estudantes, esta relação entre academia e contexto profissional é igualmente importante porque permite aproximar a aprendizagem da realidade e compreender desde cedo as exigências da profissão. Para a Escola, permite-nos fazer algo que considero essencial, não formar apenas para as necessidades de hoje, mas tentar antecipar as competências que serão necessárias amanhã.

 

Considera que estamos a assistir a uma crescente valorização da aprendizagem ao longo da vida e da requalificação profissional em Portugal? Que tendências têm observado nos últimos anos?

Sim, claramente, e penso que esta tendência se vai acentuar. O modelo tradicional de estudar durante uma determinada fase da vida, obter uma qualificação e exercer praticamente a mesma profissão até à reforma está progressivamente a desaparecer, principalmente na área da saúde.

A transformação digital, a inteligência artificial, a inovação científica e tecnológica e a própria evolução das organizações fazem com que as competências tenham de ser permanentemente actualizadas.

Na Saúde isto é particularmente evidente. Veja-se o caso da Farmácia: falamos hoje de personalização em saúde, farmacogenómica, inteligência artificial, saúde digital e novos medicamentos e tecnologias.

Portanto, a aprendizagem ao longo da vida já não deve ser encarada apenas como uma forma de valorização curricular. Em muitas profissões será uma condição para continuarmos actualizados e relevantes no mercado de trabalho.

É precisamente neste contexto que o pós-laboral assume importância. Se queremos que as pessoas continuem a aprender, temos de lhes oferecer modelos de formação suficientemente flexíveis para que possam fazê-lo sem abandonar necessariamente a sua actividade profissional. Estamos evidentemente a viver numa lógica de “formação ao longo de toda a vida” e a abandonar “uma formação para toda a vida”.

 

O que gostaria que os empregadores portugueses percebessem sobre o potencial dos profissionais que regressam ao ensino superior para se requalificar ou reinventar a sua carreira?

Um profissional que, aos 35, 45 ou 50 anos, decide voltar ao ensino superior enquanto mantém, muitas vezes, a sua actividade profissional está a demonstrar, desde logo, várias competências: capacidade de adaptação, organização, resiliência, compromisso, vontade de aprender e motivação.

São profissionais que acrescentam valor, porque além de tudo aquilo que aprenderam anteriormente com a sua experiência profissional e de vida, ainda lhe acrescentam uma nova qualificação, estando relacionadas ou não entre elas!

Imagine, por exemplo, alguém que trabalhou durante 15 anos numa área comercial e posteriormente se forma numa área da Saúde. Não deixa de saber comunicar, negociar, compreender pessoas, gerir conflitos ou trabalhar por objectivos. Passa a combinar essas competências com uma nova formação técnica e científica. É precisamente essa combinação que os empregadores devem saber valorizar.

Num mercado em que tantas organizações referem dificuldades de recrutamento, talvez tenhamos também de repensar a forma como definimos talento. Nem sempre o melhor candidato é aquele que fez o percurso mais linear ou “normal”. Às vezes, um percurso diferente produz precisamente o profissional diferente de que uma organização precisa.

Sendo também um dos objectivos desta oferta pós-laboral da ESSVA, abrir o ensino superior a diferentes percursos de vida e permitir que experiência, conhecimento e uma nova qualificação se transformem numa nova oportunidade profissional.

 

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