Flash Talk com Miguel Gonçalves, Magma Studio: «Os jovens não estão à procura de empresas perfeitas, estão à procura de empresas que lhes permitam crescer»

No âmbito da 10.ª edição do estudo “Empresas Mais Incríveis de Portugal”, a Human Resources conversou com Miguel Gonçalves, CEO Magma Studio, sobre o retrato de uma nova geração de talento mais estratégica na forma como encara o futuro profissional, com expectativas e preocupações.

Tânia Reis
22 de Junho 2026 | 10:40
Flash Talk com Miguel Gonçalves, Magma Studio: «Os jovens não estão à procura de empresas perfeitas, estão à procura de empresas que lhes permitam crescer»

Por Tânia Reis

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Apesar do contexto económico desafiante, marcado pela inflação e pelo aumento do custo de vida, os estudantes continuam a privilegiar oportunidades de aprendizagem, progressão de carreira e liderança de qualidade, em detrimento de uma proposta de valor centrada exclusivamente no salário. Para Miguel Gonçalves, o estudo “Empresas Mais Incríveis de Portugal”, evidencia tendências que devem preocupar as organizações, como a persistência de diferenças nas expectativas salariais entre homens e mulheres ainda antes da entrada no mercado de trabalho, ou a crescente ansiedade relativamente à transição para a vida profissional.

Na 10.ª edição do Estudo das Empresas Mais Incríveis de Portugal (EMIP), que resultados mais o surpreenderam pela positiva e pela negativa?

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O que mais me surpreendeu nesta edição não foi propriamente a evolução da posição das empresas nos rankings, mas sim alguns sinais muito claros sobre a forma como os jovens encaram hoje o trabalho e as organizações.

Por um lado, continua a existir uma enorme procura por empresas que ofereçam aprendizagem, desenvolvimento e progressão de carreira. Apesar de vivermos num contexto marcado pela inflação, pela crise da habitação e por uma grande pressão sobre o custo de vida, os estudantes continuam a valorizar muito mais do que apenas o salário. Procuram contextos onde sintam que podem crescer, aprender e construir uma carreira sustentável. Isso é uma mensagem importante para as organizações: a proposta de valor para o colaborador não pode estar centrada exclusivamente na remuneração.

Outro dado que me chamou a atenção foi a persistência – e até o aumento – da diferença entre as expectativas salariais de homens e mulheres. Trata-se de um fenómeno que surge antes da entrada no mercado de trabalho, o que nos deve levar a reflectir sobre factores culturais, confiança na negociação e percepções de valor profissional. É um tema que merece mais atenção por parte das universidades, empresas e decisores.

Também me parece relevante o facto de os estudantes demonstrarem uma visão bastante pragmática da carreira. Existe muitas vezes a ideia de que as novas gerações rejeitam estruturas organizacionais, não valorizam estabilidade ou privilegiam apenas flexibilidade. Os resultados sugerem uma realidade diferente. Os jovens continuam a procurar boas chefias, empresas reconhecidas, oportunidades de aprendizagem e percursos de progressão claros. A flexibilidade é importante, mas não substitui liderança de qualidade, cultura organizacional ou desenvolvimento profissional.

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Por fim, um dos sinais mais interessantes para as empresas é que a atractividade organizacional está cada vez dependente da percepção de oportunidade. Os estudantes procuram organizações onde consigam visualizar o seu futuro. Isso significa que employer branding, programas de trainees, experiências de estágio, contacto com universidades e testemunhos reais de colaboradores ganham um peso crescente na decisão dos jovens talentos.

Em resumo, o estudo mostra uma geração ambiciosa, mas pragmática; exigente, mas realista; e que continua a acreditar que uma boa carreira se constrói através da aprendizagem, da liderança e das oportunidades certas. Para as empresas, esta é uma excelente notícia, mas também uma responsabilidade acrescida.

Os jovens não estão à procura de empresas perfeitas; estão à procura de empresas que lhes permitam crescer.

 

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Que principais diferenças identifica comparativamente à edição anterior?

Uma das principais diferenças é o reforço de uma tendência que já começávamos a observar: os estudantes estão a tornar-se mais pragmáticos nas suas escolhas de carreira.

Durante vários anos, grande parte da discussão sobre as novas gerações centrou-se em temas como flexibilidade, propósito ou equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Embora esses factores continuem a ser importantes, os resultados desta edição mostram que os jovens continuam a atribuir enorme relevância a aspectos muito tradicionais da vida profissional, como oportunidades de aprendizagem, progressão de carreira, estabilidade e qualidade da liderança. Há uma procura crescente por empresas onde seja possível construir um percurso e não apenas ter uma experiência profissional passageira.

Outra diferença relevante é o crescimento do peso da tecnologia e da inteligência artificial no imaginário dos estudantes. Não apenas através da atractividade das empresas mais associadas à inovação tecnológica, mas também na forma como os jovens antecipam o futuro dos processos de recrutamento e do próprio mercado de trabalho. A inteligência artificial deixou de ser vista como uma tendência distante para passar a ser encarada como uma realidade que irá influenciar diretamente as oportunidades de carreira.

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Finalmente, parece existir uma maturidade crescente na forma como os estudantes encaram a relação entre formação académica e empregabilidade. Encontramos uma geração que continua ambiciosa, mas que demonstra uma preocupação cada vez maior com a aplicabilidade das competências adquiridas, a ligação ao mercado de trabalho e a capacidade de adaptação a um contexto profissional em rápida transformação.

No fundo, diria que encontramos estudantes menos idealistas e mais estratégicos. Continuam a procurar propósito e realização, mas estão cada vez mais focados em identificar organizações que lhes ofereçam competências, experiência e oportunidades concretas de crescimento.

 

O que mais entusiasma os jovens no mercado de trabalho? E o que mais os preocupa?

Os resultados desta edição mostram uma geração simultaneamente ambiciosa e cautelosa. Os jovens continuam a olhar para o mercado de trabalho como uma oportunidade de crescimento, mas fazem-no com uma consciência muito maior dos desafios que os esperam.

Aquilo que mais os entusiasma é, acima de tudo, a possibilidade de desenvolvimento. Os estudantes procuram organizações onde possam aprender rapidamente, adquirir competências relevantes, trabalhar em projectos interessantes e construir uma trajectória profissional sólida. Existe também uma forte atracção por ambientes inovadores, internacionais e tecnologicamente avançados, sobretudo numa altura em que a inteligência artificial e a transformação digital estão a redefinir muitas profissões. Os jovens querem sentir que estão a entrar em organizações que os preparam para o futuro e não para o passado.

Outro factor que continua a gerar entusiasmo é a ideia de progressão. Contrariamente a alguns estereótipos associados às novas gerações, os estudantes não procuram apenas flexibilidade ou qualidade de vida. Procuram também desafios, crescimento, responsabilidade e oportunidades para acelerar a carreira. Querem sentir que o seu esforço terá impacto e reconhecimento.

Do lado das preocupações, os resultados revelam uma ansiedade crescente relativamente à entrada no mercado de trabalho. Muitos estudantes receiam não possuir experiência suficiente para competir pelas melhores oportunidades ou sentem dificuldade em perceber o que as empresas realmente valorizam nos processos de recrutamento. Existe uma sensação de incerteza sobre como fazer a transição entre o contexto académico e o mundo profissional.

Finalmente, há uma preocupação muito pragmática que atravessa praticamente todas as áreas de formação: a capacidade de construir um projecto de vida sustentável. Questões como o custo da habitação, a remuneração inicial, a estabilidade profissional e as oportunidades de progressão influenciam cada vez mais as expectativas dos estudantes. Os jovens continuam ambiciosos, mas procuram cada vez mais sinais de previsibilidade e segurança num contexto económico que percepcionam como incerto.

 

Como analisa a diferença salarial nas expectativas salariais entre homens e mulheres ainda antes do início da vida profissional? O que falta fazer?

Este é, provavelmente, um dos resultados mais relevantes e preocupantes do estudo. Quando observamos uma diferença significativa entre as expectativas salariais de homens e mulheres ainda antes da entrada no mercado de trabalho, percebemos que o tema da igualdade salarial não pode ser analisado apenas a partir das políticas remuneratórias das empresas.

Estamos perante um fenómeno que começa muito antes da primeira negociação salarial. As expectativas são influenciadas por factores culturais, sociais e educacionais que moldam a forma como cada pessoa avalia o seu próprio valor profissional. Diversos estudos internacionais mostram que os homens tendem a apresentar níveis mais elevados de confiança na negociação salarial, enquanto as mulheres revelam maior prudência nas expectativas que estabelecem para si próprias. Os resultados desta edição parecem reflectir essa realidade.

É importante sublinhar que não estamos a falar de salários efectivamente pagos. Estamos a falar de aspirações. E quando a diferença já existe neste momento, existe o risco de se perpetuar ao longo da carreira através de negociações iniciais menos agressivas, menor propensão para pedir aumentos ou menor valorização das próprias competências.

O que falta fazer? Seria simplista atribuir toda a responsabilidade aos indivíduos.

Em primeiro lugar, falar mais cedo sobre carreira, negociação salarial e valorização profissional, ainda durante o percurso académico. As instituições de ensino podem desempenhar um papel relevante. Muitos estudantes ainda terminam a universidade sem nunca terem discutido estes assuntos de forma estruturada.

Em segundo lugar, reforçar a transparência salarial nas empresas, reduzindo a dependência da capacidade individual de negociação. As empresas têm um papel importante. A transparência salarial, a definição clara de bandas remuneratórias e a redução da opacidade nos processos de recrutamento podem ajudar a diminuir estas diferenças logo no início da relação profissional. Quanto menos dependente estiver a remuneração da capacidade individual de negociação, menor tende a ser o impacto destes vieses.

E, finalmente, continuar a promover uma cultura onde homens e mulheres se sintam igualmente confortáveis a reconhecer e defender o valor das suas competências.

 

Em determinadas profissões como electricista, carpinteiro e canalizador já existe uma enorme escassez de talento, no entanto as TIC permanecem no topo das preferências dos jovens. Porquê?

A escassez de talento nem sempre determina a atractividade de uma profissão. Se assim fosse, profissões como electricista ou carpinteiro estariam há muito tempo no topo das preferências dos jovens. O que o estudo mostra é que a escolha de carreira é influenciada por factores muito mais amplos do que a simples empregabilidade.

As áreas das Tecnologias de Informação continuam associadas à inovação, ao futuro, à inteligência artificial, à possibilidade de trabalhar em projectos globais e a percursos profissionais com forte potencial de crescimento. São profissões que beneficiam de uma enorme visibilidade mediática e que os jovens associam a ambientes de trabalho modernos, flexibilidade e oportunidades internacionais.

Por outro lado, muitas profissões técnicas continuam a sofrer com problemas de percepção. Apesar de serem essenciais para a economia e oferecerem, em muitos casos, excelentes níveis de remuneração e empregabilidade, continuam a ser vistas como opções menos prestigiadas ou menos alinhadas com as aspirações académicas de muitos estudantes.

Também não devemos esquecer um factor importante: quando os jovens escolhem uma carreira corporativa, não estão apenas a olhar para o salário de entrada. Estão a imaginar um percurso de 20 ou 30 anos. Em áreas como tecnologia, consultoria ou gestão, existe a perspectiva de progressões hierárquicas muito significativas – de especialista para gestor, director, administrador ou até CEO. Esse potencial de crescimento e de multiplicação do rendimento ao longo da carreira é algo que deve pesar bastante na decisão. Em muitas profissões tradicionais, embora possam existir excelentes níveis de rendimento, os percursos tendem a ser mais lineares e oferecem menos oportunidades de progressão organizacional.

O desafio passa também por mudar a narrativa. Durante décadas, transmitimos aos jovens a ideia de que o sucesso profissional passava sobretudo pelo ensino superior e por “profissões de escritório”. Hoje percebemos que o mercado de trabalho é muito mais diverso e que algumas das carreiras mais procuradas e bem remuneradas podem estar precisamente nas profissões técnicas especializadas.

 

Que tendências antevê para o futuro do trabalho?

A tendência mais relevante para o futuro do trabalho não é apenas tecnológica. É a aceleração da mudança – a velocidade a que as competências se tornarão obsoletas será cada vez maior.

Durante décadas, as empresas contrataram pessoas sobretudo com base no que sabiam fazer. Nos próximos anos, contratarão cada vez mais com base na capacidade de aprender, desaprender e voltar a aprender. A adaptabilidade está a tornar-se uma das competências mais importantes do mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, acredito que veremos uma crescente polarização entre profissionais. Entre os que sabem usar tecnologia e inteligência artificial para amplificar a sua produtividade e capacidade de decisão. E os restantes, que correm o risco de ver parte do seu trabalho progressivamente comoditizado. A diferença entre estes dois grupos vai crescer depressa.

Acredito que outra tendência importante e que vai marcar os próximos anos será a passagem de um mercado de trabalho centrado em funções para um mercado de trabalho centrado em problemas.

Historicamente, as organizações foram construídas em torno de cargos relativamente estáveis: contabilista, gestor de produto, analista, engenheiro, técnico de recursos humanos. No futuro, veremos equipas cada vez mais organizadas em torno de desafios concretos e menos em torno de descrições de funções rígidas. As pessoas serão valorizadas não apenas pelo cargo que ocupam, mas pela capacidade de resolver problemas complexos em contextos diferentes.

Por fim, antevejo uma mudança na própria definição de sucesso profissional. As novas gerações continuarão a ser ambiciosas, mas procurarão cada vez mais combinar realização profissional, desenvolvimento pessoal e qualidade de vida. As empresas que conseguirem responder a estas três dimensões simultaneamente serão aquelas que terão maior capacidade para atrair os melhores profissionais.

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