Por Tânia Reis
Num mercado onde a escassez de talento tecnológico se acentua, a reconversão profissional está a ganhar um novo protagonismo. Na área de SAP, este fenómeno é particularmente visível, à medida que as organizações procuram perfis capazes de aliar conhecimento de negócio, competências digitais e capacidade de adaptação.
A procura por perfis SAP tem vindo a intensificar-se em Portugal e na Europa. Quais são os principais factores que explicam esta tendência?
A tecnologia explica só uma parte. O que estamos a ver é uma mudança profunda na forma como as organizações operam. As empresas precisam de processos mais eficientes, de decidir com base em dados e de responder com rapidez a um contexto económico exigente. Os sistemas SAP estão no centro destas transformações porque suportam áreas como finanças, logística, compras, recursos humanos e operações. Quando as organizações evoluem, cresce a necessidade de profissionais que compreendam estes processos e ajudem a concretizar a mudança.
Que tipo de competências técnicas e funcionais são hoje mais valorizadas nos profissionais SAP, tendo em conta a evolução tecnológica recente?
As empresas procuram quem combine conhecimento de negócio com competências tecnológicas. Do lado técnico, destacam-se o SAP S/4HANA Cloud, a SAP Business Technology Platform, a integração, os dados, a analítica, a automação e a inteligência artificial. Na vertente funcional, mantém-se a procura por quem domina as áreas financeira, logística e de operações. A mudança principal está noutro plano. Conhecer o sistema deixou de chegar. As organizações querem pessoas que entendam processos, trabalhem com dados, comuniquem com equipas diferentes e acompanhem a evolução tecnológica. Saber aprender de forma contínua e adaptar-se passou a contar tanto como o resto.
De que forma tecnologias como inteligência artificial e a automação estão a influenciar o universo SAP e os perfis que as empresas procuram?
A IA está a mudar a natureza do trabalho em quase todas as profissões. Muitas tarefas repetitivas vão sendo automatizadas, e isso não torna as pessoas menos importantes. Muda aquilo que elas trazem. As empresas procuram quem analise informação, decida, resolva problemas e compreenda o contexto onde trabalha. O conhecimento técnico continua a contar, mas a capacidade de aprender e colaborar pesa cada vez mais. No universo SAP isto vê-se bem, porque a tecnologia está cada vez mais junto dos processos de negócio e das decisões estratégicas.
Num contexto de escassez de talento tecnológico, até que ponto a reconversão profissional se tornou uma solução estruturada para as organizações?
A reconversão profissional passou de tendência a necessidade. Nenhum mercado consegue formar, pelos percursos tradicionais, o volume de profissionais que a transformação digital pede. As organizações mais preparadas perceberam que procurar talento já não basta. Têm de o desenvolver. Muitas pessoas que hoje trabalham bem em SAP começaram a carreira em áreas completamente diferentes. O potencial de aprendizagem, a adaptação e a motivação costumam prever melhor o sucesso do que a formação de origem.
Que perfis profissionais estão, actualmente, mais disponíveis ou mais motivados para uma transição para a área de SAP? Há sectores de origem que se destacam?
Os perfis que formamos são muito variados. Desde 2017, trabalhamos com profissionais das áreas financeira, logística, de recursos humanos, da indústria e das operações. Em geral, são pessoas com um percurso já feito, que conhecem os processos das organizações e os desafios do dia-a-dia, e que procuram um novo rumo para a carreira.
Quais são os principais desafios que um profissional enfrenta ao mudar para uma área tecnológica como SAP?
O maior desafio é entrar numa linguagem nova. O SAP tem conceitos, processos e metodologias próprias, e isso exige tempo, foco e disponibilidade para aprender. Ao mesmo tempo, quem vem de outras áreas precisa de ganhar confiança e perceber que muitas das suas competências continuam úteis. Conhecimento de negócio, organização, comunicação, capacidade analítica e resolução de problemas valem muito neste contexto. A transição dá trabalho, mas ninguém começa do zero.
Os programas de formação intensiva, como academias ou bootcamps, têm ganhado protagonismo. Que impacto real têm na preparação de talento de qualidade para o mercado?
O maior contributo destes programas é mostrarem que a aprendizagem pode ser mais rápida e mais próxima da realidade das empresas. Ninguém se torna especialista em poucas semanas, claro. Uma academia serve para criar bases sólidas, acelerar a entrada no mercado e instalar uma mentalidade de aprendizagem contínua. Os melhores programas vão além da tecnologia: ensinam a resolver problemas, a trabalhar em equipa e a aprender de forma autónoma.
Como garantem que estes programas conseguem equilibrar rapidez de formação com a robustez técnica exigida pelas empresas?
Esse equilíbrio consegue-se com foco e prática. Um programa intensivo não deve tentar ensinar tudo. Deve ensinar bem os fundamentos certos. Na valantic, aproximamos a formação daquilo que os profissionais vão encontrar, com exercícios práticos, casos concretos e acompanhamento de gente experiente. A formação inicial é o ponto de partida. A consolidação vem depois, com a integração nas equipas e o trabalho continuado em contexto real.
Que papel desempenham as empresas na integração destes profissionais reconvertidos e o que distingue as organizações que conseguem reter este talento?
A integração conta muitas vezes mais do que o recrutamento. Quem muda de carreira passa sempre por um período de adaptação. As organizações que retêm este talento são as que investem em acompanhamento, mentoria e desenvolvimento contínuo. As novas gerações procuram ambientes onde possam crescer, aprender e sentir que o trabalho tem impacto. A retenção depende cada vez mais da qualidade da experiência profissional e cada vez menos do factor financeiro.
Que oportunidades concretas existem hoje para profissionais sem background tecnológico que queiram entrar no ecossistema SAP?
As oportunidades são reais, sobretudo para quem traz experiência de negócio. O suporte aplicacional, a análise de processos, o testing, a formação de utilizadores e a gestão da mudança podem ser excelentes portas de entrada. Convém perceber que o SAP não vive só de tecnologia. Vive de negócio, de processos e de pessoas. Por isso, muitos profissionais sem percurso tecnológico fazem uma transição consistente quando têm motivação, formação adequada e acompanhamento.
De que forma a transformação digital das empresas está a alterar não só as competências técnicas, mas também as chamadas soft skills exigidas nestes perfis?
As competências humanas estão a ganhar peso. À medida que a tecnologia fica mais acessível e a IA apoia muitas tarefas técnicas, o pensamento crítico, a comunicação, a empatia, a colaboração e a adaptação ficam ainda mais relevantes. Quanto mais avança a tecnologia, mais conta a dimensão humana do trabalho.
Olhando para os próximos anos, que evolução antecipa no mercado de talento SAP?
A mudança maior não será tecnológica. Será humana. Vamos continuar a precisar de especialistas, e ao mesmo tempo veremos cada vez mais profissionais com percursos diversos, capazes de juntar conhecimento de negócio, competências digitais e aprendizagem contínua. A inteligência artificial vai transformar muitas funções, mas dificilmente substitui a capacidade de compreender contextos complexos, construir confiança e conduzir processos de mudança. O grande desafio dos próximos anos será desenvolver pessoas que evoluam ao ritmo a que o trabalho está a mudar.














