Flash Talk com Tiago Henriques, Critical FlyTech: «Desenvolver tecnologia em Portugal com projecção global é um factor importante para atrair e reter talento»

Formou-se em Física, trabalhou numa das maiores instalações de montagem de satélites da Europa e regressou a Portugal. Hoje, na Critical FlyTech, Tiago Henriques acredita que o crescimento do sector aeroespacial nacional está a criar condições para desenvolver carreiras tecnológicas de dimensão internacional sem sair do país.

Tânia Reis
17 de Setembro 2026 | 10:40
Flash Talk com Tiago Henriques, Critical FlyTech: «Desenvolver tecnologia em Portugal com projecção global é um factor importante para atrair e reter talento»

Por Tânia Reis

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Durante anos, a internacionalização foi vista como uma etapa quase obrigatória para quem ambicionava trabalhar em projectos aeroespaciais de grande escala. Tiago Henriques seguiu esse caminho, integrando equipas na Alemanha e contactando de perto com uma das indústrias espaciais mais desenvolvidas da Europa. O regresso a Portugal mostrou-lhe uma realidade diferente daquela que deixou para trás: um ecossistema tecnológico mais maduro, capaz de participar em projectos globais e de oferecer oportunidades competitivas a profissionais especializados. Entre a importância da formação, a retenção de talento e o futuro do sector espacial, o engenheiro de Software da Critical FlyTech traça um retrato da transformação em curso no país.

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Formou-se em Física e em Física Computacional, mas acabou por construir carreira na indústria aeroespacial. Como aconteceu essa transição e que competências da sua formação académica continuam a ser mais valiosas no seu dia-a-dia?

A minha formação em Física deu-me uma base sólida para compreender temas complexos e desenvolver uma abordagem analítica à resolução de problemas. A entrada na Critical Software foi o ponto de viragem. Com o tempo, fui aplicando os conhecimentos adquiridos na área da computação a projectos ligados ao sector espacial, uma evolução que aconteceu de forma natural. No meu dia-a-dia, continuo a utilizar muitas das competências que desenvolvi durante o curso, nomeadamente o pensamento crítico e a facilidade de adaptação.

 

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Trabalhou na Alemanha numa das maiores instalações de montagem de satélites da Europa. O que o levou a sair de Portugal?

Sair de Portugal surgiu como uma oportunidade de crescimento profissional. Na altura, a Alemanha tinha um ecossistema aeroespacial muito desenvolvido e concentrava vários projectos de referência na área dos satélites, pelo que fazia sentido explorar essa oportunidade e aprender com equipas que já tinham uma grande experiência no sector. Obviamente foi uma decisão muito importante no meu percurso, porque me permitiu trabalhar num ambiente internacional e ganhar uma perspectiva mais ampla sobre a indústria espacial.

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Que desafios e aprendizagens marcaram mais essa experiência internacional?

O mercado de trabalho na Alemanha é muito diferente do de Portugal. Para além do desafio de trabalhar num país onde a indústria aeroespacial tem uma predominância bem maior, com projectos e equipas com muito mais escala, esta experiência desafiou-me também a nível pessoal. Tive oportunidade não só de trabalhar e dessa forma explorar a cultura alemã, como também de aproveitar a proximidade com outros países europeus e viajar bastante. No final, foi uma combinação de factores que tornou essa experiência muito enriquecedora. Por um lado, a possibilidade de evoluir profissionalmente num ambiente exigente e, por outro, a oportunidade de sair da minha zona de conforto e descobrir uma nova realidade.

 

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Quais foram as principais diferenças que encontrou entre as culturas de trabalho alemã e portuguesa?

A principal diferença está na escala e na forma como os projectos são organizados. Na Alemanha, encontrei uma indústria espacial muito mais consolidada, com equipas de maior dimensão, processos muito definidos e uma cultura de trabalho mais orientada para o planeamento, o rigor e o cumprimento de procedimentos. Também senti uma abordagem mais individualizada, em que cada pessoa tinha responsabilidades muito bem delimitadas dentro dos projectos. Em Portugal, existe uma maior colaboração entre as equipas, assim como uma maior entreajuda entre as pessoas. No fundo, são realidades diferentes, ambas com pontos fortes.

 

Nos últimos anos, Portugal tem procurado afirmar-se cada vez mais na indústria aeroespacial. Na sua perspectiva, que evolução tem observado no país nessa área?

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Diria que na capacidade de desenvolver competências e criar oportunidades para profissionais que querem trabalhar em projectos ligados ao sector aeroespacial. Quando comecei a minha carreira, era menos comum encontrar em Portugal projectos com dimensão e nível de especialização semelhantes aos com que trabalho agora, pelo que muitos profissionais procuravam essa experiência no estrangeiro. O crescimento de empresas tecnológicas com actuação em áreas como o espaço e os sistemas críticos demonstra que Portugal tem capacidade para participar em projectos internacionais e desenvolver tecnologia competitiva no país. Ainda há espaço para crescer, mas é muito positivo ver a evolução do ecossistema nacional e a criação de novas possibilidades para engenheiros e outros profissionais especializados.

 

Engenharia Aeroespacial voltou a destacar-se entre os cursos com as médias de acesso mais elevadas no ensino superior. O que está por trás deste cenário e o que torna esta área tão atractiva para os jovens?

Acredito que este interesse crescente está muito ligado à forma como o espaço continua a inspirar as novas gerações. É uma área que combina ciência, tecnologia e a possibilidade de trabalhar em projectos com uma dimensão internacional, o que naturalmente desperta a curiosidade e a ambição de muitos jovens. Além disso, existe hoje uma percepção mais clara de que uma carreira ligada ao espaço não passa apenas por construir foguetões ou satélites, mas também pelo desenvolvimento de software, sistemas críticos, análise de dados e muitas outras áreas. Este sector em Portugal tem vindo a crescer, tornando possível trabalhar a partir do nosso país em desafios altamente especializados e com grande impacto.

 

Que oportunidades têm no mercado laboral os estudantes que enveredam por este percurso académico? Portugal já oferece oportunidades suficientemente competitivas neste sector?

Os estudantes que escolhem esta área têm actualmente um leque de saídas profissionais bastante mais diversificado do que existia há alguns anos. A indústria aeroespacial envolve muitas áreas diferentes, desde o desenvolvimento de software e sistemas de bordo até à análise de dados, investigação e engenharia de sistemas. Em Portugal, o ecossistema ainda está a crescer, porém já existem empresas e projectos que permitem aos profissionais trabalhar em desafios de elevada complexidade sem terem necessariamente de sair do país. Claro que há uma diferença de escala face a outros mercados europeus mais maduros, mas a evolução tem sido positiva. O mais importante é continuarmos a criar condições para atrair projectos internacionais e dar aos jovens oportunidades para desenvolverem carreiras competitivas em Portugal.

 

Depois de vários anos na Alemanha, o que pesou mais na decisão de regressar a Portugal nesta fase da sua carreira?

O regresso a Portugal resultou de uma conjugação de factores. Por um lado, a vontade de voltar a estar mais próximo da família, amigos, ter mais flexibilidade para fazer planos fora do trabalho e de recuperar a ligação ao país. Por outro, a percepção de que já existiam em Portugal oportunidades capazes de dar continuidade ao meu percurso profissional, sem ter de abdicar do desafio técnico e da exigência a que me tinha habituado no estrangeiro. A experiência na Alemanha foi muito importante para o meu crescimento, mas senti que era o momento certo para trazer e aplicar esse conhecimento de volta e continuar a trabalhar em projectos com dimensão internacional a partir de Portugal. A possibilidade de conciliar uma carreira na área espacial com a qualidade de vida que o país oferece teve um peso decisivo nesta escolha.

 

Como foi o processo de regressar, tanto do ponto de vista profissional como pessoal? Encontrou o país e o mercado de trabalho muito diferentes daqueles que tinha deixado?

O regresso foi uma transição bastante positiva, embora naturalmente tenha exigido alguma adaptação. Depois de alguns anos fora, integrar-me numa dinâmica profissional diferente implicou perceber como o ecossistema tecnológico português tinha evoluído durante esse período. Encontrei um país com mais empresas a desenvolver projectos em áreas de elevada especialização e com uma aposta crescente em sectores tecnológicos.

Além disso, foi muito positivo perceber a evolução do talento formado em Portugal. As universidades têm vindo a preparar profissionais com competências cada vez mais alinhadas com as necessidades da indústria, e a aproximação entre o meio académico e as empresas permite criar percursos de formação mais completos. A parceria entre a Critical FlyTech e a Universidade de Coimbra é um bom exemplo dessa ligação. A nível pessoal, voltar a estar mais próximo das minhas raízes e da família foi também um factor muito importante nesta nova fase.

 

Referiu que hoje é possível desenvolver carreira em projectos tecnológicos de dimensão global sem sair do país. Como vê esta evolução e que impacto pode ter na retenção de talento qualificado?

Durante muitos anos, a experiência internacional era quase um caminho obrigatório para quem queria trabalhar em projectos de grande escala. No entanto, sinto que essa tendência tem vindo a mudar. A existência de empresas a desenvolver tecnologia com projecção global a partir de Portugal é um factor importante para atrair e reter talento, pois possibilita que profissionais com experiência internacional regressem ao país e que os mais jovens encontrem oportunidades desafiantes desde o início da carreira. Ainda há espaço para continuar a crescer, mas este caminho demonstra que é possível combinar uma carreira de elevada responsabilidade com as vantagens de trabalhar no nosso próprio país.

 

Que condições considera fundamentais para que Portugal consiga atrair e reter profissionais altamente qualificados em áreas tecnológicas?

Acredito que o fundamental é continuar a criar oportunidades em projectos com possibilidade de evolução. As pessoas procuram não só boas condições de trabalho, mas também ambientes onde possam aprender e participar em projectos com impacto. É igualmente importante investir na formação e na ligação entre universidades e empresas. A meu ver, Portugal tem vindo a dar passos importantes nesse sentido, porém a capacidade de manter talento no país dependerá da continuidade desse investimento e da existência de carreiras que sejam competitivas a nível internacional, tanto em termos profissionais como pessoais.

 

Ao integrar a Critical FlyTech, o que mais o entusiasma nos projectos que está agora a desenvolver?

O que mais me entusiasma é a possibilidade de continuar a trabalhar em projectos com dimensão internacional e, de certa forma, manter a ligação a uma realidade que conheci nos últimos anos através da Airbus, mas agora a partir de Portugal. É muito motivador saber que o trabalho desenvolvido na Critical FlyTech tem de cumprir elevados padrões de qualidade e fiabilidade, num contexto em que cada decisão técnica pode ser determinante para o resultado final. Poder aplicar no meu país a experiência que adquiri no estrangeiro e contribuir para o desenvolvimento desta capacidade dentro da Critical FlyTech é uma oportunidade muito especial. Diria que é também uma forma de participar na evolução do sector espacial em Portugal e ajudar a construir conhecimento nesta área.

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