Formação: «Portugal não está bem há 20 anos, arrasta-se. A ausência de uma estratégia para o crescimento é evidente.»

Encaremos a realidade como ela é: Portugal não está bem há 20 anos. Depois do salto económico pós-adesão à União Europeia, Portugal arrasta-se, os seus recém-formados fogem para o estrangeiro à primeira oportunidade, e todas as soluções parecem redundar em mais investimento público e mais dívida.

Por Luís Barreto Xavier, Alumni The Lisbon MBA Católica | Nova e Executive Director, Julius Baer

 

A ausência de uma estratégia para o crescimento é evidente: Nem os partidos do arco da governação conseguem ter uma plataforma de entendimento para o longo prazo. Para cada proposta de um quadrante, junta-se logo um coro de críticas dos mais diversos sectores. Nenhuma solução parece ser consensual. E este é talvez o principal problema do país. Falta um entendimento base entre a vasta maioria da população e respectivos partidos com representação na assembleia para um pacto de crescimento sustentado no longo prazo.

Assim, e antes de mais, os portugueses precisam de saber o que querem: Não temos de ser iguais a ninguém, mas também não temos de ser originais em tudo, bastando muitas vezes olhar para o que os outros fazem bem, e, por que não, copiá-los.
Nunca seremos Espanha ou Alemanha em termos de dimensão, seja pelo tamanho do território, recursos naturais ou tamanho da população. Mas devíamos almejar chegar perto do nível de rendimento de uma Suíça ou uma Singapura, Irlanda ou Suécia. E em nenhum destes exemplos temos tantas pessoas infelizes ou níveis de desigualdade tão elevados como no nosso país. Em Portugal (preços constantes) o salário médio mensal subiu de 834 euros em 1998 para 941 euros em 2018 (Pordata). Pouco mais de 12% em 20 anos. O salário médio mensal na Irlanda em 2000 era de 3073 euros. Em 2019 foi de 4133 euros. Um crescimento de 37% (OCDE, preços constantes). Em 20 anos, um trabalhador irlandês ganha em média 4 vezes mais do que o trabalhador português. Não devíamos estar a enviar missões de estudo à Irlanda todos os meses para saber como eles fazem? Com um pouco de humildade pode ser que consigamos aprender algo.

Um dos primeiros passos para o país alcançar o seu potencial é reconhecer onde não fazemos bem. Aquele discurso de que “somos os melhores do Mundo” ou temos o “melhor do Mundo” não serve a ninguém, e não põe o jantar na mesa dos que mais precisam. Temos de encarar de frente onde na verdade não somos “os melhores do Mundo” mas sim, dos “mais fracos no Mundo”. Se atalharmos as nossas fraquezas, então estaremos em média, francamente melhor.

Para pensarmos numa estratégia de crescimento, temos de partir de dados concretos.

O World Economic Forum Global Competitiveness Ranking é um ponto de partida para analisarmos a situação competitiva do país: Portugal está em 34.º lugar, e olhando para países com dimensão equivalente em termos de população e dimensão territorial, mais uma vez encontramos países como Singapura (1.º), Suíça (5.º), Suécia (8.º) ou Irlanda (24.º) em melhor situação. Se analisarmos o relatório de 2019, podemos ver uma clara correlação entre competitividade e rendimento. Os primeiros 10 países neste Ranking têm todos um PIB per capita em paridade de poder de compra (PPP) médio de 62 mil USD (Portugal tem, em 2019 um PIB per capita em PPP de 34 mil USD).
Este ranking pondera diversos fatores, sendo um deles a qualidade do Capital Humano de um país, e é nesse parâmetro que me quero focar, pois ele é não só é essencial para o bem-estar dos portugueses, como é dos poucos sectores onde dependemos única e exclusivamente das nossas decisões. O outro, seria o quadro institucional e a justiça.

Um bom exemplo da falta de visão estratégica para o setor da Educação e Formação é o facto de termos um ensino superior reconhecidamente de boa qualidade, de tal forma que muitos recém-licenciados de várias áreas (engenharia, medicina, enfermagem, economia e gestão, entre outras) conseguem imediatamente emprego noutros países (a ganhar mais). Formamos bem os nossos licenciados, para outros usufruírem do nosso investimento. Os vários intervenientes na sociedade têm de ser chamados e ouvidos neste processo: as universidades, as empresas e o Governo, em conjunto, são responsáveis em delinear uma estratégia para a integração e desenvolvimento contínuo dos recém-licenciados e restantes trabalhadores. Se não o fizerem, o país continuará a produzir recursos que não são aproveitados, e continuará a carecer de outros que continuarão a não existir. Formamos bem no início, e depois não apostamos nas pessoas.

Não é, pois, de estranhar que no item “Capital Humano”, Portugal não esteja bem: o seu ranking (43.º) é claramente abaixo da média dos países desenvolvidos.

Olhando para o exemplo da Suécia: A força de trabalho sueca está em constante adaptação com constante investimento na sua formação (10.º lugar) vs Portugal (62.º). Um trabalhador sueco despedido e substituído por uma máquina é rapidamente absorvido pelo mercado de trabalho pois existem bolsas de formação patrocinadas tanto pelas empresas como pelos sindicatos para que esse trabalhador possa adquirir competências necessárias no mercado de trabalho. Em vez de usarmos o investimento público em (mais) infraestruturas, o investimento público que deveria ser consensual é o investimento na formação dos nossos trabalhadores, seja no setor público ou no setor privado, criando os mecanismos e incentivos para que todos os agentes económicos queiram participar neste processo.

Conseguindo solucionar a equação do treino nas competências necessárias, é depois necessário o mercado de trabalho ter alguma flexibilidade. O facto é que Portugal está em 121.º entre 141 países no item “hiring and firing practices”. A mobilidade do factor trabalho também não está melhor: 120.º no ranking. Sejamos honestos, isto é muito mau. Ou seja, até podemos ter os trabalhadores mais bem treinados do Mundo, mas se não existirem incentivos para as empresas contratarem (e despedirem), nunca teremos um mercado de trabalho líquido e competitivo. Com competição pelos trabalhadores, teremos melhores salários.

Com melhores salários, teremos maior poder de compra, com todas as consequências positivas para o bem-estar dos portugueses. Até a Suécia, conhecida pela sua ampla rede de proteção social, está melhor que nós (98.º) neste parâmetro.

Assim, porque não investir nas pessoas, o nosso maior recurso natural? Se não apostarmos nele, o lento declínio da população será cada vez menos lento, pois os mais jovens continuarão a procurar um país que lhes dê um futuro, futuro esse que as gerações dos últimos 20 anos não tiveram até agora.

 

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