Género, Personalidade, Superação – de lideradas a líderes (parte II)

Human Resources
11 de Setembro 2025 | 18:40

Por Rui Roque, sociólogo

 

“E eu não preciso de ti. Nem tu de mim. (….) Mas se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Tu passas a ser único no mundo para mim. E eu passo a ser única para ti…(…) É o tempo que tu dedicaste à tua rosa que a torna tão importante”

(Antoine de Saint-Exupéry – O Principezinho)

 

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Nestas palavras intemporais de Saint-Exupéry, resumimos na sua essência a evolução do papel que a mulher detém actualmente na sociedade, ou mesmo quando analisamos o seu desempenho em termos de liderança. Conceitos como dedicação e empatia passaram a ser mais abrangentes no pós-25 de Abril de 1974.

As alterações provocadas pela “liderança feminina” contagiaram todos os quadrantes da vida quotidiana dos portugueses e permitiram que se alcançasse uma sociedade mais equitativa, relativamente ao género, embora ainda não na sua plenitude.

A experiência da “gestão familiar”, transportada para os sectores económico, político, educativo, judicial, entre outros, proporcionados pela revolução, permite-nos afirmar que a revolução possibilitou que se alcançasse uma liderança mais “humanizada”, que torna cada um único no sentido pleno do termo. No seguimento das pesquisas anteriores (Empreendedorismo no Feminino e Ancestrais), eis-nos chegados ao início de mais uma etapa, na reflexão relativa ao estudo do género, de modo a contribuir para o alcance de uma sociedade mais equitativa.

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A presente reflexão, “GPS – Género, Personalidade e Superação – de lideradas a líderes II”, visa perceber quais as caminhos que permitiram à mulher alcançar um lugar no topo da liderança, numa sociedade mais equitativa, fruto dos ideais do 25 de Abril de 1974. Veremos também como gradualmente se foram introduzindo conceitos como superação, a resiliência, a procrastinação, a anti-fragilidade, empoderamento feminino ou a meritocracia, que ao longo dos tempos de modo possibilitaram que se tivesse alcançado uma sociedade mais equitativa

Como vimos nas pesquisas anteriores, o estudo do género visa perceber as assimetrias existentes entre homens e mulheres, sendo que os primeiros estudos, realizados na década de sessenta, trazem para a discussão académica a realidade vivenciada pelos dois sexos. Relativamente à realidade portuguesa, podemos concluir que foi após a Revolução de Abril de 1974, que se tornou possível a diminuição do gender gap existente entre os dois sexos.

Schouten, (2014), afirma: “O género deve ser estudado pela grande importância deste princípio na organização da vida social, mas também por ser um factor que está na raiz de muitas situações de desigualdade e injustiça.”

De que modo a sensibilidade social, defendida por Goleman (2003), intimamente relacionada com a capacidade de identificar os sentimentos que motivam e movem as pessoas, é ou não condicionada pelo género do líder?  Para ele “As mulheres tendem, de um modo geral, a ser superiores aos homens na percepção imediata das emoções de terceiros, enquanto os homens demonstram um nível mais elevado de confiança social, pelo menos do que respeita ao local de trabalho (…) no que se refere à inteligência social as diferenças entre sexos mais evidentes na população em geral são praticamente inexistentes entre os líderes mais bem-sucedidos”, demonstrando que o caminho rumo à equidade, está a ser percorrido.

Podemos concluir que o espírito de liderança está no interior de cada indivíduo, sendo que, no pós-25 de Abril, a mulher passa a estar também disponível e passa a ter acesso a outros níveis de informação que anteriormente lhe estavam vedados. Rojas, apoiado em Ortega y Gasset, denomina esta vontade/desejo de conhecer, interpretar e vencer, característico das líderes emergentes da revolução de Abril, como ansiedade positiva. Esta ansiedade, segundo ele, corresponde ao “Estado de espírito presidido pelo interesse, pela curiosidade, pela ânsia de conhecer e aprofundar muita coisa atraente e sugestiva que a vida tem”, dito de um modo mais específico: “estamos perante um instinto epistemológico: aspiração de saber, anseio de conhecer, inclinação para a cultura, apetência para ir mais além na formação e na moldagem da sua psicologia. Esta aspiração engrandece quem a possuí”.     

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Schouten, (2014), afirma: “O género deve ser estudado pela grande importância deste princípio na organização da vida social, mas também por ser um factor que está na raiz de muitas situações de desigualdade e injustiça.”

Numa sociedade que se pretende ser cada vez mais equitativa, no que diz respeito às questões do género, importa perceber:

  • Será que as “lutas” entre homens e mulheres, ao longo dos tempos, permitiram que hoje se viva numa sociedade mais aberta relativamente às escolhas de cada um, independentemente do sexo?
  • O género continua a condicionar o acesso ao mercado de trabalho ou a forma como socializamos?

– Como podemos promover a igualdade do género?

Algumas das respostas a estas questões são:

– Aumento na participação das mulheres no mercado de trabalho;

– Redução do gender gap (fosso entre os dois géneros, nomeadamente) entre os salários dos homens e das mulheres e que o Decreto-Lei nº 86 de1976, previa o princípio da Igualdade (um dos Is de Abril), mas que, ainda hoje, passados 50 anos, não ocorra na sua plenitude.

– Inclusão de novas políticas de ensino/formação desde cedo, de modo a interiorizar novos valores na consciência dos futuros cidadãos;

– Acesso a um maior número de mulheres nos cargos de topo/poder nas empresas, de modo a atingir-se um maior equilíbrio no diferencial remuneratório, nas licenças de parentalidade, resultando num incremento das quotas do género, bem como na diminuição da violência a que diariamente estão sujeitas dentro e fora de portas. Desta conjugação de factores deverá resultar um empoderamento feminino, que permitirá um maior equilíbrio do género.

Quais as políticas que poderão ser implementas de modo a obter-se uma maior equidade, com o consequente incremento da lei da paridade (Lei Orgânica nº 3 de 2006), e que visa a introdução de quotas de género, na política nacional, bem como a redução do “fosso” salarial entre os sexos?

A demografia mostra-nos que 52% da população é do género feminino, mas na realidade, quando pensamos em termos de liderança, os números são bem diferentes, pois poucas são as mulheres que atingem os designados lugares de topo da liderança.

No pós-revolução, existiram várias alterações socioeconómicas, entre elas a nacionalização do sector produtivo, que permitiram que as primeiras grandes alterações relativamente ao género fossem introduzidas nessa época.

De acordo com o estudo da CGTP (Junho 2014), as nacionalizações serão o ponto de inflexão, relativamente ao papel que a mulher passa a deter nas várias organizações: “Com a nacionalização, os tabus que já vinham fragilizados acabam por cair por terra e o acesso às posições de chefia começou a ser encarado de uma forma natural. Mas esta evolução não é de um dia para o outro. Não havia mulheres a chefiar antes do 25 de Abril e depois começa a haver.”

No entanto, ao longo destes 50 anos, fomos assistindo a algumas conquistas (incremento da representação política equitativa), mas também alguns entraves, relativamente aos direitos das mulheres, nomeadamente no que diz respeito à violência de género e disparidade salarial. Independente do vasto quadro legislativo criado pós-25 de Abril, relativamente à igualdade de género, importa reter a nossa atenção, nos seguintes diplomas:

– A 12 de Junho de 1974, o 1º Governo Provisório, revogava  a proibição de mulheres na magistratura, dando-se deste modo a introdução de alterações neste campo, que rapidamente se alastrariam a outros sectores da sociedade portuguesa.

Decreto-Lei n.º 86 de 1976, com a célebre Lei da Paridade.

Com a adesão à Comunidade Europeia, assistimos a um reforço legislativo, relativamente ao género, no entanto daremos maior atenção aos seguintes:

A Directiva 2000/43/CE de 29 de Junho de 2000, no ponto (3), refere-se ao direito à igualdade: “perante a lei e à protecção contra a discriminação para todas as pessoas constituí um direito universal, reconhecido pela Declaração Universal dos direitos do Homem, pela Convenção das Nações Unidas sobre a eliminação de todas as formas contra as mulheres, pela Convenção Internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial.”

– A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, de 7 de Dezembro de 2000, anexada ao Tratado de Lisboa, que no capítulo dedicado à “Igualdade”, merece leitura atenta dos artigos:

21.º- Não discriminação: “É proibida a discriminação em razão, designadamente do sexo, raça, cor ou origem étnica ou social, características genéticas, língua, religião ou convicções, opiniões políticas ou outras, pertença a uma minoria nacional, riqueza, nacimento, deficiência, idade ou orientação sexual (…)”

22.º – Diversidade cultural, religiosa e linguística:A União respeita a diversidade cultural, religiosa e linguística (…)”.

Por último, no art.º 23.º: Igualdade entre homens e mulheres:Deve ser garantida a igualdade entre homens e mulheres em todos os domínios, incluindo matéria de emprego, trabalho e remuneração. O princípio da igualdade não obsta a que se mantenham ou adoptem medidas que prevejam regalias específicas a favor do sexo sub-representado.”

Embora um direito à igualdade não signifique a inexistência de diferenças, relativamente às questões do género, assistimos, no pós-25 de Abril de 1974, a uma diminuição do gender gap, existente entre ambos os géneros. Como vimos anteriormente, em Ancestrais: “Aquelas a quem tudo era negado, e tudo era exigido, vítimas de uma sociedade “patriarcal”, onde os direitos eram quase inexistentes e os deveres mais que muitos.  Desde uma escola, para aqueles que a frequentavam, em que a divisão era feita com base no género, (escolas para rapazes e escolas para raparigas), estas últimas com menor frequência, fruto de uma sociedade patriarcal, mas onde no entanto, já geminava, a vontade/ambição de uma sociedade mais equitativa/justa”.

A década de 70: A passagem de lideradas a líderes, da génese à afirmação:

No seguimento da vaga emigratória das duas décadas anteriores (nomeadamente para os países da Europa Central, Estados Unidos e Canadá, entre outros), podemos afirmar que será durante a década de 70 que a população portuguesa sofrerá as maiores alterações relativamente às várias migrações ocorridas. Estas migrações ocorreram em vários campos e terão consequências na sociedade de então:

– No campo interno, merecem referência as deslocações do interior para o litoral;

– A crescente vaga de emigração, uma vez que a saída sobretudo nos primeiros anos dos 70 significava a procura de melhores condições de vida que o país teimava em não facultar;

A descolonização, com o regresso de um número elevado de cidadãos portugueses, que viviam nos então designados territórios do ultramar. Este movimento proporcionou um grande desenvolvimento desde aldeias, vilas e cidades, fruto das novas mentalidades vivenciadas nos antigos territórios ultramarinos. Surgiram novos negócios e verificou-se um incremento nas áreas da indústria, serviços, educação, o que alteraria por completo o quadro socioeconómico.

A esse respeito, em 1976, Eduardo Lourenço (2004) afirma: “O destino de Portugal nunca esteve como agora, tão intimamente ligado à capacidade do Estado, para coordenar o intercâmbio cultural entre os portugueses do continente, das ilhas e das comunidades de emigrantes em países europeus ou americanos”.  Ainda e segundo ele: “a revolução de Abril restituiu ao cidadão português a plenitude dos direitos cívicos comuns às democracias ocidentais, operou uma mudança nas relações de força entre a antiga classe dirigente e possuidora e o povo trabalhador”.

Como vimos em Ancestrais (Roque: 2025), antes do 25 de Abril as mulheres eram “aquelas a quem tudo era negado e tudo era exigido, vítimas de uma sociedade ‘patriarcal’, onde os direitos eram quase inexistentes e os deveres mais do que muitos”.

Com a Revolução, e com a introdução das medidas subjacentes à mesma, fomos assistindo à conquista de alguns direitos, nomeadamente:

– Igualdade no local de trabalho, possibilitando e fomentando o acesso a cargos de chefia;

– Melhorias significativas na educação e saúde, com um incremento/ desenvolvimento na educação das mulheres e das raparigas, permitindo o acesso a determinadas profissões, anteriormente destinadas apenas aos homens.

– Empoderamento da mulher, com destaque para as licenças de parentalidade, redução do fosso salarial, das quotas do género, quer seja no sector público, como no privado, A demografia mostra-nos que 52% da população é do género feminino, mas na realidade quando pensamos em termos de liderança, os números são bem diferentes. Portugal, ocupa o 15.º lugar, nos países da União Europeia, no ranking da igualdade do género (dados do Jornal Público de 24 de Outubro de 2023),

No fundo, como afirma Teresa Damásio (2025), que citando Simone de Beauvoir, afirma: “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.”

Por último, perceber e definir as caraterísticas que as “mulheres empreendedoras” possuem e tornou possível a sua passagem de lideradas a líderes. Importa perceber de que modo o empoderamento leva a uma visão mais abrangente de empreendedorismo, assente em novos modos de liderança assente numa liderança andrógina, que, no entender de Damásio (2025), “é a melhor forma de exercer a liderança, pois mistura capacidades masculinas, com capacidades femininas”.

Deve criar-se um quadro legislativo que permita uma maior liberdade religiosa, de raça, de idade, mas também uma maior equidade financeira e de oportunidades entre os sexos. Devem ser criadas medidas que permitam uma melhor formação dos futuros cidadãos, de modo a diminuir o actual fosso e contribuir para uma maior equidade em temos de género.

Esta equidade permite que o sucesso dos líderes esteja ao acesso de todos, independentemente do sexo de cada um. Assim, fruto do trabalho diário, da resiliência e da anti-fragilidade vivenciada pelo indivíduo, no contexto pessoal, profissional, será possível assistir a um incremento do empoderamento feminino, bem como um crescimento da meritocracia, resultando daqui uma maior igualdade do género, de modo a permitir a criação de novos tipos de liderança.

Na continuidade dos progressos ocorridos podemos concluir que a igualdade do género ainda não foi atingida na sua plenitude porque, mesmo com todas as alterações ocorridas, existem algumas arestas a limar.

Existem ainda campos em que é urgente o reforço de medidas que visem essa mesma equidade do género, nomeadamente nos campos da educação e da erradicação da violência, seja ela dentro ou fora de portas.

Diariamente chegam-nos  relatos de violência doméstica, na maior parte fruto de algumas ineficiências do processo educativo dos indivíduos, resultando nestes “desvios”. Todos devemos contribuir para que estes relatos, bem como o número de mortes por este motivo, não apenas diminuam, mas que sejam erradicados de uma sociedade que se pretende cada vez mais equitativa e participativa, de modo a permitir aos futuros cidadãos uma percepção dos valores que a revolução nos trouxe.

Relativamente a esta questão, Rodrigo Guedes de Carvalho, no jornal Expresso de 17 de Julho 2025, escrevia relativamente à violência doméstica: “Mulheres que vivem sem respirar, esmagadas pelo medo, e homens que não têm medo nenhum do castigo da justiça. Esse castigo tímido, hesitante, mole, completamente alheado do terror que mata e mata, e destrói futuros às crianças que nele crescem”.

Devemos ter consciência que, durante os últimos 50 anos, ocorreram grandes transformações relativamente ao papel que a Mulher detém na sociedade.

Partindo de uma “sociedade patriarcal”, desde cedo traçou o caminho que a levaria a uma sociedade mais equitativa. Soube através da anti-fragilidade criar novas realidades, resultando num maior empoderamento feminino.

Revejo este empoderamento naquela imagem da gaivota resiliente de Richard Bach, que, pela persistência, se destacava do resto do bando. Paulo Coelho, a esse respeito, escreve: “Para Fernão é diferente, evoluir é necessário, a vida é o desconhecido e o desconhecível. (…) Viver é conquistar, não limitar o ilimitável. Sempre haverá o aprender, sempre. Olhar de frente, alcançar a perfeição, gostar muito, muitíssimo do que se faz. Eis o segredo de Fernão Capelo Gaivota, A ninguém é permitido deixar de aprender”.

Estes devem ser os testemunhos e os valores que devemos transmitir às gerações vindouras. Em Ancestrais e agora em GPS partilhei convosco algumas das alterações ocorridas na sociedade portuguesa, e que devem ajudar-nos a lutar por tudo o que elas acreditaram e nos transmitiram e que nos permitiram uma maior, mas ainda não plena equidade do género. Tal como Fernão, não devemos desistir dos nossos sonhos, mesmo que aos olhos de alguns não sejam realizáveis. Eu acredito que são.     

 

 

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