CGD: Gerir talento é gerir o futuro

Atrair e reter talento deixou de ser apenas uma questão de recrutamento para passar a ser um verdadeiro teste à capacidade das organizações se reinventarem.

Human Resources
3 de Junho 2026 | 13:40

Atrair e reter talento deixou de ser apenas uma questão de recrutamento para passar a ser um verdadeiro teste à capacidade das organizações se reinventarem.

Por: Andreia Garrett, Direcção de Pessoas e Cultura da Caixa Geral de Depósitos

 

Quando Ortega y Gasset escreveu que «eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela não me salvo a mim» não imaginou que nos oferecia um ponto de partida tão poderoso para a actual Gestão de Pessoas. Não somos apenas o que sabemos fazer ou o que sempre fizemos. Mas também o contexto que nos rodeia, a cultura em que estamos imersos, as oportunidades que nos oferecem. Se não cuidarmos da circunstância, não estamos a desenvolver verdadeiramente o talento. Estamos apenas a observá-lo.

A Caixa celebra este ano 150 anos. 150 anos de uma história e de um percurso que não se mede pelo passado que conserva. Mede-se pela coragem com que abraça o futuro. E o futuro, hoje, faz-se sobretudo através das pessoas que escolhemos atrair, desenvolver e reter. É essa convicção que orienta a nossa estratégia de talento. Não basta atrair os melhores. É preciso construir uma organização onde quem chega queira ficar e onde quem fica queira evoluir. E é preciso fazê-lo num momento em que a contratação e retenção de talento se tornaram um desafio maior do que a própria regulação do sector financeiro. Não é circunstancial, trata-se de uma realidade que exige uma resposta organizacional consistente.

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A banca já não compete apenas com a banca. Houve uma altura em que era fácil contratar os melhores alunos das melhores universidades. Hoje competimos com consultoras, com empresas de tecnologia, com organizações internacionais. E competimos num contexto em que as expectativas dos profissionais mudaram profundamente. Os jovens que chegam à Caixa não procuram apenas um emprego, procuram saber qual é o nosso propósito, que tipo de instituição somos, como funcionam as novas formas de trabalhar. Em larga medida, são eles que nos entrevistam a nós, e não o contrário. Esta inversão de papéis obriga a uma honestidade nova sobre o que oferecemos e sobre o que somos. Cabe-nos estar à altura das perguntas, com respostas verdadeiras e não com narrativas convenientes. Talento, para nós, na Caixa, não é apenas performance. É a interacção entre o que alguém entrega hoje, o que tem capacidade de vir a ser e a vontade real de o realizar. Performance, potencial e motivação são precisamente as três variáveis que o nosso Programa de Gestão de Talento cruza, de forma estruturada, para identificar, reconhecer e desenvolver competências dos colaboradores que fazem a diferença na Caixa. O programa existe para tornar este olhar organizado e transversal, mas o seu valor não está no método. Está no impacto que provoca, quando um colaborador percebe que a sua organização reconhece algo que ele próprio ainda não tinha visto.

Identificar talento é uma responsabilidade que começa cedo. Por isso, o nosso processo arranca com uma identificação proactiva, em articulação com as várias direcções, para mapear quem tem perfil para integrar o programa. Esta primeira etapa abre caminho a um percurso estruturado de várias fases, com momentos de avaliação, planos individuais de desenvolvimento e acompanhamento ao longo do tempo. Os participantes passam por experiências formativas progressivas, desafiadas em complexidade e ambição, alinhadas com aquilo que cada perfil precisa para evoluir.

As competências que nos trouxeram até aqui não são as que nos vão levar mais longe. Adam Grant, no seu livro “Pensar Melhor”, defende que num mundo em transformação contínua a capacidade mais valiosa não é apenas saber, mas também repensar esse saber. A coragem de desaprender e reaprender, de duvidar das próprias ferramentas sem perder a confiança nas próprias capacidades é o que procuramos cultivar nos nossos programas de desenvolvimento. Quando um colaborador entra no Programa de Gestão de Talento, não é apenas para adquirir conhecimento técnico. É para ser confrontado com perspectivas novas, ser questionado, ser desafiado a pensar de forma diferente sobre si próprio e sobre o seu papel na organização. A formação é, neste contexto, o pilar central para desenvolver e reter os melhores talentos. Não como meramente um conjunto de horas a cumprir, mas como uma jornada de aprendizagem desenhada à medida das necessidades de cada função e de cada pessoa. Apostamos numa lógica que permite identificar as necessidades específicas de cada colaborador e desenhar percursos que combinem competências técnicas com soft skills. Quando essas necessidades são partilhadas por um número significativo de pessoas, customizamos programas em colaboração com as melhores escolas de negócio nacionais.

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Tudo isto só é possível porque temos uma equipa de Pessoas e Cultura desenhada para estar verdadeiramente presente, ao lado dos colaboradores em todos os momentos relevantes do seu percurso. Recebemos quem se prepara para entrar através de Open Days que abrem as portas da Caixa antes de qualquer contratação. Integramos quem chega de forma estruturada, garantindo que a primeira experiência reflecte o que somos. Acompanhamos de forma permanente, através de uma equipa experiente de Business Partners que conhecem o terreno e fazem a ponte entre as pessoas e a organização. E desenvolvemos através da nossa Academia, o espaço onde cada colaborador encontra recursos e percursos para crescer continuamente. Esta proximidade é a devolução prática de uma convicção simples: o compromisso com as nossas pessoas.

O talento que hoje temos foi desenvolvido para o mundo de ontem. O talento que vamos precisar exige coragem para investir em competências cujo retorno ainda não é totalmente mensurável, em perfis que ainda não existem em volume, e numa cultura de transformação que ainda estamos a construir. Voltando a Ortega, salvar a circunstância é também aceitar que a circunstância mudou. Gerir talento com visão é, no fundo, gerir a organização que queremos ser, antes de sermos obrigados a sê-la. É essa a Caixa que herdámos. E é essa a Caixa que vamos continuar a construir, virados para o futuro.

Este artigo faz parte da edição de Maio (n.º 185) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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