Gosto pela mudança, sem medo do incerto

Diz ter uma “liderança adaptável”, e adaptável tem sido também o percurso de Sandra Alvarez, porque muda sempre que sente que já não está a acrescentar valor. Ou quando o sítio onde está não lhe acrescenta valor a si.

 

Por Ana Leonor Martins | Fotos Nuno Carrancho

 

Sandra Alvarez não tem problemas em admitir que “era uma menina mimada” quando começou a trabalhar, que quando assumiu uma direcção-geral pela primeira vez era mais “mandona”, e que nem tudo na sua carreira são sucessos. Mas nunca teve medo de mudar, nem de falhar. Gosta de recomeçar. Assim tem feito várias vezes ao longo da sua carreira. E tem aprendido muito: mudou o estilo de liderança, aprendeu a ouvir e a não considerar nenhum feedback menos positivo um ataque pessoal. E mudou outra coisa: só quer que esteja a trabalhar consigo quem realmente quer estar.

Considerando-se uma pessoa “muito racional”, ainda muito nova Sandra Alvarez definiu vários objectivos, quer para a sua vida pessoal, quer profissional. Desde logo, que não iria deixar para trás nem uma nem outra, concretizando que queria ser directora-geral aos 35 anos. E foi. E é mãe de quatro filhos. E dá aulas. E está a fazer um doutoramento. E faz voluntariado… Definiu ainda que nos primeiros 25 anos de carreira ia experimentar várias áreas. Atinge este ano esse marco. O que será que se segue?

 

Comecemos pelo princípio. A sua formação é em Economia, iniciou o seu percurso profissional na área Comercial, mas depressa evoluiu para a área de Marketing, Comunicação e Media. Ainda recorda o que motivou estas escolhas?
A minha licenciatura foi em Economia, no ISEG, e a escolha esteve relacionada com a abrangência do curso e com o conselho do meu pai, que é engenheiro, muito racional e um role model para mim, ao nível da determinação, da resiliência e do pragmatismo.

O meu objectivo era trabalhar em Marcas, em Marketing ou Comunicação, mas ambos concordámos que poderia fazer essa especialização após um curso mais lato em termos de conhecimentos. E gosto de Economia. Mas hoje penso que deveria ter tirado Gestão, pois, na realidade, é o que faço há muitos anos.

Começar pelas vendas foi o melhor que fiz, pela vertente prática do negócio. Confesso que era uma menina mimada e, acabada de sair da universidade, fui “atirada” a vender nas mercearias. E foi o melhor que me aconteceu. Cresci como nunca teria crescido sentada numa secretária.

 

Começou a trabalhar aos 22 anos e, ao longo do seu percurso, começou várias vezes do zero, por mudar de área…
Sim… Comecei a trabalhar mal acabei o curso e, como é normal para quem acaba um curso de Economia, as grandes auditoras e consultoras são uma das primeiras oportunidades que nos aparecem. Comigo também foi assim, mas tive a sorte de, em simultâneo, ter duas propostas de emprego, uma para uma grande consultora e outra para uma grande empresa de produtos de grande consumo, os FMCG, e foi essa que escolhi. Nesta empresa a forma de se começar era através da área de vendas, e assim comecei.

Aprendi muito em termos de relação com todos os estilos de pessoas e também em termos das variáveis mais importantes para o negócio. Só após um ano e meio nas vendas é que passei para o Marketing, depois para agências de publicidade, depois novamente para outro anunciante, depois mais uma vez para uma agência de publicidade e há cerca de 10 anos passei para a área de media.

Cada vez que mudo de área, tenho de aprender muita coisa, ou seja, tenho de aprender esse negócio de novo. Mas isso para mim não é um problema, é um gosto. Gosto de recomeçar e não tenho medo de mudar, nem de falhar. Dou sempre o meu melhor. Nem sempre acerto, mas isso não me assusta, pois sou apologista do ditado “mais vale uma má decisão do que uma não decisão”.

 

E gosta de mudar…
Mudo sempre que sinto que não estou a acrescentar valor ao que estou a fazer ou, ao contrário, se o sítio onde estou não me acrescenta valor a mim. Mas não chateio ninguém, quando não estou bem, mudo-me simplesmente. E é verdade que já mudei de emprego muitas vezes. Actualmente é um comportamento normal, mas na altura tive muitas vezes de o justificar, pois não era normal na minha geração.

 

O que recorda, de melhor e de pior, no seu percurso até à data?
O que recordo de melhor são as pessoas que conheci ao longo de toda a minha carreira profissional, o que aprendi com elas e também a aprendizagem que obtive em cada uma das funções e das empresas onde estive.

De pior, recordo os dois despedimentos colectivos que já tive de fazer em duas das empresas onde estive.

 

Que aprendizagens destacaria?
O facto de ter trabalhado em anunciantes, em agências multinacionais de Publicidade e de Media, e em muitas áreas diferentes, mas sempre relacionadas com marcas, deu-me muita experiência em muitas áreas e em perspectivas muito diferentes.

Sei exactamente porque é que um cliente faz determinado pedido e o que é importante na sua perspectiva, ou o que acontece dentro de uma agência criativa, desde que recebem um briefing até entregarem um material pronto para comunicar à agência de meios. Isso dá-me uma grande confiança e tranquilidade ao fazer o meu trabalho, pois na realidade conheço também o outro lado e posso antecipar soluções.

Muita coisa correu muito bem, e a PHD é um excelente exemplo disso, mas também já tive um projecto que correu mal, a agência de publicidade Arnold, do grupo EURO RSCG, hoje Havas Worldwide. Correu mal, mas foi um processo que me ensinou muito, desde a gestão da frustração, ao facto de ter lidado pela primeira vez com um despedimento colectivo da equipa que geria. Foi muito injusto para muita gente, mas os negócios são assim, se não funcionam têm de fechar.

O que mais aprendi ao longo dos anos, e para além dos conhecimentos dos vários negócios por onde passei, foi sem dúvida aprender a lidar com as pessoas. Gerir pessoas não se aprende nos cursos de Economia. Talvez se aprenda algo mais nos de Gestão, mas penso que deveria ser uma das principais áreas de aprendizagem para quem gere empresas, pois o sucesso da empresa está directamente correlacionado com a motivação e consequente entrega e empenho da equipa.

 

Leia a entrevista na íntegra, na edição de Janeiro da Human Resources, nas bancas.

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