Há medo de mudar de trabalho. Mas esse “factor de retenção” não interessa às empresas (vídeo)

A crise económica é evidente e é inegável que o desemprego está a aumentar. Ainda assim, várias empresas continuam a contratar e a dificuldade em encontrar candidatos parece não ter diminuído. Os profissionais demonstram menor vontade em mudar e a razão não será porque estão mais satisfeitos. Ainda que o menor turnover possa ser positivo para as empresas, reter pessoas por medo não é.

 

Por Sandra M. Pinto

Parceria entre a Human Resources e a Randstad, a (re) talk desta semana contou com a presença de Cláudio Valente, director de Recursos Humanos da IKEA Portugal, e Luísa Pinho, senior manager da Randstad Professionals, numa conversa moderada por Ana Leonor Martins, directora de redacção do título especializado em Gestão de Pessoas. O mote foi a pergunta “Afinal, há candidatos?”. A pergunta pode parecer estranha, num contexto em que o desemprego está a aumentar. Mas não é.

A verdade é que as dificuldades sentidas pelas empresas em contratar não desapareceu, mesmo com as estimativas do início deste mês a alertarem para o facto de que a taxa de desemprego poder chegar aos dois dígitos até final do ano.

Isto não será de estranhar, pois quase sempre acontece que, em alturas de crise, «não fica de todo mais fácil recrutar», afirma Luísa Pinho.  «Mais do que recusa de ofertas, o que sentimos é nem sequer querer avançar para conhecer o projecto. Há hoje um receio e uma procura pela estabilidade, o que leva a que muitos profissionais não queiram avançar na mudança para outro projecto profissional». Analisando alturas semelhantes à que estamos a viver, ao nível da crise do emprego, a recusa na oferta de novos projectos não apresenta grande diferença, refere a especialista. «De uma forma transversal, nas áreas o comportamentos dos candidatos é o mesmo mas pela maior dinâmica do mercado, as áreas dos perfis mais tecnológicos apresentam um crescimento».

Esta atitude muda relativamente aos profissionais que estão num efectiva situação de desemprego, «essas pessoas querem efectivamente aproveitar todas as oportunidades que lhes surjam porque receiam que a oportunidade seguinte demore algum tempo a voltar a surgir».

 

Ainda que, por norma, a IKEA Portugal tenha um turnover baixo, o director de Recursos Humanos Cláudio Valente reconhece que agora tem sido ainda mais baixo. «Como em todas as crises, recruta-se menos quantidade e os colaboradores têm menos vontade de arriscar, mas acredito que o mesmo não acontece com os colaboradores com elevado potencial, altamente especializados e com competências diferenciadoras. A procura por esse talento é constante na gestão de Recursos Humanos da IKEA», garante.

O facto de a rotatividades se revelar agora mais baixa não se revela mais benéfico para as empresa, pois trabalhadores desmotivados não são saudáveis para nenhuma organização. «Quando a insatisfação no posto de trabalho existe, a mudança tem obrigatoriamente de acontecer», defende Luísa Pinho. A especialista relembra candidatos que não estavam permeáveis a conhecer um novo desafio, agora, fruto da pandemia e da forma como as empresas estão a lidar com a situação, passam a ficar permeáveis.

Há de facto um receio em mudar de emprego por parte dos candidatos, devido à nova variável que é a pandemia, refere a senior manager da Randstad Professionals. «E por sentimos isso no momento em que as empresa partilham connosco a necessidade de recrutar, temos como prioridade chamar a atenção das organizações para esse aspecto de modo a transmitir mais segurança ao candidato».

 

O que os colaboradores mais valorizam

Segurança, tipicamente, não aparecia entre as variáveis mais valorizadas pelos candidatos aquando da escolha de onde trabalhar. Isso mesmo têm revelado os estudos de Employer Brand da Randstad. Apesar de, actualmente, poder haver uma maior preponderância desta variável, Cláudio Valente não considera que a base de valorização dos colaboradores mudou. «Antes ampliou», afirma. «Há o antes COVID-19 e o pós-COVID-19; há factores que permanecem do antes pandemia como o bom ambiente de trabalho, as oportunidades de desenvolvimento, a necessidade de crescimento profissional e a inovação, mas agora a estes juntam-se a segurança, a cultura e os valores organizacionais, como o sentido de missão e o impacto na sociedade». A valorização dos colaboradores foi assim ampliada «em cima daquilo que já era valorizado juntaram-se outras valorizações sendo necessários construir mais dentro destas temáticas».

Inegável é também que a exigência e os desafios para com a área de Gestão de Pessoas aumentaram muitíssimo com a pandemia. «Hoje em dia os Recursos Humanos têm uma relevância como nunca tinham tido antes», garante o responsável da IKEA, partilhando: «O que me tem sido solicitado é que me apresente como um agente de transformação, que seja o departamento da gestão de recursos humanos o primeiro a tomar a responsabilidade de ser um motor da transformação». Nesta, inclui-se a transformação interna e estrutural dentro das organizações. «Enquanto gestão de Recursos Humanos, isto requer que procuremos novas competências para as nossa equipas e para nós», reconhece. «Temos agora uma oportunidade de mudar, de inovar e de transformar, o que se revela uma excelente para nósm enquanto profissionais e enquanto pessoas».

 

Olhar o futuro

Na visão de Cláudio Valente o futuro vai passar pelo temas das lideranças inclusivas. «O valor humano tem vindo a ganhar tal importância nas organizações que se torna imperativo que é preciso ter politicas efectivas para assegurar que isso se fortaleça», defende. «É isso que vai fazer a diferença, seja em momentos de crise ou de disrupção, cada vez mais a capacidade de termos profissionais que se ligam emocionalmente uns com os outros é obrigatória». E as organizações devem assegurar que criam condições para isto, «têm de existir ferramentas e estratégias que assegurem que as possas possam desenvolver essa ligação emocional e como tal fortalecer entre eles a própria relação».

«Muita coisa vai mesmo mudar», corrobora Luísa Pinho. «As organizações vão ter de repensar formas de trabalhar e de comunicar, tornando-se mais digitais e inovadoras», refere para concluir que «a mudança transformacional é a palavra de ordem.»

(re) Veja aqui a conversa, na íntegra.

 

Pode ver todas as retalks anteriores aqui.

 

 

 

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