Segundo Tomas Chamorro-Premuzic, professor de psicologia organizacional e especialista em liderança, a diferença entre uma pergunta útil e uma pergunta contraproducente está menos na curiosidade e mais na capacidade de impulsionar a reflexão colectiva.
Segundo a Fast Company, o especialista propõe uma abordagem prática para distinguir perguntas inteligentes de intervenções que apenas fazem perder tempo, desviam a atenção da equipa ou procuram demonstrar conhecimento sem acrescentar valor à discussão.
Nem todas as perguntas são iguais
Chamorro-Premuzic começa por distinguir as perguntas consideradas “seguras” ou convencionais. São questões frequentemente utilizadas em reuniões porque ajudam a clarificar objectivos, alinhar expectativas ou definir próximos passos. Exemplos incluem perguntas como “Estamos alinhados quanto ao objectivo?”, “Como será medido o sucesso?” ou “Quais são os próximos passos?”.
Embora possam ser úteis, estas intervenções raramente se destacam pela originalidade ou profundidade. Servem sobretudo para garantir que os participantes possuem uma compreensão comum do tema em discussão.
O que caracteriza uma pergunta inteligente?
Para o especialista, as perguntas verdadeiramente inteligentes são aquelas que desafiam pressupostos, expõem falhas no raciocínio ou ajudam os grupos a olhar para um problema sob uma nova perspectiva.
Entre os exemplos apresentados estão questões como:
- “O que teria de acontecer para que esta solução funcionasse?”
- “O que estamos a deixar de ver por estarmos a analisar o problema desta forma?”
- “Estamos a tentar resolver o problema certo?”
- “Qual é o argumento mais forte contra a proposta que estamos a defender?”
- “O que nos faria mudar de opinião?”
Segundo o autor, estas perguntas obrigam as equipas a questionar pressupostos, identificar riscos e evitar decisões baseadas apenas em consenso ou confirmação das ideias já existentes.
Cinco tipos de perguntas que deve evitar
- Perguntas que não são realmente perguntas
O primeiro grupo inclui intervenções que surgem sob a forma de pergunta, mas cujo verdadeiro objectivo é exibir conhecimento, impressionar a audiência ou prolongar o tempo de fala do interveniente.
São comentários disfarçados de pergunta e que, muitas vezes, não procuram uma resposta genuína.
- Perguntas cuja resposta já foi dada
Também devem ser evitadas as perguntas que demonstram falta de atenção ou preparação. Trata-se de questões cuja resposta foi apresentada minutos antes, consta dos documentos enviados previamente ou foi explicitamente abordada durante a reunião.
Além de interromperem a dinâmica da sessão, podem transmitir uma imagem de desinteresse, descuido ou falta de profissionalismo.
- Perguntas baseadas em pressupostos errados
Outra armadilha frequente são as perguntas que incorporam uma conclusão não validada. Por exemplo, assumir que um determinado grupo de colaboradores é menos comprometido ou que um determinado modelo de trabalho é necessariamente menos produtivo antes de existirem evidências que sustentem essa conclusão.
Este tipo de formulação pode introduzir enviesamentos na discussão e limitar a capacidade do grupo para analisar os factos de forma objectiva.
- Perguntas impossíveis de responder
Há ainda questões que exigem níveis de certeza irrealistas, sobretudo quando dizem respeito ao futuro. Pedir previsões exactas sobre o impacto da IA, a evolução de um sector ou os resultados financeiros de uma transformação organizacional pode criar uma falsa expectativa de precisão.
O problema não está em discutir cenários futuros, mas em exigir respostas definitivas para temas que dependem inevitavelmente de múltiplas variáveis.
- Perguntas irrelevantes para o tema em discussão
Por fim, o autor destaca as perguntas que, embora possam ser interessantes por si só, não acrescentam valor ao debate em curso. São intervenções que desviam a atenção da equipa, dificultam a tomada de decisão e reduzem a eficácia da reunião.
A regra das cinco perguntas antes de falar
Para evitar intervenções pouco úteis, Chamorro-Premuzic sugere um exercício simples de auto-avaliação. Antes de colocar uma questão numa reunião, cada participante deverá perguntar a si próprio:
- Isto é realmente uma pergunta?
- Já conheço a resposta?
- Estou a partir de uma premissa que pode estar errada?
- Alguém consegue realmente responder a esta questão?
- Esta pergunta é relevante para a discussão?
O verdadeiro sinal de inteligência
O autor conclui que admitir desconhecimento pode ser mais inteligente do que tentar parecer inteligente. Uma pergunta simples que procura clarificar um conceito ou compreender uma decisão pode ser mais útil do que uma intervenção longa repleta de jargão empresarial ou conceitos complexos.
Num contexto em que ferramentas de Inteligência Artificial conseguem gerar perguntas sofisticadas em segundos, a verdadeira competência diferenciadora poderá estar menos na formulação elaborada e mais no discernimento para saber qual a questão que realmente faz avançar a conversa e, por vezes, reconhecer que não é necessário fazer pergunta nenhuma.


















