Para recolher estes dados, os trabalhadores utilizam smartphones fixos à cabeça, óculos com câmaras incorporadas e outros dispositivos capazes de captar os movimentos a partir da perspectiva de quem executa a tarefa. Segundo o Geek Spin, o objectivo é fornecer às empresas tecnológicas informação detalhada sobre a forma como as pessoas realizam actividades como dobrar roupa, preparar alimentos, fazer café ou limpar a casa.
Este tipo de informação, designada por “dados egocêntricos”, permite que os sistemas de Inteligência Artificial aprendam a reproduzir movimentos humanos em ambientes reais, ultrapassando um dos principais desafios do desenvolvimento de robôs autónomos.
Um novo tipo de trabalho na economia da IA
Entre os trabalhadores envolvidos neste processo está Nagireddy Sriramyachandra, uma dona de casa de Chennai, que grava vídeos de tarefas domésticas para treinar modelos de IA. Segundo a reportagem, recebe cerca de 250 rupias por hora, o equivalente a pouco mais de dois dólares, para registar actividades como cortar fruta ou realizar outras tarefas do quotidiano.
Os conteúdos são enviados através de uma aplicação para a Objectways, empresa especializada em dados para Inteligência Artificial com presença na Índia e nos Estados Unidos. A plataforma fornece inclusive feedback em tempo real quando a gravação não cumpre os requisitos necessários para o treino dos modelos.
Além de colaboradores que trabalham a partir de casa, existem equipas que operam em fábricas e estúdios especializados, recorrendo a sensores de movimento, câmaras corporais e outros equipamentos tecnológicos para capturar acções humanas com maior precisão.
Mercado dos robôs humanóides deverá crescer
A procura por este tipo de dados está ligada às expectativas de crescimento do mercado dos robôs humanóides. De acordo com a notícia, o banco Morgan Stanley estima que até 2050 possam existir mais de mil milhões de robôs humanóides em utilização, sobretudo em funções comerciais e industriais.
Segundo o CEO da Objectways, Ravi Shankar, os clientes da empresa pedem frequentemente gravações de tarefas muito específicas, desde dobrar roupa a preparar sanduíches ou bebidas, para que os sistemas aprendam cada movimento com o maior detalhe possível.
Especialistas acreditam que a procura por este tipo de trabalho poderá aumentar à medida que as empresas intensificam o desenvolvimento de sistemas robóticos mais sofisticados.
O paradoxo de treinar a própria substituição
A crescente utilização destes dados levanta, contudo, preocupações sobre o futuro do trabalho. Ao ensinarem máquinas a executar actividades humanas, muitos destes trabalhadores estão potencialmente a contribuir para a automatização das próprias funções.
A reportagem destaca o caso de Ponni, uma trabalhadora de 55 anos que fabrica grinaldas de flores e participa também na recolha de dados para IA. Na sua opinião, as próximas gerações poderão enfrentar maiores dificuldades para encontrar emprego em áreas semelhantes às actualmente ocupadas por trabalhadores humanos.
Esta preocupação é partilhada por algumas entidades e especialistas, que alertam para os efeitos que a crescente automação poderá ter no mercado laboral. Ainda assim, nem todos vêem a evolução tecnológica como uma ameaça. Alguns dos próprios participantes no processo acreditam que os robôs poderão vir a tornar-se ferramentas úteis para apoiar as actividades do quotidiano.
Para já, uma coisa parece certa: à medida que a Inteligência Artificial evolui, cresce também a necessidade de dados humanos capazes de ensinar as máquinas a compreender e reproduzir comportamentos do mundo real.


















