Humanologia: Como nos superiorizamos profissionalmente aos robôs

Potenciar o ser humano e o que o torna único, num contexto de diferenciação face à tecnologia crescente que nos envolve, é um imperativo.

 

Por Filipe Ferreira, Co-fundador e sócio da Sfori

 

É inevitável questionar como pode o ser humano manter-se relevante na estrutura produtiva e organizacional, num contexto de crescente proliferação de tecnologias (hard e soft), que suportam um número cada vez maior de actividades profissionais.

Poderão os robôs substituir-nos e assumir os nossos empregos? O “não” é a resposta dos optimistas e negacionistas. O “sim” é defendido pelos fatalistas, mas, na realidade, depende. A questão tem estado em cima da mesa, em especial nos últimos anos, com os novos desenvolvimentos em automação, inteligência artificial (IA) e machine learning.

Um fisioterapeuta, um jornalista ou um fotógrafo, não precisam, por enquanto, de estar preocupados. No entanto, um motorista ou um picker (logística), por exemplo, devem avaliar a possibilidade de mudar de profissão. O site www.willrobotstakemyjob.com permite saber se um trabalho está em risco de extinção devido às máquinas e à transformação digital. Destaco algumas das suas conclusões. Agentes de crédito bancário, carpinteiros, mecânicos e soldadores de linha de montagem têm alta probabilidade de a sua profissão ser automatizada (97%, 92%, 88% e 78%, respectivamente). Por seu lado, auditores financeiros (17%), supervisores de construção civil e trabalhadores de indústrias extractivas (17%), detectives particulares (31%), criação de animais a céu aberto (25%) e ortodontistas (2%) apresentam menor risco de automação.

Segundo a PwC, nos próximos anos, 3% dos empregos serão potencialmente automatizados por IA e o aumento da digitalização resultante da COVID-19 pode acelerar essa tendência. Em meados da década de 2030, acompanhando o avanço e a autonomização da IA, estima-se que 30% dos empregos e 44% dos trabalhadores com baixo nível de escolaridade estarão em risco.

Factualmente, a tecnologia tem sido – e continuará a ser – responsável pela extinção de muitas funções profissionais. No entanto, de igual forma, tem contribuído para a criação ou nascimento de profissões até agora inexistentes. A robotização tem sido o oposto da eliminação de postos de trabalho. Actualmente, apenas 10% dos trabalhos são totalmente automatizados. Além disso, com robôs colaborativos (cobots), a produção aumenta em 50%, sem a perda de empregos, é o que nos revela um relatório da Universal Robots, que afirma ainda que, entre 2017 e 2020, a indústria robótica terá sido responsável por criar mais de dois milhões de postos de trabalho a nível mundial.

O Fórum Económico Mundial (WEF) estima que, até 2025, 85 milhões de postos de trabalho verão a sua procura diminuída, enquanto assistiremos à procura de 97 milhões de novos empregos, totalmente relacionados com uma dimensão exclusivamente tecnológica. Com base no Estudo de Inteligência Artificial Global da PwC, em 2030, a IA será responsável por um aumento estimado de 26% no PIB (Produto Interno Bruto) global. Para colocar este número em contexto, direi apenas que é maior do que o actual PIB combinado da China e da Índia. Numa perspectiva ainda mais abrangente, análises do WEF realizadas em 2018, que previam 133 milhões de novos empregos no período 2018-2022, são agora actualizadas, anunciando-se que as profissões emergentes do futuro, analisadas nestes mesmos relatórios, serão responsáveis, globalmente, por 2,4 milhões de oportunidades de trabalho até 2022.

Se juntarmos a tudo isto, o facto de a pandemia da COVID-19 estar a impactar de forma significativa o modelo de trabalho tradicional, acelerando a penetração da tecnologia e a automatização de processos e funções, facilmente concluímos que nos encontramos num momento de viragem, onde algumas reflexões decisivas devem ser realizadas.

O relatório “Remote Working and the Platform of the Future”, estudo conjunto da Boston Consulting Group (BCG) e Microsoft, afirma que antes da pandemia da COVID-19, Portugal estava abaixo da média europeia na adopção de trabalho remoto, com 12% do tempo versus uma média europeia de 16% e 79% dos trabalhadores sem acesso a essa configuração de trabalho. No entanto, durante o confinamento, Portugal ultrapassou a média de tempo remoto (66% versus 62%) e da percentagem de trabalhadores com acesso remoto (79% versus 74%).

Long story short, a tecnologia robótica está cada vez mais presente no nosso quotidiano e, embora isso envolva riscos latentes relacionados com a deslocalização e eliminação de postos de trabalho, segurança e privacidade, são esperados mais benefícios do que prejuízos. Ainda que a tecnologia consiga assegurar uma grande parte das funções inerentes a um trabalho, isso não é sinónimo de que um robô possa ter a mesma capacidade e qualidades que a natureza humana enquadra.

Jack Ma, conhecido empreendedor, filantropo e fundador do unicórnio Alibaba, afirmou no Fórum de Davos que se nos quisermos manter úteis e valiosos, teremos de investir no desenvolvimento das competências que as máquinas não conseguem replicar e que se prendem fundamentalmente com as dimensões comportamentais.

É assim urgente desenvolver e operacionalizar sete competências comportamentais (soft skills), nas quais reside a fonte de maior diferenciação entre Ser Humano e Tecnologia.

  • Empatia: Um estudo recente da Korn Ferry, envolvendo quase 5000 indivíduos, apurou que 69% afirmam que os seus líderes demonstraram mais empatia durante a crise. A empatia é a capacidade humana de sentir pelo outro e muitas vezes até mesmo sentir como o outro se está a sentir. É importante dedicar tempo aos outros, descobrindo-os e ficando a perceber o que está bem ou mal com eles. Relações sociais mais saudáveis são sinónimo de organizações com melhor desempenho.

 

  • Criatividade: É uma das ferramentas de que dispomos para evoluir, permitindo ao ser humano elevar o seu pensamento e capacidades para além do estágio actual, concretizando ideias e visões. É fulcral na nossa sobrevivência e tem sido a chave do empreendedorismo e do sucesso organizacional. É igualmente importante na educação, ciência, artes e tantos outros campos do conhecimento. Pela sua importância, como competência-chave para o desenvolvimento de cada um de nós, a criatividade, enquanto habilidade de encontrar novas soluções interessantes, é uma das portas do futuro.

 

  • Colaboração: O ser humano é um ser social, feito de relações e interdependências. Foi a capacidade de colaborarmos enquanto indivíduos que nos fez evoluir e singrar enquanto espécie. Desenvolver a capacidade para trabalhar com pessoas e máquinas, em larga escala, com flexibilidade, adaptabilidade, tolerância, confiança e visando alcançar efeitos sinérgicos, devem ser vectores de orientação para qualquer profissional, actual e de futuro.

 

  • Inspiração: Desenvolver e aprimorar a habilidade de fazer com que outras pessoas alinhem, integrem, participem num projecto mais ou menos arriscado, que torna o impossível possível e onde se avança para território desconhecido, abandonando zonas de conforto, foi, é, e sempre será algo essencial à nossa condição de sociedade, onde qualquer indivíduo procura referências noutros seres, seus semelhantes. Os factores “verdade” e “credibilidade”, inerentes à inspiração, são de índole humana e não maquinal.

 

  • Resiliência: Esta pandemia veio confirmar uma vez mais a falibilidade dos modelos de análise e gestão de risco. Ao invés, investir na capacidade de resiliência de pessoas e organizações pode vir a ser o factor mais importante na capacidade de ultrapassarmos os desafios que este contexto nos coloca. Aprender com o fracasso e desenvolver a capacidade de recuperamos rapidamente dos contratempos, com sensibilidade, sentido de urgência e coesão, afasta-nos decisivamente de qualquer tecnologia. E é algo que devemos potenciar todos os dias.

 

  • Curiosidade: O Ser humano é, por defeito, ser insatisfeito e querer ir mais além. Desporto, Ciência, Artes, áreas do conhecimento em geral, nunca teriam sido o que são, se o individuo não fosse curioso. Fomentar e instigar a confiança para explorar o novo e fazer as perguntas importantes, procurando respostas que ainda não foram criadas, é função do ser humano. As máquinas ajudar-nos-ão a fazer o resto do caminho.

 

  • Intuição: A palavra intuição vem do latim “intuire”, que significa ver por dentro. É uma sabedoria interior, um tipo de inteligência que permite elaborações através da visão interior. É, provavelmente, uma condensação de uma ou mais linhas de pensamento racional, num único momento, em que a mente reúne rapidamente uma gama de conhecimentos e passa para a conclusão. A intuição condensa anos de experiência e de aprendizagem num flash instantâneo. Perceber nas entrelinhas, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise, saber quando estamos errados e avaliar novos caminhos quando estamos a experimentar algo ou alguém novo, é algo eminentemente humano, que devemos preservar e promover. “Gut feeling” também é gestão.

Seja qual for o futuro, e sendo este um debate que extrapola as fronteiras tecnológicas, acontecendo também no domínio das mais diversas ciências sociais, é certo que nenhuma máquina substituirá a habilidade, o pensamento crítico, a tomada de decisão sensível e, acima de tudo, a criatividade humana.

Segundo o WEF, 50% da actual mão- -de-obra activa requer a requalificação das suas competências (reskilling e upskilling). Procurar diferenciar o ser humano da tecnologia ao invés de tentar suplantá-la é, certamente, um caminho mais proveitoso para este mesmo investimento e que, simultaneamente, permite aos indivíduos aperfeiçoar facetas da sua existência que comprovadamente foram, são e serão0 o motivo de nos mantermos no topo da cadeia evolutiva.

Este artigo foi publicado na edição de Dezembro (nº. 120) da Human Resources, nas bancas.

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