Por Patrícia Bispo, head of Learning & Development | Soft Skills, da Galileu
A Inteligência Artificial (IA) tornou-se, em pouco mais de dois anos, num tema incontornável na actividade das empresas portuguesas, presente tanto nas prioridades estratégicas como no trabalho quotidiano das equipas. Os dados disponíveis confirmam essa relevância, mas revelam também que a adopção da tecnologia está a ocorrer a duas velocidades muito distintas: a das empresas e a das equipas.
Relativamente ao plano organizacional, os números são ainda modestos. Segundo dados do INE, em 2025, 12% das empresas portuguesas com 10 ou mais trabalhadores utilizavam tecnologias de IA, um crescimento de quase 3% quando comparado com o ano anterior. Já a média europeia situava-se nos 20%, entre 55% nas grandes empresas e 17% nas pequenas. Não por acaso, a Comissão Europeia continua a identificar a adopção de IA e a formação em competências digitais básicas como dois dos principais desafios dos países.
Esta diferença de ritmo não resulta de falta de interesse das organizações. Pelo contrário, a maioria reconhece o potencial da IA para aumentar a produtividade, apoiar a tomada de decisão e automatizar tarefas. O desafio está na dificuldade em transformar esse potencial em utilização consistente e segura. Muitas empresas enfrentam dúvidas sobre por onde começar, quais os processos a priorizar, como proteger dados sensíveis, garantir conformidade regulamentar, medir o retorno do investimento e preparar as equipas para trabalhar de forma diferente. A tecnologia está disponível; a capacidade organizacional para a integrar é que nem sempre acompanha esse ritmo.
Por outro lado, quando analisamos o plano individual, os números são substancialmente diferentes. Segundo o European AI Barometer da EY, com dados referentes a 2025, 83% dos profissionais portugueses inquiridos afirma já utilizar aplicações de IA, e 90% avalia essa experiência de forma positiva – a percentagem mais elevada entre todos os países analisados no estudo. A adopção individual está claramente a anteceder a adopção organizacional, planeada e enquadrada pelas empresas, sendo que uma parte significativa desta utilização, decorre fora de qualquer processo definido pela organização, sem orientação sobre boas práticas nem garantias claras quanto à protecção de dados.
Esta realidade evidencia um fenómeno cada vez mais frequente nas organizações: a tecnologia evolui mais depressa do que a capacidade das pessoas para a incorporar no seu trabalho diário. Quando isso acontece, surgem utilizações isoladas, pouco consistentes e frequentemente invisíveis para a própria organização. Cada colaborador experimenta ferramentas diferentes, utiliza-as segundo critérios próprios e desenvolve formas distintas de trabalhar, dificultando a criação de práticas comuns, a partilha de conhecimento e a governação da utilização da IA.
Para mais de metade dos empregadores (63%), segundo o World Economic Forum, o principal obstáculo à transformação das suas organizações até 2030 são precisamente as lacunas de competências. Não é, portanto, a tecnologia que limita a mudança, mas a distância entre o que já é tecnicamente possível e o que as equipas conseguem de facto fazer.
É precisamente aqui que a literacia digital assume um papel determinante. Num contexto de IA, não significa apenas conhecer ferramentas, mas compreender como integrá-las no trabalho de forma crítica, segura e eficaz. Envolve saber identificar tarefas onde a IA acrescenta valor, formular pedidos claros e contextualizados, validar a qualidade das respostas obtidas, reconhecer limitações, proteger informação sensível e decidir quando o julgamento humano continua a ser indispensável. Mais do que ensinar a utilizar aplicações específicas, a literacia digital desenvolve a capacidade de adaptação necessária para acompanhar uma tecnologia que evolui continuamente.
É também a literacia digital que permite reduzir uma das maiores fontes de desperdício na adopção da IA: a diferença entre utilizar uma ferramenta e utilizá-la bem. Dois profissionais podem recorrer ao mesmo assistente de IA e obter resultados completamente distintos consoante a sua capacidade para estruturar pedidos, interpretar respostas, validar informação ou integrar esses resultados no seu contexto de trabalho. A produtividade não depende apenas da tecnologia disponível, mas da competência de quem a utiliza.
Portugal dispõe hoje de um ponto de partida particularmente favorável: profissionais receptivos, curiosos e disponíveis para experimentar novas tecnologias. O desafio passa agora por transformar essa iniciativa individual numa competência colectiva. Isso exige estratégia, liderança, políticas claras de utilização, processos adaptados e investimento contínuo no desenvolvimento das pessoas. Sem esse enquadramento, a IA tenderá a crescer de forma informal, desigual e difícil de escalar. Com ele, poderá tornar-se um verdadeiro factor de competitividade.
Nos próximos anos, a vantagem competitiva dificilmente será determinada pelas organizações que possuem mais ferramentas de IA, mas por aquelas que conseguem desenvolver pessoas capazes de trabalhar melhor com elas. A tecnologia continuará a evoluir rapidamente. A verdadeira diferenciação estará na literacia digital das equipas, e na capacidade das organizações para transformarem essas competências em melhores decisões, maior produtividade e inovação sustentada.
















