IA no recrutamento é considerada de alto risco. O que muda para as empresas com o AI Act

Desde a triagem de currículos e a identificação de competências à recomendação dos candidatos que passam à fase seguinte, a IA está a transformar a forma de contratar talento. A partir de 2 de Agosto, novas disposições do Regulamento da Inteligência Artificial da União Europeia (AI Act) passam a ser aplicáveis, reforçando o quadro europeu para uma utilização mais transparente e responsável da tecnologia.

Margarida Lopes
31 de Julho 2026 | 12:20
IA no recrutamento é considerada de alto risco. O que muda para as empresas com o AI Act

O AI Act, em vigor desde Agosto de 2024, classifica como de alto risco os sistemas de IA utilizados para apoiar decisões nas áreas do emprego e do recrutamento. As exigências específicas aplicáveis a estes sistemas deverão produzir efeitos a partir de 2 de Dezembro de 2027, mas, para a Hays, as empresas devem começar desde já a preparar os seus processos, as suas equipas e os mecanismos de supervisão.

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Embora estas ferramentas proporcionem ganhos de eficiência em tarefas como a triagem de candidaturas ou a análise de grandes volumes de informação, a Hays defende que as decisões susceptíveis de afectar o percurso profissional de uma pessoa não devem ficar exclusivamente nas mãos de um algoritmo.

«O principal contributo do AI Act é o estabelecimento de um quadro comum para garantir que a inteligência artificial é utilizada de forma responsável, especialmente em áreas tão sensíveis como o recrutamento. A tecnologia pode trazer objectividade e eficiência, mas nunca deve substituir o critério profissional. A avaliação final de uma candidatura deve continuar a incorporar juízo humano, contexto e capacidade de interpretação», afirma Mário Gonçalves, Business director da Hays Portugal.

Quando começarem a aplicar-se, as regras relativas aos sistemas de alto risco utilizados no recrutamento exigirão, entre outros aspectos, a gestão e avaliação contínua dos riscos, a utilização de dados de qualidade, documentação técnica, rastreabilidade, supervisão humana e mecanismos destinados a detectar e minimizar possíveis enviesamentos ao longo do processo de tomada de decisão.

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O que implica para os departamentos de Recursos Humanos?

Para os departamentos de Recursos Humanos, o novo enquadramento implica uma maior profissionalização da governação da inteligência artificial. As organizações devem começar por mapear as ferramentas utilizadas, documentar o seu funcionamento, rever periodicamente os resultados e definir claramente quem assegura a supervisão humana das decisões relevantes.

A necessidade de preparação é reforçada pelos dados do Guia Hays 2026. A IA já é utilizada regularmente no local de trabalho por 65% dos empregadores e 61% dos profissionais em Portugal. No entanto, 34% dos profissionais afirmam não receber qualquer formação ou apoio e apenas 10% referem ter acesso a formação completa. A vontade de aprender é, contudo, expressiva: 88% mostram-se disponíveis para participar em workshops sobre IA.

Mais transparência e protecção para os candidatos

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O novo quadro europeu pretende também reforçar a posição dos profissionais nos processos de selecção. As organizações que utilizem sistemas abrangidos pelas regras terão de assegurar maior transparência sobre o papel desempenhado pela inteligência artificial e implementar mecanismos de supervisão que evitem decisões exclusivamente automatizadas.

Estas medidas procuram reduzir o risco de discriminação algorítmica e reforçar princípios como a igualdade de oportunidades, a transparência e a fundamentação das decisões. Para a Hays, as empresas podem começar desde já a incorporar estes princípios nos seus processos, reforçando a confiança dos candidatos antes mesmo de todas as exigências se tornarem aplicáveis.

Uma mudança que abrange empresas de todas as dimensões

As futuras exigências abrangerão organizações de diferentes dimensões que utilizem sistemas de IA de alto risco para apoiar decisões relacionadas com o recrutamento. Para as PME, o período de preparação será especialmente importante para rever processos, clarificar responsabilidades e avaliar os fornecedores de tecnologia com que trabalham.

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«O desafio pode ser maior para as organizações com menos recursos, mas este período representa também uma oportunidade para reverem os seus processos de selecção e trabalharem com fornecedores de tecnologia que incorporem as futuras exigências desde a concepção das suas soluções. A confiança na IA dependerá tanto da regulação como da forma como as empresas a implementam», sublinha Mário Gonçalves.

A Hays considera que este enquadramento não irá travar a inovação, mas antes promover uma utilização mais responsável e sustentável da tecnologia. «A inteligência artificial continuará a ser uma grande aliada na automatização de tarefas administrativas, na gestão de grandes volumes de candidaturas ou na identificação de competências. O desafio passará por integrá-la de forma equilibrada, aproveitando a sua eficiência tecnológica sem perder o valor do critério humano», explica Mário Gonçalves.

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