Incentivos: os novos desafios trazidos pela pandemia

Haverá algum evento que tenha mudando tanto a sua vida, a nível pessoal e profissional, como o coronavírus? Consegue pensar num único aspecto que a pandemia não tenha alterado?

 

Por Sara Monte e Freitas, partner na Expense Reduction Analysts

Das viagens, aos hábitos de relacionamento com a família, amigos e colegas de trabalho, até à forma como fazemos compras ou trabalhamos, é seguro afirmar que o nosso dia-a-dia, como o conhecíamos, é apenas uma memória do passado.
Parece-me indiscutível que estamos perante o evento mais disruptivo e com o impacto mais profundo e global, nas pessoas e nas organizações desde, pelo menos, o pós Grande Guerra.

O mundo, em escassos meses, mudou. Literalmente. Ficou assustador e imprevisível. E a revolução que estamos a viver não trouxe consigo manual de instruções para estes tempos particularmente conturbados.
Se a gestão de pessoas é, só por si e já antes da pandemia, em minha opinião, uma das mais (senão a mais!) desafiante função dentro de uma organização, nos tempos que vivemos, concorre para a menos cobiçada.

À medida que o mundo reemerge da pandemia e da recessão globais, são múltiplos os desafios que se colocam aos gestores de talentos. Exemplo disso é o uso eficaz da tecnologia para medir a produção, recrutar, contratar, formar, comunicar e criar engagement com os trabalhadores.

Mas há um outro aspecto sobre o qual me debruçarei neste artigo e com o qual quotidianamente somos interpelados pelos Recursos Humanos de empresas de diversas dimensões e distintas áreas de negócio: sistemas de incentivos e fringe benefits. O mundo mudou e, com ele, também estes aspectos sensíveis, muitas vezes complementares à remuneração, sofrem evoluções.
O desafio, neste momento, é ajustar estes benefícios à conjuntura económica e social, mantendo-os interessantes e cativantes para atrair e reter talento nas organizações.

Se, até ao início da pandemia, ter carro de empresa, combustível, parque de estacionamento, escritório privado, refeitório, ticket refeição e outros benefícios, era altamente relevante para o trabalhador, hoje, e olhando para um novo paradigma pós-Covid-19, em muitos casos, deixa de o ser.

É aqui que é fundamental pensar, em conjunto com os Recursos Humanos, o que vai ser o futuro do trabalho no médio e longo prazo. A partir daí, discernir hoje, de forma criativa mas assertiva, quais os benefícios mais relevantes para atrair e reter talento de alto desempenho e mantê-lo motivado. Tudo isto, considerando sempre um investimento equilibrado para o ROI obtido, de forma a criar uma situação win-win, tanto para o empregador, como para os funcionários.

Hoje, é já claro que o trabalho remoto, uma tendência que vinha a ganhar expressão nos últimos, veio para ficar. Será o novo normal, alavancado pela pandemia, em empresas de serviços ou não industriais.

Os paradigmas estão a mudar e surgem novas formas de trabalhar. As organizações pretendem flexibilizar o trabalho a partir de casa, bem como o horário, o que está também em linha com o desejado pelos trabalhadores.
Se, por um lado, permite poupanças apreciáveis em metros quadrados de imobiliário, mobiliário, seguros, água, electricidade e outros recursos às empresas, estes custos são transferidos para os trabalhadores.

Haverá que harmonizar este esforço, o que muitas empresas estão a equacionar incluir nos incentivos e fringe benefits. O colaborador a trabalhar em home office vai despender de cadeira, secretaria, impressora, Internet, água, electricidade, ar condicionado, consumíveis e outros recursos seus.

Afinal, quanto vale tudo isto? Como se quantifica e remunera?

É neste estádio que temos encontrado muitas organizações das mais diversas áreas de negócio e dimensão.
Falámos do lado material. E o intangível? Num cenário onde as pessoas trabalham mais isoladas e com menor interacção pessoal, é fundamental que as organizações estejam atentas ao bem-estar do trabalhador. Aqui, a criação de linhas de apoio laboral e IT, seguros de saúde que abranjam a família, apoio financeiro à formação académica, oferta de entretenimento e actividades físicas, entregas gratuitas em casa, sessões de aconselhamento e coaching, acompanhamento em actividades como meditação e ioga, formação em primeiros socorros ou acompanhamento da saúde mental do colaborador, são algumas medidas tomadas já por diversas empresas internacionais.

Vivemos, de fato, uma nova normalidade, que exige medidas inovadoras. É a ela que teremos de adaptar os apoios das empresas aos seus trabalhadores. As que tínhamos há um ano, hoje, na maioria dos casos, são obsoletas.

No mundo pós-Covid-19, acredito que os empregadores vão querer concentrar-se na personalização de benefícios para atender às necessidades específicas de cada indivíduo. O lado humano passa a assumir uma centralidade na definição de incentivos, apoios e fringe benefits, bem como na relação da corporação com o indivíduo, como nunca vimos até agora. O mesmo, estou convicta se passará nas estratégias de liderança, altamente personalizadas.

Se não houve nenhum evento que tenha tido tanto impacto na vida pessoal e profissional como a pandemia, as medidas a tomar terão, também elas, de ser excepcionais, por forma a captar, motivar e reter os melhores talentos, observando sempre o melhor ROI para a organização e um inquestionável win-win com o trabalhador.

 

 

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