Inês Barros, Adyta: Uma empresa de cibersegurança que quer competir «mais do que apenas com salário»

Nasceu em 2015, como uma spin-off da Universidade do Porto, e tem vindo a operar em duas áreas fundamentais: cibersegurança e soluções de comunicações seguras. Inês Barros, head of Finance and Operations da Adyta, analisa o papel da academia no recrutamento e retenção de talento em áreas técnicas e especializadas.

Por Tânia Reis 

 

Num cenário em que todas as empresas do sector tecnológico e de segurança, competem pelo mesmo conjunto limitado de profissionais, a Adyta aposta na ligação à academia, o propósito do projecto e uma cultura de proximidade.

Quais os principais desafios que a Adyta enfrenta actualmente na atracção de profissionais altamente qualificados em cibersegurança?

O grande desafio da Adyta ao iniciar um processo de recrutamento é atrair perfis altamente técnicos e actualizados para áreas de desenvolvimento, análise de vulnerabilidades ou consultoria em cibersegurança. A elevada procura deste perfil de profissionais, associada à possibilidade de trabalho remoto, faz com que muitos talentos optem por empresas internacionais com propostas salariais difíceis de igualar por startups nacionais. Além disso, o facto de a cibersegurança exigir competências muito técnicas e em constante actualização reduz o número de candidatos verdadeiramente preparados para funções.

Ainda assim, acreditamos que esta dificuldade não é exclusiva da nossa realidade: é transversal a todas as empresas que operam no sector tecnológico e de segurança, e que competem pelo mesmo conjunto limitado de profissionais. Aliás, a escassez generalizada de profissionais especializados em cibersegurança é uma realidade documentada pelo Cybersecurity Workforce Study 2024.

Por isso, mais do que competir apenas com salário, o nosso foco é construir uma proposta de valor que vai além. Acreditamos que os projectos desafiantes, a autonomia técnica e o propósito claro ajudam-nos a atrair e reter talento.

No sector, que perfis são particularmente difíceis de encontrar?

A procura por especialistas altamente técnicos, como em cibersegurança ofensiva, análise de vulnerabilidades, engenharia de software seguro e infraestruturas críticas, é um desafio concreto e recorrente. Estes perfis exigem não só um nível de conhecimento especializado, mas também experiência prática que nem sempre é fácil de encontrar no mercado nacional.

Este cenário é confirmado pelo estudo Experis 2025 CIO Outlook, do ManpowerGroup, que revela que a dificuldade em encontrar profissionais com as competências certas agrava o panorama da escassez de talento, com 76% das organizações globais a reportarem dificuldades no recrutamento de talento qualificado.

Apesar disto, acreditamos que a nossa proximidade com a academia tem sido uma resposta eficaz a esta escassez. Ao integrar recém-licenciados em projectos com forte componente de investigação e desenvolvimento, conseguimos formar talento internamente e contribuir, à nossa escala, para reduzir a distância entre a formação académica e as exigências reais do sector.

Que estratégias têm sido mais eficazes para atrair talento?

Na Adyta, a atracção de talento assenta em três pilares fundamentais: a ligação à academia, o propósito do projecto e uma cultura de proximidade. Desde a fundação, mantemos uma relação muito estreita com a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e o Departamento de Ciência de Computadores (DCC), organização onde nasceu a empresa. Essa colaboração permite-nos identificar talento emergente, acompanhar o percurso dos estudantes e criar oportunidades reais de integração em projectos de cibersegurança e desenvolvimento tecnológico.

Acreditamos que esta ligação à academia é uma das estratégias mais eficazes para garantir um fluxo contínuo de novos profissionais, já familiarizados com o nosso contexto técnico e cultural. Muitos dos nossos colaboradores iniciaram o seu percurso connosco através de estágios curriculares ou projectos de dissertação, evoluindo depois para funções de maior responsabilidade.

Outra das nossas estratégicas para atrair talento tem sido a construção de uma cultura organizacional alinhada com um propósito. Trabalhamos diariamente para desenvolver soluções de segurança com tecnologia nacional, num sector estratégico para o país e para a Europa. Este sentido de missão tem-se revelado decisivo para os jovens que procuram mais do que um emprego: querem contribuir para um projecto com impacto real.

Por fim, a gestão de proximidade e o ambiente colaborativo completam a equação. As pessoas sentem-se ouvidas, reconhecidas e envolvidas nas decisões, o que torna a Adyta um local onde o talento quer crescer e permanecer.

De que forma essa ligação à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto tem mitigado a escassez de talento?

Desde a sua origem, a Adyta mantém uma colaboração muito próxima com a Faculdade e essa relação traduz-se hoje em parcerias de longo prazo: participamos em projectos de Investigação e Desenvolvimento (I&D) com financiamento europeu, acolhemos estágios curriculares e dissertações de mestrado, e o nosso processo de recrutamento privilegia perfis recém-licenciados. Este contacto directo permite-nos identificar talento promissor logo nas fases iniciais do percurso universitário e proporcionar uma transição natural para o mercado de trabalho.

Além de contribuir para o desenvolvimento de competências práticas nos estudantes, esta relação beneficia também a própria empresa, que ganha acesso a novas ideias, investigação aplicada e uma rede de conhecimento em constante actualização.

Na nossa experiência, esta ligação entre a academia e o tecido empresarial é essencial para reduzir a distância entre o ensino e as necessidades reais do mercado, assim como tem provado ser sustentável e mutuamente vantajosa.

Como é que a vossa cultura organizacional se reflecte no processo de recrutamento e na retenção de colaboradores?

A cultura organizacional é uma das nossas principais prioridades para garantir o sucesso na atracção e retenção de talento. Cultivamos um ambiente de proximidade, transparência e confiança, onde cada pessoa sente que tem voz activa e é parte integrante do projecto. Essa forma de estar reflecte-se em todas as etapas do ciclo de vida do colaborador, desde o recrutamento até à progressão na carreira.

Durante o processo de selecção, procuramos identificar não apenas competências técnicas, mas sobretudo afinidade com os nossos valores. Privilegiamos perfis colaborativos, curiosos e com vontade de aprender, porque acreditamos que a atitude e o potencial contam tanto quanto a experiência prévia.

Uma vez integrados, o foco passa a ser o envolvimento e a valorização contínua. Mantemos uma política de portas abertas, onde a comunicação é constante e o feedback é bilateral. Esta gestão de proximidade permite ajustar processos, reconhecer contributos e fomentar o sentido de pertença — um factor que consideramos determinante para a retenção.

O resultado é uma equipa estável e comprometida, com uma taxa de rotatividade muito reduzida, em grande parte porque as pessoas acreditam genuinamente no propósito da empresa e sentem que crescem com ela. Em última análise, é essa cultura de confiança e partilha que faz com que a Adyta continue a ser uma startup onde o talento se desenvolve e permanece.

Que papel desempenha a formação interna no desenvolvimento contínuo das equipas? Existem programas estruturados ou planos de carreira definidos?

Na Adyta, a formação e o desenvolvimento contínuo são considerados pilares essenciais para garantir a evolução das equipas e a sustentabilidade da empresa a longo prazo. Trabalhamos num sector que exige actualização constante — a cibersegurança e as tecnologias de informação evoluem a um ritmo acelerado — e, por isso, acreditamos que a aprendizagem tem de fazer parte do dia-a-dia.

Mais do que programas formais, promovemos uma cultura de partilha e de aprendizagem colaborativa. Os projectos em que estamos envolvidos, muitos deles no contexto de investigação e desenvolvimento (I&D), proporcionam oportunidades constantes para o crescimento técnico e pessoal das equipas. A experiência prática, aliada ao contacto com novas tecnologias e metodologias, torna-se um meio natural de formação contínua.

Paralelamente, incentivamos a formação externa e o aperfeiçoamento individual, apoiando a participação em cursos, conferências e certificações relevantes.

O nosso objectivo é simples: garantir que cada pessoa tem espaço para evoluir, aprender e contribuir com valor acrescentado. É essa dinâmica que mantém as equipas motivadas e a empresa preparada para os desafios futuros.

A flexibilidade no trabalho é um factor decisivo para muitos profissionais. Como é que abordam esta questão?

Reconhecemos que a flexibilidade é hoje um dos factores mais valorizados pelos profissionais e um elemento central na atracção e retenção de talento. Procuramos equilibrar a autonomia individual com a necessidade de colaboração e partilha, essenciais numa empresa que valoriza o trabalho em equipa e a proximidade.

Adoptámos um modelo híbrido de trabalho, que combina dias presenciais –normalmente às segundas e quartas-feiras – com a possibilidade de trabalho remoto nos restantes dias. Este formato garante o contacto directo entre as equipas, reforça a coesão e a troca de conhecimento, sem comprometer o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Adicionalmente, oferecemos a cada colaborador a possibilidade de usufruir de 15 dias de trabalho remoto consecutivos por ano. Esta política tem sido muito valorizada internamente, pois proporciona liberdade e confiança, sem perder o alinhamento colectivo. A verdadeira flexibilidade não se limita ao local de trabalho, mas traduz-se na forma como gerimos a relação com as pessoas, com base na confiança, responsabilidade e empatia. É essa abordagem equilibrada que nos permite manter equipas motivadas, produtivas e comprometidas, independentemente de onde trabalham.

Quais os principais factores que levam um profissional de cibersegurança a escolher trabalhar na Adyta em vez de numa multinacional ou numa empresa estrangeira?

Acreditamos que o que realmente diferencia a nossa proposta de valor é o propósito e o impacto directo que cada colaborador tem no desenvolvimento dos nossos projectos. Trabalhamos em áreas altamente sensíveis e estratégicas, desenvolvendo soluções de comunicações seguras, desenvolvimento 100% português e serviços de cibersegurança. Esse sentido de missão motiva muitos profissionais a juntarem-se a nós, conscientes de que estão a contribuir para a soberania tecnológica e a protecção de informação crítica.

Outro factor importante é a proximidade e a visibilidade do contributo individual. Em estruturas mais pequenas, como a nossa, cada pessoa tem contacto directo com as decisões, participa activamente na evolução dos produtos e sente o impacto real do seu trabalho. Esta dinâmica cria um sentimento de pertença e realização que dificilmente se encontra em organizações de maior dimensão.

Além disso, oferecemos um ambiente de aprendizagem contínua, que permite aos colaboradores crescer técnica e profissionalmente. A gestão de proximidade, a flexibilidade e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional completam um conjunto de factores que tornam a Adyta uma escolha atractiva.

Como é feito o acompanhamento e a avaliação do desempenho, especialmente em funções técnicas e especializadas?

Na Adyta, o acompanhamento e a avaliação de desempenho baseiam-se num modelo de proximidade, confiança e comunicação contínua. Temos momentos formais de avaliação, com reuniões de acompanhamento regulares e um processo anual de avaliação de desempenho, mas, mais do que esses marcos formais, privilegiamos uma gestão diária com feedback constante e bidireccional. A evolução individual acontece quando as pessoas sabem exactamente o que se espera delas e têm espaço para expressar as suas ideias, dificuldades e ambições.

Nas funções mais técnicas, o desempenho é avaliado não apenas pelos resultados obtidos, mas também pela qualidade do código, capacidade de resolução de problemas, colaboração com os colegas e partilha de conhecimento. Estes factores são tão relevantes quanto a competência técnica, porque acreditamos que a excelência se constrói em equipa.

Além das competências técnicas, que soft skills mais valorizam?

Na nossa perspectiva, o sucesso de uma equipa técnica depende tanto das competências humanas quanto das competências técnicas. Por isso, damos grande importância a soft skills que reforcem a colaboração, o espírito crítico, a capacidade de adaptação, a curiosidade e o espírito de partilha.

Entre as mais valorizadas destacamos a capacidade de trabalhar em equipa e a disponibilidade para aprender continuamente. Reconhecemos que, em áreas muito técnicas, nem sempre os profissionais têm um perfil naturalmente comunicativo. No entanto, acreditamos que, quando inseridos num ambiente que consideram adequado e seguro, essas competências vão sendo desenvolvidas e aprimoradas. Temos vários casos de sucesso que comprovam essa evolução ao longo do tempo.

Valorizamos igualmente a autonomia e o sentido de responsabilidade. A curiosidade e a proactividade são também determinantes – procuramos pessoas que questionem, proponham melhorias e queiram contribuir activamente para o crescimento da empresa.

Em suma, procuramos profissionais que, além do conhecimento técnico, tragam energia, espírito colaborativo e vontade genuína de fazer parte de um projecto colectivo. São essas qualidades que fortalecem a cultura da Adyta e garantem a coesão e a sustentabilidade das nossas equipas.

Que tendências antevê para o futuro da atracção e retenção de talento?

Acredito que o futuro da atracção e retenção de talento passará inevitavelmente por organizações mais humanas, flexíveis e com propósito. As novas gerações procuram muito mais do que um emprego: procuram um projecto em que se revejam, onde sintam que o seu contributo tem impacto e onde possam crescer pessoal e profissionalmente.

A valorização do bem-estar, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e a autonomia serão factores cada vez mais determinantes. As empresas que conseguirem criar ambientes de confiança, reconhecimento e desenvolvimento contínuo terão uma vantagem clara na retenção de talento a longo prazo.

No caso da Adyta, esta visão já faz parte do nosso ADN. Apostamos numa gestão de proximidade, em relações baseadas na confiança e na valorização do contributo individual. Acredito que o verdadeiro sucesso virá das empresas que forem capazes de aliar tecnologia e humanidade, oferecendo desafios intelectuais estimulantes, mas também um contexto de realização e propósito.

O futuro do talento não será apenas sobre “onde se trabalha”, mas sobretudo sobre por que e com quem se trabalha — e é nesse caminho que queremos continuar a posicionar a Adyta.

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