por Inês Madeira, directora de Capital Humano do Grupo FHC
As empresas evoluíram em eficiência e tecnologia, mas muitas continuam a não priorizar um tema igualmente importante: reconhecer que o desempenho sustentável depende, inevitavelmente, do bem-estar emocional das pessoas.
Hoje, os colaboradores enfrentam níveis crescentes de exigência, ritmos acelerados e ambientes altamente competitivos, onde a pressão por optimização constante pode facilmente transformar-se em stress crónico, ansiedade ou burnout.
Estudos recentes demonstram que as culturas que valorizam quase exclusivamente as métricas e negligenciam o factor humano geram ambientes de trabalho tóxicos, nos quais o esgotamento se normaliza e a criatividade, o engagement e a produtividade diminuem de forma significativa. Nestes contextos, o foco exclusivo nos resultados acaba por comprometer a sustentabilidade do desempenho, levando ao aumento do stress e à perda de sentido no trabalho e no propósito, tão valorizado nas gerações mais novas que estão actualmente no mercado de trabalho e que, inevitavelmente, influenciam as gerações mais velhas.
Promover uma abordagem equilibrada, que valorize tanto os objectivos como o bem-estar, é fundamental para evitar estes efeitos negativos e construir organizações resilientes.
Mas há um outro lado igualmente evidenciado por experiências reais em contexto organizacional. Sabemos que a infelicidade no trabalho nasce muitas vezes da falta de reconhecimento, de transparência e de segurança psicológica, bem como do excesso de expectativas, de prazos apertados e de cargas excessivas. Estes factores não são inevitáveis: são moldáveis através da cultura, da liderança e da forma como o trabalho é organizado.
Criar um ambiente saudável sob pressão não significa eliminar metas ou suavizar a ambição corporativa. Significa alinhar crescimento com humanidade. E isso começa na liderança. Líderes emocionalmente conscientes fazem toda a diferença: sabem comunicar expectativas de forma clara, reconhecem esforços, ajustam prioridades quando necessário e promovem um clima onde pedir ajuda não é visto como fraqueza, mas como maturidade profissional. Uma cultura que oferece autonomia, apoio e espaços de diálogo reduz o impacto negativo da pressão e transforma metas exigentes em desafios motivadores, não em ameaças.
A adopção de uma gestão preventiva no contexto organizacional implica antecipar possíveis desafios relacionados com a saúde mental, actuando antes que se transformem em problemas crónicos ou crises que impactem negativamente o desempenho e o bem-estar dos colaboradores. Esta abordagem proactiva envolve a criação de mecanismos contínuos de acompanhamento, como a identificação precoce de sinais de stress ou esgotamento, a promoção de momentos regulares de escuta activa e a disponibilização de recursos de apoio emocional.
Colocar o tema da saúde mental nas conversas do dia-a-dia significa integrá-lo de forma natural e constante nas rotinas da empresa. Isso passa por estimular diálogos abertos entre líderes e equipas, normalizar o pedido de ajuda e criar espaços seguros onde as preocupações possam ser partilhadas sem receio de julgamento. Ao tornar este assunto parte integrante da cultura organizacional, as empresas não só previnem situações de risco, como também fortalecem o sentimento de pertença, confiança e compromisso entre todos os membros da equipa.
Conseguimos promover esta gestão preventiva através de formações, workshops ou acções de sensibilização sobre stress, mindfulness e gestão de tempo, garantindo e promovendo positivamente as pessoas e as equipas a identificar sinais de exaustão e a adoptar técnicas de recuperação mental.
Finalmente, é crucial rever políticas e processos. Quando a organização prioriza indicadores como absenteísmo, turnover ou engagement não apenas para medir desempenho, mas para compreender causas e agir sobre elas, transforma dados em estratégia. KPI (key performance indicators) bem estruturados permitem identificar padrões de risco e implementar acções que reduzem custos, aumentam a produtividade e fortalecem a cultura.
As organizações que compreenderem que a saúde mental é um activo e não um tema periférico estarão mais preparadas para competir num mercado onde talento, inovação e compromisso são determinantes. Num tempo marcado por incerteza, transformação tecnológica e aumento da pressão, cuidar das pessoas deixou de ser apenas “a coisa certa a fazer”: tornou-se uma condição essencial para gerar resultados consistentes e criar ambientes onde se trabalha com propósito, e não apenas por sobrevivência.
Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 183) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














