Imagine. Imagine que tem a possibilidade de ajustar/moldar a sua função. De (re)desenhar o seu posto de trabalho, à sua medida, por forma a que este se adapte mais a si, às suas características, competências e motivações. Esta é a essência do conceito de job crafting. E não, não é uma invenção recente.
Por Rita Oliveira Pelica, chief Energy officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs
O conceito de job crafting, cunhado por Wrzesniewski e Dutton (2001), consiste nas alterações físicas e cognitivas que os indivíduos podem fazer, por sua iniciativa pessoal, nas fronteiras das suas tarefas e/ou dos seus relacionamentos, no seu contexto de trabalho, atribuindo- -lhe valor e significado. Assim sendo, este pode ser um acto físico (task crafting – nas responsabilidades assumidas), psicológico (cognitive crafting – na forma de pensar) e/ou social (relationship crafting – nas interacções que se promovem). São possibilidades que os colaboradores percepcionam que podem ajudar no seu dia- -a-dia de trabalho, trabalhando a sua motivação, satisfação, engagement e, porventura, compromisso.
Como consequência imediata, o significado do trabalho (leia-se o propósito que os indivíduos atribuem ao seu trabalho, na sua vida) e a sua identidade no trabalho (a forma como os indivíduos se definem a eles próprios no trabalho) podem ser alterados, fazendo-se aqui o designado person- job fit. Na prática, isto significa que pessoas com a mesma função podem experienciar o trabalho de uma forma diferente, principalmente do ponto de vista do seu propósito (significância) e de propósito (deliberadamente). Há uma ressignificação do trabalho.
As vantagens para as organizações também parecem evidentes: pessoas motivadas, comprometidas e produtivas ficam mais tempo nas organizações. A visão purista de job design (nas quais é a organização que define todo o âmbito e conteúdo das funções) precisa de dar licença a um novo olhar, o do job crafting – marcado pela autonomia e responsabilização individual (accountability) dos colaboradores. Há regras, sistemas e métodos de trabalho pré-estabelecidos, mas há também espaço para que a mudança possa acontecer e que o questionamento e a experimentação sejam permitidos. Há quem lhe chame “agilidade organizacional”, uma espécie de “growth mindset empresarial”.
Organizações que entendam o job crafting de forma estratégica podem ver este conceito como uma ferramenta de fidelização de colaboradores. Há evidências de que os colaboradores que têm maiores níveis de suporte organizacional percebido tendem a ser recíprocos com a sua atitude positiva no trabalho e com comportamentos que beneficiem a organização (Zampetakis et al., 2009). É o princípio básico da reciprocidade em acção!
São atitudes praticadas na primeira pessoa. Job crafting não se impõe, job crafting pratica-se. É pessoal. E é exactamente por isso que se pode fazer a ponte entre intraempreendedorismo e job crafting. Como duas faces da mesma moeda. Como duas práticas de proactividade – esse outro conceito tão vital para as organizações actuais.
O estudo que Amy Wrzesniewski e Jane E. Dutton realizaram em 2001 – e que deu origem ao conceito de job crafting – foi realizado com uma equipa de limpeza de um hospital. Foram além do óbvio e encontraram algo que persistiu no tempo e que manteve a sua actualidade. Talvez até tenha ganho relevância, mais de 20 anos depois. Nesse estudo, observaram a existência de dois grupos de colaboradores: os que entendiam o trabalho apenas como um mero conjunto de tarefas mecânicas para obter um rendimento no final do mês, e os que entendiam o trabalho como uma actividade significativa e importante no processo de recuperação das pessoas – mesmo não sendo médicos, ou enfermeiros. O job crafting refere-se a este segundo grupo, consistindo na descoberta e na valorização pessoal do sentido do trabalho, não obstante a sua função.
«If opportunity doesn’t knock, build a door» (Milton Berle). Construindo portas, abrindo janelas, cimentando pontes nas organizações, há muito para fazer para se derrubarem silos e muros nas organizações. Sejamos construtores neste processo! Crafting a job.














