Isabel Heitor, ANA Aeroportos. O caminho das pessoas: Tendências de RH para um futuro inclusivo e sustentável

Os Recursos Humanos (RH) deixaram de poder olhar para o futuro como um plano linear. Hoje, o trabalho assemelha-se muito mais ao El Camino: um percurso longo, exigente e profundamente humano, feito passo a passo, pessoa a pessoa.

 

Por Isabel Heitor, directora de Recursos Humanos da ANA – Aeroportos de Portugal

 

Há momentos em que o mundo do trabalho muda de tal forma que já não basta optimizar processos, é preciso repensar princípios. A longevidade, as equipas multigeracionais, a crise da saúde mental e a diversidade invisível estão a transformar profundamente a Gestão de Pessoas.

As carreiras tornaram-se mais longas e menos previsíveis. Estudos internacionais apontam para um crescimento sustentado da população activa com mais de 55 anos, enquanto convivem no mesmo espaço organizacional quatro ou cinco gerações com expectativas, valores e ritmos distintos. Esta realidade desafia modelos tradicionais de progressão e liderança, mas representa também uma enorme oportunidade. Organizações que sabem integrar gerações, promover aprendizagem ao longo da vida e combater a discriminação etária conseguem maior resiliência, melhor transferência de conhecimento e desempenho mais sustentável.

A saúde mental, por sua vez, deixou de ser um tema “sensível” para se tornar um imperativo estratégico. Burnout, ansiedade e fadiga crónica têm impactos claros na produtividade e na retenção. Empresas que investem em bem-estar estruturado não o fazem por altruísmo: evidência consistente mostra que organizações com culturas saudáveis apresentam melhores resultados e menor risco de reputação. Ignorar este tema é hoje uma decisão de risco.

Mas talvez o maior desafio esteja no que não se vê. A diversidade invisível – nomeadamente a neurodivergência e as doenças crónicas – continua largamente ausente das decisões organizacionais. Estudos da Deloitte revelam que cerca de 85% das pessoas no espectro do autismo estão fora do mercado de trabalho, apesar de evidências claras do seu potencial para inovação e desempenho elevado. Por detrás de alguém que parece “desatento”, “lento” ou “difícil” pode existir um esforço diário enorme para funcionar num modelo desenhado para um perfil padrão. Julgar rapidamente não é apenas injusto, é ineficiente.

Aceitar a diferença não é apenas uma questão ética; é uma estratégia económica. Estudos da McKinsey mostram que empresas com maior diversidade têm 36% mais probabilidade de superar concorrentes em rentabilidade. A inclusão não é filantropia: é produtividade, inovação e sustentabilidade.

A diferença não está na diversidade em si, mas na capacidade de a integrar de forma consciente, com líderes preparados, processos ajustados e culturas psicologicamente seguras.

É aqui que a metáfora do El Camino ganha força. Cada pessoa caminha ao seu ritmo, com as suas limitações e motivações. O caminho não se faz de uma vez, faz-se caminhando. O papel dos Recursos Humanos não é impor um percurso único, mas garantir condições para que todos consigam avançar.

Num futuro incerto, talvez esta seja a principal responsabilidade dos RH: deixar de gerir apenas recursos, mas passar a facilitar jornadas e construir experiência humanas. Um passo de cada vez. Com coragem para ver o que não é visível. Com a ousadia de ver além das aparências e a certeza de que valorizar as pessoas é a base para um futuro sustentável e inovador.

 

Este artigo foi publicado na edição de Dezembro (nº.180) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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