A cultura de trabalho “996”, caracterizada por horários das 9h às 21h, seis dias por semana, é um fenómeno controverso que teve origem na indústria tecnológica da China, reporta o Beijing Times. Inicialmente elogiada como um motor de crescimento acelerado, enfrentou uma forte reacção negativa devido ao seu impacto no bem-estar dos colaboradores. Apesar de ter sido declarada ilegal na China, a exigente jornada de trabalho está a ganhar força nos polos tecnológicos ocidentais, particularmente entre as startups de IA.
O “996” surgiu durante o boom tecnológico da China na década de 2010, impulsionada por empresas como a Alibaba e a Tencent, que procuravam uma expansão vertiginosa. Os fundadores romantizavam frequentemente as longas jornadas como uma “grande bênção” e um símbolo de ambição, com os colaboradores a esperarem promoções rápidas e opções de acções em troca.
No entanto, esta intensa jornada levou à exaustão generalizada, à privação de sono e a crises de saúde mental. Incidentes trágicos, incluindo mortes de trabalhadores, trouxeram o assunto à atenção nacional. Em Agosto de 2021, o Supremo Tribunal Popular da China declarou oficialmente o modelo 996 ilegal, citando violações da legislação laboral e danos para o bem-estar dos trabalhadores.
Apesar das conotações negativas, o modelo “996” está a ressurgir nas empresas tecnológicas ocidentais, particularmente nos Estados Unidos. As startups, especialmente as que se encontram no competitivo campo da IA, estão a incorporar cada vez mais este modelo exigente na sua cultura. Algumas empresas declaram explicitamente semanas de trabalho de mais de 70 horas nas descrições de funções, e os candidatos a emprego são frequentemente avaliados quanto à sua disponibilidade para cumprir tais horários.
Os defensores argumentam que, num mercado acelerado, especialmente com os avanços da IA, o trabalho intenso é crucial para a velocidade e a vantagem competitiva. Alguns colaboradores mais jovens, inspirados por lendas da tecnologia, vêem esta dedicação como um caminho para construir empresas de impacto.
Embora o fascínio pelo sucesso rápido impulsione a adopção do modelo “996”, um número crescente de pesquisas aponta para os seus efeitos nefastos. Estudos indicam que a produtividade cai significativamente após semanas de trabalho de 50 horas, e as jornadas prolongadas podem levar a erros, burnout e diminuição da criatividade. Para os fundadores de startups, isto pode traduzir-se em má tomada de decisões e aumento do turnover. Os investidores também estão a reconhecer os riscos, com algumas empresas a implementar programas de bem-estar para apoiar os fundadores.
Além disso, exigir horas excessivas pode limitar a capacidade de uma startup atrair talento e escalar de forma eficaz. O argumento de que são necessárias jornadas mais longas para o sucesso é contestado pelos dados que mostram que os países com semanas de trabalho mais curtas geralmente conseguem uma maior produtividade por trabalhador.














