Joana Pita Negrão, Dils: A importância da voz inata na gestão de carreira. Confiar, é preciso

Para todos aqueles que me vão desafiando a falar sobre a sua carreira ou mudanças estruturais nas suas vidas – sejam amigos ou desconhecidos – o meu conselho é seguir sempre a intuição e a voz inata que existe dentro de cada um de nós. Com a ponderação, a coragem e o bom-senso na dose certa. Leia o artigo de Joana Pita Negrão, People & Culture director da Dils.

Human Resources
4 de Setembro 2026 | 10:10
Joana Pita Negrão, Dils: A importância da voz inata na gestão de carreira. Confiar, é preciso

 

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Por Joana Pita Negrão, People & Culture director da Dils

 

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Muitas vezes sou desafiada para uma conversa sobre “gestão de carreira”, como se eu soubesse mais do que a voz inata que cada um tem dentro de si. Dou por mim a ouvir (aliás, a escutar) e, (in)felizmente, sou testemunha de alguns casos de pessoas muito perdidas. Perdidas na evolução de carreira, nas funções que desenvolvem e que, actualmente, deixam de fazer sentido, na vontade intrínseca de arriscar, de mudar, de “fazer mais qualquer coisa”, de não ser apenas mais uma “formiga na organização”, mas sim alguém que faça, realmente, a diferença. Que tenha impacto. Que ajude, senão a si próprio, aos outros. Que contribua de forma significativa e visível, com resultados palpáveis.

A palavra que escrevi há pouco – (in)felizmente – foi de forma propositada. Na verdade, o que quero dizer é que felicito as pessoas que não se acomodam, que questionam, que querem mais, que exploram, que refilam porque não estão bem, que arriscam porque querem mudar. Por isso, não sei, realmente, se o caminho que atravessam é “feliz” ou “infelizmente”. Felicito-as porque é preciso a dose certa de coragem com um pouco de loucura.

Nos dias de hoje, quem se atreve a mudar quando está tão bem e tão confortável com o que construiu ao longo dos anos? Quem se atreve a mudar quando, racionalmente, até pode não fazer sentido, mas emocional e intuitivamente não há resposta mais clara e óbvia?

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“Para os caminhantes, tudo é caminho” (título de um dos livros de José Tolentino Mendonça de que eu mais gosto e com o qual não podia estar mais de acordo). A vida é para ser “caminhada” e vivida. Vivida realmente, no verdadeiro sentido da palavra (e do sentimento) e não para as redes sociais. Sentida com intensidade, com vivacidade, com vontade e em verdade. Afinal, só temos uma vida e, do que tenho visto, passa bastante rápido.

Então, porque não abaná-la um pouco de vez em quando? Não viver acomodado nem anestesiado, mas sim com paixão, com energia, com garra, com emoção. Mesmo que o caminho a seguir possa parecer difícil e obscuro. Mas, como dizia uma amiga minha, “se fosse fácil, não tinha piada”.

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Mudar de emprego, dar uma nova direcção à vida profissional (e pessoal, porque não?), assumir uma nova função dentro da mesma empresa ou mudar de sector, arriscar em adquirir e desenvolver novas competências, aprender coisas novas, conhecer novos mundos. Não somos nós, portugueses, os descobridores do mundo? Não estará essa característica enraizada em cada um de nós desde há séculos?

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Faz parte da natureza humana resistir à mudança. Mas é na mudança que mais crescemos e evoluímos. E a mudança faz parte da vida.

Atenção, que fique bem claro: não incentivo nem sou apologista de decisões de mudança impulsivas, sem qualquer preocupação com os demais, sem o mínimo de planeamento, sem a ponderação e o bom-senso na dose certa. Mas é isto: na dose certa! E não em demasia, como um bloqueador de acção. O medo é um mecanismo de defesa natural que se pode tornar disfuncional, paralisando a pessoa em vez de a proteger.

Sou também defensora de que, se algo não está bem dentro de uma organização e/ou equipa, cada um de nós deve assumir essa responsabilidade, porque faz parte desse mesmo ambiente. Não basta demonstrar descontentamento sem fazer nada para mudar. Assumir uma atitude proactiva e um papel activo nessa mudança, através de um envolvimento mais profundo e positivo, em vez de “contornar a dor e fugir”, é absolutamente essencial.

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É fácil falar. Muito mais difícil é agir. Porque agir exige confiança: confiar na escolha e no caminho que se segue, confiar no passo seguinte, confiar que seremos capazes de lidar com as consequências, sejam elas quais forem. E, muitas vezes, confiar significa dar um passo em frente sem ter uma luz para se guiar, uma bóia de salvação a que se agarrar, um farol para iluminar e orientar. Ninguém para amparar. Pode ser um passo de loucura ou de libertação. Pode ser um passo cheio de fé e de ânimo ou um passo a medo, a “meio-gás”, com dificuldade em assumir a decisão como um todo e em plenitude. Um passo transformador ou, na pior das hipóteses, mais sofredor. Embora o processo implique também sofrimento e um deserto difícil de viver e de ultrapassar.

A questão que se coloca (ouvi-a há uns dias, num encontro com oração guiada, e memorizei-a de imediato) é se queremos ser escravos de barriga cheia ou livres de mãos a abanar?

Muitas vezes onde há crise, há esperança. E nem todas as crises são um fim. Algumas são apenas o início de uma versão mais consciente de nós próprios. O que é realmente importante é ter uma lente que vê em tudo o que acontece uma oportunidade de crescimento. Acima de tudo, é preciso confiar.

 

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Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 188) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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