Joana Queiroz Ribeiro reflectiu sobre longevidade, bem-estar e o novo equilíbrio nas organizações, propondo caminhos “para lá do óbvio”

Human Resources
20 de Março 2026 | 11:30

O aumento da esperança de vida está a redefinir carreiras, modelos organizacionais e expectativas das pessoas. Este foi o tema central que Joana Queiroz Ribeiro levou à XXXI Conferência Human Resources.

 

A longevidade, o bem-estar e o papel das organizações numa sociedade em transformação estiveram no centro da intervenção de Joana Queiroz Ribeiro, directora de Pessoas e Organização da Fidelidade, na XXXI Conferência Human Resources. Sob o tema “Para além do óbvio”, a responsável propôs uma reflexão que vai além das práticas tradicionais de Gestão de Pessoas, defendendo uma abordagem mais ampla, sustentada numa visão integrada entre indivíduo, organização e sociedade.

Logo no início, Joana Queiroz Ribeiro deixou claro que o objectivo não era apresentar um conjunto de iniciativas concretas, mas partilhar uma forma de pensar. «Não trago uma lista de coisas práticas que estamos a fazer, mas sim como estamos a pensar», sublinhou, enquadrando a sua intervenção numa lógica de antecipação e questionamento do futuro. Recorrendo a uma metáfora simples, alertou para a tendência de procurar respostas nos lugares mais óbvios, defendendo a necessidade de explorar novos caminhos. «Não queremos procurar no óbvio. Queremos continuar à procura de novas perspectivas», afirmou, acrescentando que esse exercício implica experimentar, desafiar modelos instalados e abrir espaço a novas abordagens.

Um dos principais eixos da intervenção foi o impacto da longevidade. Segundo a directora de Pessoas e Organização, o aumento da esperança média de vida está a alterar profundamente a forma como as pessoas encaram as carreiras, as organizações e a própria vida em sociedade. «De todos os bebés que nascerem hoje, 50% vão viver até aos 100 anos.» Este prolongamento da vida traz novos desafios, nomeadamente ao nível da organização do percurso profissional e pessoal. «Vamos ter de reinventar carreiras» e preparar trajectos mais longos, diversificados e flexíveis, afirmou. Na prática, isso traduz-se numa ruptura com o modelo linear tradicional – estudar, trabalhar e reformar – para dar lugar a percursos mais dinâmicos, com várias fases e reinvenções ao longo da vida.

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A responsável destacou ainda a necessidade de preparar os colaboradores para essa realidade, incentivando o autoconhecimento e a construção activa do futuro. «Vamos ter de influenciar os nossos colaboradores a conhecerem-se melhor e a prepararem hoje aquilo que vão querer fazer depois da reforma», explicou. Neste contexto, as organizações terão também de se adaptar a uma maior diversidade geracional. «Vamos ter ainda mais gerações a trabalhar em simultâneo», alertou, antecipando mudanças significativas nas dinâmicas internas e na forma como se gere talento.

 

Pessoas no centro, sociedade no horizonte

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Perante este cenário, a oradora defendeu uma abordagem holística, que articule diferentes dimensões da vida das pessoas. «Colocamos as pessoas no centro, a sociedade no horizonte e a organização como resposta», sintetizou.

Esse posicionamento levou a Fidelidade a aprofundar o conhecimento sobre os seus colaboradores e a identificar princípios base para uma vida mais longa e saudável. Entre eles, destacou a importância de evitar riscos desnecessários para a saúde, cultivar relações, manter a mente activa, garantir uma alimentação equilibrada, praticar actividade física e dormir melhor. Apesar de serem princípios amplamente conhecidos, a responsável reconheceu que nem sempre são seguidos. «São regras simples que todos conhecemos, mas que muitas vezes não praticamos», admitiu.

Outro aspecto relevante foi a valorização crescente do voluntariado e das relações sociais como factores de bem-estar. «Os colaboradores valorizam muito o voluntariado como um factor determinante para o seu próprio bem-estar», referiu.

A intervenção abordou também as mudanças na sociedade e nas expectativas dos consumidores. Segundo Joana Queiroz Ribeiro, vive-se uma “era de cura”, em que as pessoas estão cada vez mais focadas no crescimento pessoal e no bem-estar, esperando respostas das organizações e das marcas.

Neste novo contexto, os modelos tradicionais de segmentação deixam de ser suficientes. «Já não é com segmentações demográficas que conseguimos compreender os consumidores», afirmou, defendendo uma abordagem centrada em valores, atitudes e convicções.

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Paralelamente, destacou um fenómeno crescente de isolamento, mesmo num mundo altamente digital. «Há cada vez mais pessoas que se sentem sozinhas», alertou, sublinhando a responsabilidade das organizações em promover relações com significado e criar valor real nas interacções humanas.

Na resposta a estes desafios, a Fidelidade estruturou a sua abordagem em diversas dimensões fundamentais, que servem de base à construção de uma organização saudável. Entre essas dimensões estão a saúde física, com foco na prevenção; a saúde mental, cada vez mais central nas políticas de gestão de pessoas; a saúde financeira, com aposta na literacia; e a saúde social, que inclui a relação com a comunidade e a criação de ambientes de trabalho seguros, tanto do ponto de vista físico como psicológico.

A estas junta-se a cultura organizacional, vista como elemento agregador e impulsionador. «Uma cultura saudável vai criar compromisso e confiança por parte das pessoas.»

Um dos pontos mais distintivos da intervenção foi a ênfase no papel das emoções. Para Joana Queiroz Ribeiro, o sucesso das organizações passa pela capacidade de gerar experiências emocionalmente relevantes. «A chave do sucesso prende-se com as emoções que conseguimos gerar nas pessoas», afirmou, defendendo que são essas emoções que determinam o nível de compromisso e de ligação à organização.

Num contexto que descreve como uma “era de reencantamento”, as pessoas procuram experiências que tragam sentido, surpresa, ligação e até alguma dose de admiração. «Ansiamos por sentir algo», resumiu, destacando a importância de desenhar experiências que respondam a essa expectativa. Mais do que um elemento acessório, as emoções surgem como um factor estratégico. «São estas emoções que vão criar o compromisso e o sentido de pertença.»

A encerrar, Joana Queiroz Ribeiro deixou um desafio que ultrapassa o contexto empresarial, alargando-se à sociedade como um todo. A construção de organizações saudáveis está intrinsecamente ligada à forma como se encara o envelhecimento e o bem-estar ao longo da vida. «Devemos estar centrados no envelhecimento saudável das nossas pessoas», afirmou, numa mensagem que sintetiza a necessidade de alinhar estratégia, cultura e práticas com uma visão de longo prazo.

Mais do que respostas fechadas, a intervenção deixou um convite à reflexão e à experimentação, reforçando que o futuro das organizações dependerá da capacidade de pensar para além do óbvio e de integrar, de forma consistente, as dimensões humanas, sociais e emocionais na sua actuação.

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