
João Barros, Properstar: «Quando a missão é clara, tudo ganha direcção e propósito»
João Barros entrou na Properstar em 2019, após enviar um e‑mail espontâneo, e construiu um percurso que o levou a liderar operações na Península Ibérica e na América Latina. Recentemente assumiu o cargo de VP Expansion da plataforma imobiliária e enfrenta o desafio de alinhar pessoas, culturas e mercados distintos numa estratégia global comum.
Por Tânia Reis
O profissional é agora responsável por coordenar o crescimento global, parcerias e vendas da plataforma imobiliária presente em mais de 100 países. Além de partilhar as aprendizagens mais marcantes do seu percurso, João Barros explica como se constrói uma liderança orientada para impacto e revela a sua visão sobre o futuro do sector imobiliário e o papel da tecnologia nas organizações.
Fale-nos sobre a sua ida para a Properstar em 2019… O que o motivou a enviar aquele e-mail espontâneo?
Em 2019, depois de ter trabalhado fora de Portugal e de ter contactado com diferentes culturas e formas de trabalhar, sabia que queria continuar numa empresa internacional, ambiciosa e aberta. Ao mesmo tempo, o meu sogro tinha começado como consultor imobiliário e precisava de ajuda para promover um imóvel a nível global. Foi assim que descobri a Properstar – na altura ListGlobally.
Percebi que a proposta de valor era exactamente o que ele precisava e notei que, em Portugal, a presença da empresa era ainda muito pequena face ao potencial do mercado. Vi uma oportunidade clara para crescer e decidi enviar um e‑mail espontâneo a oferecer‑me para ajudar a expandir a empresa no mercado português. Nunca imaginei que esse passo iria abrir a porta a uma aventura tão enriquecedora.
Era seu objectivo construir carreira no sector imobiliário?
Não necessariamente. O meu objectivo sempre foi trabalhar com e para pessoas, numa empresa global e num projecto desafiante, onde pudesse aprender todos os dias e criar impacto real. Descobri no imobiliário um sector dinâmico, cheio de desafios e oportunidades para inovar, onde cada conquista tem um significado concreto para quem compra ou vende. Curiosamente, não vim pelo sector; mas, passados mais de seis anos, não me vejo noutro. O imobiliário deu‑me exactamente aquilo que procurava: desafio, crescimento e sentido.
Como foi a sua primeira impressão da empresa quando entrou?
A minha primeira impressão foi de uma empresa internacional, com espírito de start-up e cheia de ambição. Quando conheci a solução por dentro, percebi que não era apenas tecnologia, mas sim um projecto com propósito e visão de longo prazo, capaz de ligar mercados locais a uma procura global. Além disso, identifiquei desafios e áreas por melhorar e isso foi um factor decisivo para mim, porque vi ali uma oportunidade real de contribuir, fazer a diferença e ajudar a construir algo maior. Essa combinação, aliada a uma equipa talentosa, jovem e comprometida, fez‑me sentir que estava no lugar certo desde o primeiro dia.
Que competências ou experiências anteriores considera que foram decisivas para ser contratado e crescer dentro da organização?
Não foi apenas a experiência técnica que fez a diferença, mas sim a forma de estar e as competências que se tornaram hábitos ao longo do tempo. Comecei cedo no mundo do trabalho e isso deu-me algo essencial: consistência diária e responsabilidade pelo resultado. Sempre fui movido por ambição e resiliência: manter a fasquia alta mesmo quando o caminho é difícil. A proactividade e uma irreverência saudável ajudaram-me a questionar o “status quo” e a procurar soluções melhores.
Tenho uma abordagem prática para resolver problemas: olhar para o objectivo, simplificar e executar com disciplina. A liderança e a gestão de equipas vieram com a experiência, sempre com foco em clareza, confiança e autonomia. Trabalhar em contextos internacionais e multiculturais ensinou-me a adaptar sem perder identidade.
Passou por funções distintas — Country manager, head of Iberia & LATAM e agora vp Expansion. Que aprendizagens valiosas retirou de cada etapa?
Cada etapa trouxe aprendizagens únicas. No início, como agente comercial, aprendi a importância de estar totalmente orientado para o cliente, manter a consistência e comunicar com clareza. Como Country manager, percebi que liderar um mercado exige muito mais do que vender, é essencial contratar e formar pessoas, definir uma estratégia clara e dar orientação para que todos saibam para onde vamos. Foi aí que entendi que confiança se constrói com simplicidade, rapidez e uma equipa alinhada.
Mais tarde, ao liderar Iberia e LATAM, descobri que o que realmente permite crescer são processos simples, métricas bem definidas e equipas com autonomia local.
Agora, como vice-presidente de Expansão, estou a aprender a orquestrar sistemas e pessoas: decidir onde investir, quais as parcerias certas e como criar mecanismos que gerem valor contínuo e relações duradouras. Em todo o processo a maior lição tem sido esta: mais importante do que “o que fazemos” é “porque fazemos”. Quando a missão é clara, tudo ganha direcção e propósito e é isso que inspira equipas globais a dar o melhor, não apenas pelo objectivo, mas pelo impacto que criamos juntos.
Qual foi o maior desafio ao liderar operações em mercados tão diferentes como Portugal, México ou República Dominicana?
Lidar com culturas muito diferentes, níveis de maturidade tecnológica desiguais e regras que mudam de país para país. Isto afecta tudo, desde a forma como se comunica até à velocidade de execução. Outro desafio crítico é garantir consistência sem sufocar a autonomia local: como manter uma identidade global quando cada mercado tem expectativas próprias?
Para avançar, tive de assumir uma postura flexível mas firme: compreender as especificidades de cada mercado, ouvir as equipas locais e adaptar sem perder os princípios essenciais. É um equilíbrio difícil porque o que funciona num país pode falhar noutro, mas é também uma experiência enriquecedora. Aprender com tantas culturas e visões obrigou-me a sair da zona de conforto e a evoluir como líder.
Que estratégias utilizou para consolidar a operação comercial em Portugal e depois replicar o sucesso noutros países?
Em Portugal, a estratégia passou por três pilares: aumentar a presença e diversidade de anúncios para gerar tracção, estabelecer parcerias estratégicas para ganhar velocidade e qualidade, e garantir uma experiência consistente para o comprador, com profissionais responsivos. Trouxemos milhares de anúncios e agências para a plataforma, assegurando visibilidade global, e organizámos equipas dedicadas com processos claros e responsabilidades bem definidas para manter a qualidade.
Ao replicar noutros países, o desafio é adaptar sem perder identidade. Cada mercado tem a sua lógica, por isso, mantemos princípios não negociáveis: profissionalismo, transparência e flexibilidade. dando autonomia local para ajustar a mensagem, canais e abordagem comercial. Esta combinação permite escalar com consistência e, ao mesmo tempo, respeitar as especificidades culturais e operacionais de cada mercado.
Agora assume a responsabilidade por equipas globais de crescimento, parcerias e vendas. Como se prepara para gerir culturas, fusos horários e expectativas tão diversas?
Gerir equipas globais exige ritmo e clareza. Começo por definir objectivos comuns e prioridades visíveis para todos, mas com rotinas simples e frequentes que mantêm a coordenação sem burocracia. Não se trata de controlar, mas de criar um compasso que permita decidir rápido e agir com confiança. Depois, há o lado humano: escutar, confiar e dar espaço a quem está mais perto do mercado. Recruto pessoas com ética, sentido de responsabilidade e curiosidade. Estas são as qualidades que fazem a diferença quando trabalhamos em culturas e fusos tão diversos.
E, acima de tudo, mantenho o “porquê” sempre presente. Quando cada pessoa percebe o impacto real do que faz, a motivação deixa de ser um esforço e passa a ser uma consequência natural. É isso que transforma equipas dispersas em equipas alinhadas.
Que competências considera mais importantes num profissional a operar no sector imobiliário?
Ética e responsabilidade, porque a confiança é o activo mais valioso neste sector e sem ela nada se sustenta. Depois, é essencial ter orientação para o cliente: responder rápido, com qualidade e empatia. A disciplina e a consistência também fazem a diferença: aplicar rotinas claras todos os dias é o que garante previsibilidade e crescimento.
Num mercado cada vez mais digital, a literacia tecnológica e a capacidade de interpretar dados são fundamentais para tomar decisões informadas e evoluir com base em evidência. A isto junta-se a comunicação clara: explicar valor sem jargão, de forma simples e próxima. E, por fim, a resiliência e a capacidade de execução: transformar planos em resultados, mesmo quando o contexto muda.
Quem reúne estes pilares não só constrói uma carreira sólida, como tem tudo para se tornar uma referência no sector.
Que papel têm os dados e a tecnologia, nomeadamente a Inteligência Artificial, no negócio e na forma de trabalhar na Properstar?
Os dados e a tecnologia – incluindo a Inteligência Artificial – têm um papel central no nosso negócio: aproximar quem procura de quem oferece.
Para quem compra, a IA ajuda a encontrar mais depressa o imóvel certo, com informação clara e segura. Para quem vende, os dados e a IA aumentam a visibilidade e a probabilidade de ser encontrado pelo comprador certo, no momento certo, com menos fricção.
Progressivamente, estamos a reforçar esta ponte com automação, tradução inteligente e sinalização baseada em dados, menos ruído, mais correspondência, mais transparência. O objectivo é simples: usar tecnologia para criar valor real para as pessoas, tornando cada interacção mais eficiente, personalizada e confiável.
O sector imobiliário atravessa um momento delicado em Portugal. Como vê a evolução do mercado nos próximos anos?
O sector imobiliário atravessa um momento delicado em Portugal, marcado pela falta de oferta, pressão no arrendamento e dificuldades no acesso à habitação. Trata-se de um problema estrutural que exige visão de longo prazo e soluções consistentes.
A evolução do mercado passará por maior transparência e profissionalização, com dados fiáveis, processos claros e um papel crescente da tecnologia e da inteligência artificial na redução de ineficiências e na aproximação entre oferta e procura.
Profissionais e plataformas terão de elevar padrões de qualidade e rigor, enquanto a política pública deve assumir um papel estruturante, promovendo a construção, a reabilitação urbana, a estabilidade regulatória e a cooperação entre sectores.
Apesar dos factores imprevisíveis, acredito que, com este alinhamento, é possível construir um mercado mais equilibrado e centrado na confiança, reconhecendo que a habitação é não só um activo económico, mas um pilar social.
O sector tem passado por grandes transformações. Que tendências considera mais relevantes para os próximos anos?
O sector imobiliário vai continuar a mudar de forma acelerada, e algumas tendências serão decisivas. A integração tecnológica, com Inteligência Artificial, vai permitir automatização inteligente e experiências cada vez mais personalizadas e sem fricção. Com a mobilidade profissional e o teletrabalho, a procura – mais do que nunca – deixa de ter fronteiras: quem compra ou arrenda passa a considerar vários países ao mesmo tempo, tornando a visibilidade global essencial.
Outro ponto crítico será a confiança digital: plataformas seguras, processos transparentes e comunicação clara vão ser fundamentais para criar relações sólidas num mercado cada vez mais online. E, claro, dados inteligentes: transformar informação em decisões mais estratégicas, sempre com respeito pela privacidade e foco na experiência do cliente.
Quem conseguir alinhar tecnologia, ética e experiência do consumidor vai liderar a próxima fase do imobiliário. Não se trata apenas de acompanhar tendências, mas de transformar estas mudanças em valor real para pessoas.