Libertar o talento silencioso: como combater a síndrome do impostor nas empresas

Human Resources
13 de Maio 2025 | 11:00

Por Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, psicoterapeuta, CEO e directora clínica do Coletivo Transformar

 

Estava numa sala cheia de líderes quando uma gestora, com mais de 15 anos de experiência, me confessou baixinho: “Estou sempre à espera que alguém descubra que não sou assim tão competente.”

Ela não estava sozinha. A verdade é que, mesmo com provas dadas, muitas mulheres vivem com a sensação de que são uma fraude prestes a ser descoberta.

Esta sensação tem um nome: síndrome do impostor. E, dentro das organizações, é mais comum — e mais dispendiosa — do que imaginamos.

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O que é a Síndrome do Impostor — e por que afecta mais mulheres no contexto laboral?

A síndrome do impostor não é uma patologia, mas sim um padrão psicológico. Quem a vive sente-se constantemente inadequado, duvida do seu valor e interpreta o próprio sucesso como fruto do acaso. Mesmo quando o desempenho é positivo, a pessoa não o reconhece como legítimo.

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Apesar de poder afectar qualquer pessoa, as mulheres são particularmente vulneráveis a este fenómeno no contexto organizacional, fruto de vários factores interligados: socialização de género, microagressões subtis, exigência de perfeição, escassez de modelos femininos em cargos de topo e falta de validação em ambientes competitivos.

É como correr uma maratona com uma mochila invisível às costas: os outros vêem a performance, mas não sentem o peso emocional que se carrega por dentro.

 

O custo oculto da síndrome do impostor nas empresas

A síndrome do impostor não afecta apenas quem a sente — afecta a performance global das organizações. Impacta a produtividade, a inovação, o engagement e até a retenção de talento.

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As colaboradoras que duvidam de si mesmas:

  • hesitam em assumir desafios,
  • não se candidatam a promoções mesmo quando estão aptas,
  • procrastinam mais e têm mais dificuldade em delegar,
  • tendência para uma gestão micro e não estratégica,
  • evitam partilhar ideias por medo de parecerem “menos competentes”.

Segundo a KPMG, 75% das mulheres em cargos de liderança afirmam já ter experienciado a síndrome do impostor.

Um estudo da Journal of Behavioral Science estima que 70% das pessoas vão experienciá-la em algum momento da vida profissional. E quando o talento se encolhe, a inovação não floresce.

 

O que podem as empresas fazer? Três pilares de acção com impacto mensurável

Diagnosticar o que não se vê

Nem sempre a síndrome do impostor se revela de forma explícita.

É preciso saber escutar, observar e mapear:

  • Como se distribuem as promoções entre géneros?
  • Quantas mulheres recusam oportunidades por sentirem que “não estão preparadas”?
  • Que indicadores emocionais e comportamentais podem estar a sinalizar sobrecarga e autocrítica silenciosa?

A escuta activa e a análise de padrões internos são o primeiro passo para qualquer plano de acção consciente. Tal é possível com entrevistas, questionários e avaliações de riscos psicossociais, que quando asseguradas por psicólogos permitem aferir dados com mais qualidade e especificidade.

 

Capacitar e acompanhar com estratégia e ciência

Mais do que workshops isolados, é necessário criar programas integrados de desenvolvimento emocional e profissional, com foco na confiança, liderança empática e inteligência emocional.

 

Cultivar uma cultura onde ser autêntico é um trunfo — não um risco

  • Formar líderes com competências emocionais e comunicacionais.
  • Criar espaços seguros onde a vulnerabilidade seja valorizada.
  • Promover modelos femininos de referência com narrativas reais — não perfeitas.

Uma colaboradora inspirada não é aquela que imita, mas a que sente que pode ser ela mesma, com as suas dúvidas, força e história.

A síndrome do impostor alimenta-se do silêncio e da comparação. As culturas organizacionais mais saudáveis são as que quebram esse silêncio e fomentam relações de apoio e pertença.

 

Conclusão: o que está em jogo?

As mulheres não precisam de se tornar outras pessoas para merecerem o lugar que ocupam. Precisam de ambientes que reconheçam o seu valor mesmo quando a dúvida sussurra. As empresas que sabem cuidar disso tornam-se não só mais humanas, mas também mais inovadoras, sustentáveis e resilientes.

Para quem lidera pessoas, o verdadeiro sucesso não se mede só em números. Mede-se nas histórias que ajudamos a reescrever — e no impacto duradouro que deixamos em cada uma delas.

 

Sobre a autora

Com 17 anos de experiência, tem-se dedicado à promoção do bem-estar emocional no contexto profissional e ao desenho de programas personalizados para empresas, onde une ciência, empatia e impacto mensurável. Eleita Happy Boss em 2022 pelo estudo Happiness Works, que afere a felicidade nas organizações, tem liderado sem perder a ferramenta mais importante de todas: o coração. Com múltiplas participações em media, palestrante, autora e consultora, é reconhecida pela sua comunicação empática e transformadora.

Saiba mais em: www.coletivotransformar.pt

filipajardimdasilva@transformar.pt

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