Por Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, psicoterapeuta, CEO e directora clínica do Coletivo Transformar
Estava numa sala cheia de líderes quando uma gestora, com mais de 15 anos de experiência, me confessou baixinho: “Estou sempre à espera que alguém descubra que não sou assim tão competente.”
Ela não estava sozinha. A verdade é que, mesmo com provas dadas, muitas mulheres vivem com a sensação de que são uma fraude prestes a ser descoberta.
Esta sensação tem um nome: síndrome do impostor. E, dentro das organizações, é mais comum — e mais dispendiosa — do que imaginamos.
O que é a Síndrome do Impostor — e por que afecta mais mulheres no contexto laboral?
A síndrome do impostor não é uma patologia, mas sim um padrão psicológico. Quem a vive sente-se constantemente inadequado, duvida do seu valor e interpreta o próprio sucesso como fruto do acaso. Mesmo quando o desempenho é positivo, a pessoa não o reconhece como legítimo.
Apesar de poder afectar qualquer pessoa, as mulheres são particularmente vulneráveis a este fenómeno no contexto organizacional, fruto de vários factores interligados: socialização de género, microagressões subtis, exigência de perfeição, escassez de modelos femininos em cargos de topo e falta de validação em ambientes competitivos.
É como correr uma maratona com uma mochila invisível às costas: os outros vêem a performance, mas não sentem o peso emocional que se carrega por dentro.
O custo oculto da síndrome do impostor nas empresas
A síndrome do impostor não afecta apenas quem a sente — afecta a performance global das organizações. Impacta a produtividade, a inovação, o engagement e até a retenção de talento.
As colaboradoras que duvidam de si mesmas:
- hesitam em assumir desafios,
- não se candidatam a promoções mesmo quando estão aptas,
- procrastinam mais e têm mais dificuldade em delegar,
- tendência para uma gestão micro e não estratégica,
- evitam partilhar ideias por medo de parecerem “menos competentes”.
Segundo a KPMG, 75% das mulheres em cargos de liderança afirmam já ter experienciado a síndrome do impostor.
Um estudo da Journal of Behavioral Science estima que 70% das pessoas vão experienciá-la em algum momento da vida profissional. E quando o talento se encolhe, a inovação não floresce.
O que podem as empresas fazer? Três pilares de acção com impacto mensurável
Diagnosticar o que não se vê
Nem sempre a síndrome do impostor se revela de forma explícita.
É preciso saber escutar, observar e mapear:
- Como se distribuem as promoções entre géneros?
- Quantas mulheres recusam oportunidades por sentirem que “não estão preparadas”?
- Que indicadores emocionais e comportamentais podem estar a sinalizar sobrecarga e autocrítica silenciosa?
A escuta activa e a análise de padrões internos são o primeiro passo para qualquer plano de acção consciente. Tal é possível com entrevistas, questionários e avaliações de riscos psicossociais, que quando asseguradas por psicólogos permitem aferir dados com mais qualidade e especificidade.
Capacitar e acompanhar com estratégia e ciência
Mais do que workshops isolados, é necessário criar programas integrados de desenvolvimento emocional e profissional, com foco na confiança, liderança empática e inteligência emocional.
Cultivar uma cultura onde ser autêntico é um trunfo — não um risco
- Formar líderes com competências emocionais e comunicacionais.
- Criar espaços seguros onde a vulnerabilidade seja valorizada.
- Promover modelos femininos de referência com narrativas reais — não perfeitas.
Uma colaboradora inspirada não é aquela que imita, mas a que sente que pode ser ela mesma, com as suas dúvidas, força e história.
A síndrome do impostor alimenta-se do silêncio e da comparação. As culturas organizacionais mais saudáveis são as que quebram esse silêncio e fomentam relações de apoio e pertença.
Conclusão: o que está em jogo?
As mulheres não precisam de se tornar outras pessoas para merecerem o lugar que ocupam. Precisam de ambientes que reconheçam o seu valor mesmo quando a dúvida sussurra. As empresas que sabem cuidar disso tornam-se não só mais humanas, mas também mais inovadoras, sustentáveis e resilientes.
Para quem lidera pessoas, o verdadeiro sucesso não se mede só em números. Mede-se nas histórias que ajudamos a reescrever — e no impacto duradouro que deixamos em cada uma delas.
Sobre a autora
Com 17 anos de experiência, tem-se dedicado à promoção do bem-estar emocional no contexto profissional e ao desenho de programas personalizados para empresas, onde une ciência, empatia e impacto mensurável. Eleita Happy Boss em 2022 pelo estudo Happiness Works, que afere a felicidade nas organizações, tem liderado sem perder a ferramenta mais importante de todas: o coração. Com múltiplas participações em media, palestrante, autora e consultora, é reconhecida pela sua comunicação empática e transformadora.
Saiba mais em: www.coletivotransformar.pt
filipajardimdasilva@transformar.pt













