Lições da Sétima Arte para a Gestão de Pessoas: A vida não se repete como nos filmes

De Noah Baumbach, com George Clooney e Adam Sandler nos principais papéis, “Jay Kelly” retrata um mundo em que tudo acontece depressa para obter mais um ganho imediato, perdendo-se, então, o que de facto importa. Leia o artigo de Paulo Miguel Martins, professor da AESE Business School e investigador nas áreas de Cinema, História, Comunicação e Mass Media.

Human Resources
13 de Abril 2026 | 11:50
Lições da Sétima Arte para a Gestão de Pessoas: A vida não se repete como nos filmes

 

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Por Paulo Miguel Martins, professor da AESE Business School e investigador nas áreas de Cinema, História, Comunicação e Mass Media.

 

A Netflix assume-se, cada vez mais, como uma produtora de cinema, e outras plataformas, como a AppleTV+, também lutam por deixar de ser apenas canais de distribuição para realizarem os seus próprios produtos audiovisuais. Assim se compreende que, na corrida aos Óscares deste ano, vários filmes sejam destas recentes empresas, concorrendo com as produtoras clássicas de Hollywood.

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“Jay Kelly” retrata um pouco esta mudança, a dos ganhos imediatos em detrimento do significado. Um actor famoso e com muitos filmes de sucesso encontra-se no final de carreira. Vai receber um prémio de consagração, em jeito de missão cumprida. No entanto, não se sente realizado, nem feliz.

Reflecte e olha para trás, fazendo um balanço de vida. Colocara sempre, em primeiro lugar, o seu êxito profissional. A vida pessoal e familiar ficara sempre para segundo plano. Agora, dá-se conta que está só, sem laços relevantes com ninguém. O seu pai ainda é vivo, mas mantém apenas um contacto distante. Resta-lhe uma filha. Pouco a conhece, pois não a acompanhara no seu crescimento e agora, quase a entrar na universidade, é que tenta reconquistar o seu afecto. Mas ela não “lhe liga”.

Só permanecem ao seu lado o seu agente e uma colaboradora de longa data. Ele explorara ao máximo “tirar partido” de todas as oportunidades para triunfar, mas agora quer parar. O seu agente ainda quer explorar o seu valor, num último filme, mas ele está farto e recusa. Quer ir atrás da filha, que partira numa viagem para a Europa, precisamente onde ele ia receber o prémio de carreira, e lança-se atrás dela. O agente e outros colaboradores seguem-no, pois precisam que ele faça aquela última encomenda. Se, por um lado, ele vive à custa deles e dos trabalhos que eles lhe arranjam, também é verdade que os colaboradores vivem à sua custa, pois são os papéis que tão bem desempenha que lhes garante os ordenados.

As peripécias ao longo da viagem pela Europa vão trazer tensões e questões que tinham ficado mal resolvidas no passado. Os colaboradores sentem-se usados. Ele quer recuperar o tempo perdido com a filha, mas ela não o perdoa. O seu próprio pai também não partilhará com ele o seu momento de glória. Constata que o seu papel acaba ali e o pior é que não dá para repetir como nos filmes, para se voltar atrás e poder fazer melhor.

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Há duas grandes lições: a mais imediata é a evidência de como a falta de conciliação entre a vida familiar e profissional acaba por destruir uma pessoa, deixando-a sem um rumo que a faça chegar a um final, onde se sinta e se veja realizada. Por vezes, só fica a solidão vazia, sem sentido, com iniciativas que não se projectam para lá do êxito momentâneo e que depressa é esquecido.

A outra lição é mais subtil, mas muito repetida: o facto de muitos líderes e dirigentes não valorizarem os seus colaboradores. Reconhecem-lhes a competência, cumprem o que foi acordado entre todos, mas, no fundo, servem-se deles para os seus interesses, não deixando que desenvolvam os seus talentos e capacidades. Até certo ponto aguentam, mas nalguma ocasião acabam por quebrar. Só valorizando e contando com os outros é que cada um se verá realizado numa vida vivida com sentido.

 

Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 183) da Human Resources.

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Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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