Líder camaleão: o que se pede a um treinador desportivo

Daniel Goleman, psicólogo consagrado da Universidade de Harvard, no seu livro “Leadership that gets results”, definiu a existência de seis estilos de liderança – autoritário, visionário, afiliativo, democrático, pacesetting e coaching – cada um deles com as suas especificidades. Qual destes estilos o mais eficaz para o treinador? É o que veremos ao longo do artigo, mas antes importa identificar as principais caraterísticas de cada um dos estilos.

Por Tiago Gomes Santos, performance consultant

 

 

Autoritário

Este estilo conseguimos associá-lo rapidamente ao que vemos praticado por militares em que a palavra do líder se transforma automaticamente numa ordem, exigindo um rápido cumprimento sem a possibilidade de ser colocado em causa. A frase que mais vezes escutamos é “faz aquilo que digo!”, em que o liderado apenas tem a indicação clara do que deve fazer.

Recordo-me de um treinador que tive enquanto jogador de voleibol que, no início de época, contra todas as expectativas, colocou um atleta com potencial dúbio a jogar relegando um mais experiente para o banco justificando: “quem manda sou eu e eu é que sei o que é melhor para a equipa.” A verdade é que esse atleta aumentou o seu potencial ao longo da época e hoje é um jogador consagrado. O mesmo treinador, num dos jogos mais importantes de final de campeonato, disse-me que estava proibido de fazer uma jogada específica. Num momento intenso de jogo, inconscientemente executei a jogada proibida, e mesmo tendo garantido o ponto, fui imediatamente substituído e não voltei a jogar até ao final de época.

 

Visionário

Neste estilo, o líder imana energia e entusiasmo explicando às pessoas de que forma o trabalho delas contribui para os resultados da equipa, não apenas a curto prazo, mas principalmente a uma visão mais longínqua. Estes são aqueles managers que dão o primeiro passo, repetindo consecutivamente a ideia: “venham comigo”.

Um dos treinadores que mais me influenciou na minha formação enquanto atleta tinha uma enorme capacidade de antecipar o futuro. Em vários momentos destacava que o desporto daqui a dez anos estaria diferente e por isso focava a atenção em detalhes que nos preparassem para essas mudanças. Para além disso repetia que, dentro de cinco anos, metade do plantel da equipa sénior seria composto de atletas da formação, garantindo assim o empenho e compromisso total dos atletas em formação. Anos mais tarde, já enquanto atleta sénior, tive um líder com este estilo predominante. O objectivo do treinador era ser campeão dentro de três anos, mas, tanto a direcção como os adeptos queriam ser campeões nesse mesmo ano. Nem fomos campeões esse ano, nem nos seguintes e a corda partiu pelo lado do treinador que foi despedido no final de época.

 

Afiliativo

“As pessoas estão sempre em primeiro lugar” é o mote deste estilo de liderança. O factor mais importante é a harmonia entre os membros da equipa e por isso o foco está nas emoções que as decisões do líder provocam.

Enquanto atleta sénior adorei a pré-época de uma determinada temporada desportiva! Todos sabemos que ninguém gosta desta parte específica de preparação. As altas intensidades físicas, o cansaço extremo e a existência de um grupo de trabalho novo faz com que se deseje  passar rapidamente esta fase. Contudo, nesse ano, o treinador garantiu-nos um excelente hotel para estágio, com acesso a um bom serviço de piscina e massagens. Para além disso, sempre que tínhamos uma cara de maior cansaço, a intensidade do treino abrandava e íamos sendo agraciados com uma folga extra. Adoravamos o mister e “ele também nos adorava” no nosso pensamento. Resultado: excelente relação com o treinador por ser “um dos nossos”, mas no final da época ficamos bem longe do potencial que tínhamos.

 

Democrático

No estilo democrático, as opiniões de todos os elementos da equipa são valorizadas já que é pretendido um consenso coletivo. Perante a sua equipa, escutamos, neste estilo, o líder a perguntar “o que pensam sobre este assunto?”, promovendo assim a participação de todos.

No final da minha carreira desportiva enquanto atleta, era liderado por um jovem treinador que, sabendo da elevada experiência acumulada no plantel, sempre que tinha observações do adversário ou pretendia implementar novas ideias, reunia os elementos mais experientes da equipa e perguntava qual a opinião sobre o assunto. Eu, como os restantes colegas, reconhecíamos humildade ao nosso líder, mas principalmente sentíamos que as nossa experiência era valorizada. Anos antes, outro treinador na mesma situação, num plantel com “demasiados superstars”, tinha por hábito fazer em todos os treinos reunião de equipa e em todas perguntava o que achávamos sobre determinado assunto. Todos os atletas consideravam que a sua opinião tinha de ser transmitida e o líder não queria ferir suscetibilidades tendo que escutar todos. Consequentemente, apenas metade do tempo, era passado em treino efetivo.

 

Pacesetting

O estilo pacesetting é aquele que coloca elevados objectivos e metas, mostrando a todos como se faz, tendo por base a ideia “acompanha o meu ritmo”. O mais importante é chegar ao objectivo e quanto mais depressa, melhor!

Ter um treinador-jogador é das situações mais peculiares que podemos experienciar num clube. Em situações semelhantes, podemos obter resultados distintos.

Numa determinada época, o responsável por escolher a equipa, era claramente o melhor jogador. Mais importante que isso, era o mais profissional de todos nós. Treinava sempre ao máximo e no início de época acreditava que se treinassemos ao seu ritmo, chegaríamos longe. Conseguimos uma classificação histórica.

Num outro contexto, o treinador também estava inscrito como jogador e mesmo sendo aquele que mais treinava e melhor jogava, em campo vivia a experiência como atleta e não como treinador. Em momentos de grande stress era o primeiro a ficar com a visão turva e apenas queria que a bola lhe fosse passada, para ser dele a decisão. Se nas vezes em que foi eficaz festejamos, nas vezes em que não concretizou responsabilizamo-lo.

 

Coaching

Para Goleman, o coaching permite que o liderado tenha uma capacidade maior de análise e de autocrítica, assim como permite que exista uma maior flexibilidade no cumprimento dos objetivos. Neste estilo, o líder expressa em vários momentos “tenta fazer assim”. O seu objectivo é o de desenvolver pessoas a longo prazo, potenciando as caraterísticas individuais de cada um.

Na temporada que mais desenvolvi as minhas competências tinha um líder que colocava o seu foco total nos meus gestos técnicos e a cada movimento dava o seu input positivo. Para além disso, colocava-me a jogar em momentos importantes, permitindo que aprendesse com os erros que ia cometendo. Anos mais tarde pergunto: e para os restantes elementos da equipa? Saberiam eles que o objectivo não era a curto prazo, mas sim mais longínquo? A verdade é que vários dos erros praticados, fizeram com que perdêssemos jogos essenciais não cumprindo os objectivos a curto prazo que pudessem existir.

 

Qual o melhor estilo de liderança para um treinador desportivo

A resposta sobre qual o melhor estilo de liderança para um treinador desportivo dependerá obviamente do contexto que a equipa atravessa (ver mais sobre este tópico no artigo anteriormente publicado). Cada estilo poderá ter mais ou menos eficácia, e é o contexto que define o tipo de liderança que a exercer.

  • O líder autoritário é excelente para momentos de crise, quando ele próprio, ou a direcção do clube, não querem que as informações se percam na linha de comando.
  • Já o estilo visionário é óptimo quando existe uma necessidade de mudança e reestruturação a longo prazo, em que a equipa necessita de um novo foco e claras direções.
  • O estilo afiliativo é fantástico para motivar pessoas em momentos de grande stress ou para cicatrizar problemas internos na equipa.
  • Um líder democrático é o ideal para cimentar relações longas já que se baseia na confiança, respeito e transparência total.
  • Por sua vez, o estilo pacesetting é o ideal quando queremos ter rápidos resultados numa equipa altamente motivada.
  • Já o coaching é excelente para desenvolver equipas para o futuro em que existe tempo para potenciar as individualidades.

Tendencialmente cada líder tem um ou dois destes estilos como forma de actuação, mas o que distingue os melhores é serem capazes de usar todos os estilos.

Alguns treinadores de sucesso, com um estilo autoritário, não conseguem estar num clube mais de 3 anos; outros líderes, com preferência pelo estilo democrático, não conseguem impor as suas ideias num determinado clube; ou mesmo, treinadores de formação, com grande capacidade para desenvolver jogadores (por terem o coaching como estilo de liderança) quando assumem uma equipa sénior, não conseguem obter o sucesso desejado.

Nos dias de hoje, um treinador desportivo de sucesso é aquele que consegue combinar os melhores estilos de liderança nos momentos certos.

 

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