Por Marília Simões, CEO da ML Analytics; mentee PWN Lisbon e coordenadora dos “almoços aleatórios”.
Março é, simbolicamente, o “Mês da Mulher”. É o momento em que se fala mais sobre liderança feminina, igualdade e oportunidades. Mas, para mim, essa reflexão nunca coube num único mês. Abril continua a ser. E todos os outros também.
Talvez porque o meu percurso sempre foi feito “no mundo”, e não apenas num contexto local ou linear. Vivi sete anos nos Países Baixos, onde tive a oportunidade de crescer em ambientes altamente internacionais e exigentes, primeiro na TomTom e depois na TNT/FedEx. Foram anos muito intensos, nos quais aprendi a liderar equipas, a tomar decisões em contextos de grande escala, gerindo negócios globais fortemente baseados em dados e, sobretudo, a trabalhar com pessoas de culturas, perspectivas e formas de pensar muito diferentes.
Foi também nessa altura, nos Países Baixos, que tive o meu primeiro contacto com a PWN (Professional Women’s Network, uma organização internacional sem fins lucrativos que promove a liderança equilibrada em termos de género), onde comecei como mentora na PWN Netherlands.
Na altura, via o mentoring como uma forma de contribuir, de partilhar experiência com quem estava a começar ou a dar novos passos. O que não sabia ainda era o quanto essa experiência me iria transformar mais tarde.
Quando passamos de mentoras a mentees
Anos depois, regressei a Portugal e, juntamente com o meu marido, Luís F. Simões, especialista em Inteligência Artificial (IA) no sector espacial, co-fundei, após o seu regresso da ESA – Agência Espacial Europeia, a ML Analytics, uma boutique de IA. Foi um momento de enorme entusiasmo, mas também de grande exigência e, frequentemente, de incerteza.
Foi aí que percebi algo essencial: há fases da vida em que precisamos mesmo de ser mentees. Foi então que me inscrevi no programa de mentoring da PWN Lisbon. Tive a sorte de ter um mentor absolutamente marcante. É alguém que, ainda hoje, é uma referência para mim, um exemplo de liderança empática, que guia as suas equipas com motivação, escuta activa e capacidade de desenvolver pessoas.
Não era apenas sobre decisões de negócio. Era sobre como liderar com consciência. Como criar confiança. Como fazer crescer outros.
Passados vários anos, continuo a aprender com ele. E talvez seja isso que define verdadeiramente o mentoring: não é um momento. É uma relação que evolui e que nos acompanha.
Retribuir: criar espaços para sair da bolha
Foi também dessa experiência que nasceu a vontade de retribuir à PWN Lisbon. Há quatro anos, juntamente com uma colega, começámos a organizar os chamados “almoços aleatórios”. A ideia é simples: uma vez por mês, na terceira sexta-feira, juntamo-nos para almoçar, sem agenda, sem tema definido, sem objectivos formais. E, no entanto, é aí que acontece algo verdadeiramente especial.
Esses encontros tornaram-se um espaço onde saímos da bolha do dia-a-dia, do trabalho, das equipas e das responsabilidades familiares, e onde podemos simplesmente conversar. As conversas são tão diversas quanto inesperadas.
Lembro-me de um almoço em que uma engenheira química nos explicou, com detalhe fascinante, como é feita a cobertura dos M&M’s. Noutro, dei por mim a falar sobre o estudo de exoplanetas no contexto da missão Ariel da ESA, onde trabalhámos na operacionalização de modelos de machine learning.
Mas, muitas vezes, falamos de coisas muito simples, e igualmente importantes. Falamos dos desafios da conciliação entre a vida profissional e pessoal. De mudanças de carreira. De novos projectos. De dúvidas. De decisões difíceis. “Trocamos cromos” sobre a vida real. E, sem darmos conta, criamos algo raro: uma rede de confiança genuína.
Hoje, posso dizer que dali nasceram amizades profundas, daquelas em que sabemos que podemos contar umas com as outras, profissional e pessoalmente.
Liderar é criar espaço para os outros
Se há algo que estas experiências internacionais, empresariais e humanas me ensinaram é que liderar não é apenas sobre resultados. É sobre criar espaço. Espaço para que outros cresçam. Espaço para que diferentes perspectivas existam. Espaço para que as pessoas possam ser quem são e, ainda assim, dar o seu melhor.
Ao longo do meu percurso, entre a ciência de dados, a IA e contextos altamente internacionais, aprendi que as melhores decisões não vêm apenas dos dados ou dos modelos. Resultam da combinação entre conhecimento técnico e experiência (de negócio e de vida) e da capacidade de contextualizar, questionar e integrar diferentes perspectivas. É essa síntese que define, para mim, uma liderança verdadeiramente completa.
Na ML Analytics, onde trabalhamos com dados, IA e projectos que vão desde telecomunicações até missões espaciais, isso é particularmente evidente. A tecnologia é complexa. Mas são as pessoas que fazem a diferença. E são essas pessoas que precisamos de saber liderar. Com empatia. Com curiosidade. Com abertura ao mundo.
Para além de Março
Por isso, quando penso no “Mês da Mulher”, penso sobretudo nisto: na responsabilidade contínua de construir lideranças mais humanas, mais inclusivas e mais conscientes. Programas como os da PWN mostram-nos que isso é possível e que o impacto se multiplica quando investimos nas pessoas certas, nos momentos certos.
Mas também nos mostram que não é preciso criar sempre iniciativas elaboradas. Às vezes, basta um almoço sem agenda. Porque é nesses espaços improváveis que se constroem ligações reais, se partilham experiências e, muitas vezes, se redefine o caminho.
Março pode ser o ponto de partida. Mas é no resto do ano, nas conversas, nas relações e nas decisões do dia-a-dia, que a liderança verdadeiramente acontece.
E você? Quando foi a última vez que criou um espaço “sem agenda” para a sua equipa?
Este artigo foi publicado na edição de Abril (nº. 184) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














