Por Maria Antónia Torres, vice-presidente do board da PWN Lisbon; PwC partner; Deals Tax Business leader; Corporate Sustainability & Inclusion leader
Durante décadas, a liderança pôde ser exercida a partir do conforto de um gabinete, centrada nas operações internas, na cultura da empresa, nos stakeholders mais óbvios e no contexto imediato da comunidade, no limite do país, onde a organização desenvolvia a sua actividade. Esse tempo acabou.
Hoje, liderar exige uma visão global, uma sensibilidade apurada para dinâmicas que ultrapassam fronteiras e uma capacidade constante de antecipar impactos provenientes de um mundo profundamente interligado e imprevisível.
A geopolítica, as alterações climáticas, as assimetrias de informação e de riqueza, as questões demográficas e a disrupção tecnológica deixaram de ser temas distantes. Tornaram-se variáveis estratégicas que podem influenciar directamente uma pequena ou média empresa em qualquer local do mundo, por mais recôndito que seja.
Conflitos em países distantes podem provocar o aumento dos custos da energia ou perturbar cadeias de abastecimento essenciais para os mais diversos sectores. Secas prolongadas ou fenómenos extremos podem comprometer sectores como a Agricultura ou o Turismo e, igualmente, provocar rupturas nas cadeias de distribuição.
As assimetrias de informação tornam a previsibilidade um exercício impossível e, assim como as assimetrias de riqueza, levam à instabilidade social que não permite o crescimento.
A falta de talento obriga as organizações a repensar a sua localização ou até mesmo a sua estratégia. A chegada de novas tecnologias, que aparecem e evoluem a uma velocidade incrível, pode alterar completamente as necessidades do consumidor ou revolucionar modelos de produção, por exemplo.
Para além disso, vivemos numa era em que a sociedade deposita nas empresas expectativas antes reservadas aos estados: responsabilidade ambiental, ética, inclusão social e participação activa nas comunidades. Actualmente, a reputação corporativa depende tanto do que acontece ao nosso lado como do que acontece longe de nós. O escrutínio é mais global, é público e feito pelo público. Uma marca portuguesa pode enfrentar escrutínio por práticas laborais de fornecedores internacionais.
Uma empresa tecnológica pode ser negativamente impactada por não adoptar políticas de sustentabilidade alinhadas com padrões europeus. E uma empresa agro- -alimentar pode perder confiança se não garantir rastreabilidade ética em cadeias produtivas internacionais.
Mas, mais do que isto, o escrutínio pode ultrapassar o produto ou serviço da empresa e focar-se no seu propósito, nos seus valores, na sua cultura. A confiança – o activo mais valioso das organizações – constrói-se hoje na intersecção entre competência naquilo que se faz e responsabilidade e consciência global. Para inspirar equipas e manter relevância, os líderes precisam de visão sistémica, capacidade de antecipação, empatia e propósito.
As empresas que florescem são as que compreendem que o local e o global já não se distinguem. E que liderar exige coragem, curiosidade e responsabilidade global.
Num mundo em constante transformação, os líderes precisam de desenvolver, ainda, a sua capacidade de adaptação e a das suas equipas, das suas pessoas, para que a organização consiga reagir rapidamente a novos desafios. A capacidade de aprender de forma contínua e de integrar perspectivas diversas, de diferentes geografias e culturas, torna-se uma vantagem competitiva essencial.
Liderar com consciência global implica reconhecer que cada decisão local tem impactos que ecoam em múltiplas direcções, influenciando colaboradores, clientes, comunidades e até ecossistemas distantes. Esta abordagem holística reforça a resiliência organizacional, desenvolve e apura a cultura, ajuda a captar e reter talento e prepara as equipas para enfrentar um futuro cada vez mais complexo.
Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 183) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














