Liderar pessoas numa indústria em transformação

Opinião de Andreia Marques, directora de Recursos Humanos da Volvo Car Portugal

Human Resources
18 de Junho 2026 | 10:30

Por Andreia Marques, directora de Recursos Humanos da Volvo Car Portugal

Durante muitos anos, a indústria automóvel foi definida pela engenharia, pela produção e pela performance tecnológica. E continua a ser uma indústria extraordinariamente exigente nesses domínios. Mas hoje, talvez o maior desafio do sector já não seja apenas tecnológico. É profundamente humano.

Estamos a viver uma das maiores transformações da história da mobilidade. A electrificação, a digitalização, a inteligência artificial, os novos modelos de consumo e a mudança das expectativas dos clientes estão a redefinir, de forma acelerada, aquilo que conhecemos como indústria automóvel. E sempre que uma indústria se transforma desta forma, as empresas também precisam de se reinventar – não apenas nos seus produtos ou processos, mas sobretudo na sua cultura, na sua liderança e nas suas pessoas.

Porque nenhuma transformação acontece verdadeiramente apenas através de investimento, inovação ou estratégia. As mudanças mais profundas acontecem sempre através das pessoas.

Na Volvo Cars, colocamos as pessoas no centro de tudo o que fazemos. Essa visão vai muito além do desenvolvimento dos nossos automóveis ou da segurança dos nossos clientes. Reflecte-se também na forma como construímos equipas, desenvolvemos talento e pensamos a liderança.

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Num contexto de mudança constante, a capacidade de envolver, inspirar e alinhar equipas tornou-se absolutamente essencial. Porque a transformação gera entusiasmo, mas também gera incerteza. E liderar hoje significa saber acolher ambas as dimensões com equilíbrio, empatia e visão.

Num sector historicamente dominado por homens, esta transformação representa igualmente uma oportunidade única de evolução cultural. A diversidade deixou de ser apenas uma questão de representatividade – é uma vantagem estratégica. Equipas mais diversas trazem diferentes perspectivas, novas formas de pensar e maior capacidade de adaptação. E isso torna-se decisivo numa indústria que está continuamente a reinventar-se.

Ao mesmo tempo, convivem hoje nas organizações várias gerações, com experiências, motivações e expectativas muito distintas. Há quem procure estabilidade e progressão linear, mas também quem valorize flexibilidade, propósito, aprendizagem contínua e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Nenhuma destas perspectivas está errada. Pelo contrário: todas acrescentam valor.

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O verdadeiro desafio está em construir culturas suficientemente fortes para unir pessoas diferentes em torno de um propósito comum – enquanto o próprio sector vive uma transformação profunda e permanente.

Parece simples. Não é.

Exige uma liderança mais humana, mais próxima e mais consciente.

Hoje, liderar já não significa apenas decidir, controlar ou definir direcção. As equipas procuram líderes capazes de criar confiança, comunicar com transparência, ouvir genuinamente e dar espaço para crescer. Procuram líderes que inspirem, mas que também saibam ser humanos.

Porque, num contexto de transformação, as pessoas precisam de sentir que fazem parte da mudança – e não apenas que têm de sobreviver a ela.

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É por isso que temas como wellbeing, desenvolvimento individual, reconhecimento, cultura organizacional e experiência do colaborador, deixaram há muito de ser vistos como “soft topics”. São factores directamente ligados à motivação, à retenção e à capacidade de as equipas inovarem e evoluírem.

As novas gerações valorizam líderes reais, próximos e coerentes. Pessoas capazes de admitir dúvidas, promover colaboração e criar ambientes psicologicamente seguros, onde todos se sintam confortáveis para contribuir, experimentar e inovar.

Numa indústria tão desafiante como a automóvel, onde a mudança acontece todos os dias, isso faz toda a diferença.

A transformação tecnológica continuará a acelerar. Novas soluções surgirão. Os modelos de negócio continuarão a evoluir. Mas, no final, serão sempre as pessoas a determinar a verdadeira capacidade das organizações para se adaptarem, inovarem e crescerem.

E talvez esse seja hoje o maior desafio – e simultaneamente a maior responsabilidade – da liderança: garantir que, no meio de tanta mudança, ninguém perde aquilo que mais precisa para continuar a avançar: o sentimento de pertença, a motivação e o propósito.

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