O debate em torno da proposta do Governo para rever a Lei das Quotas de emprego para pessoas com deficiência tem levantado questões centrais sobre o futuro da inclusão no mercado de trabalho. Para Lucília Queirós, National Leader da Eurofirms Foundation, promover a verdadeira inclusão exige um compromisso com a mudança de mentalidades e com a valorização do talento «acima de qualquer rótulo».
Por Tânia Reis
Desde 2007, a Eurofirms Foundation já apoiou mais de nove mil pessoas com deficiência na integração profissional, alcançando uma taxa de empregabilidade de 52% nos seus programas de formação tecnológica.
A responsável considera que o maior obstáculo continua a ser a percepção que ainda prevalece sobre a deficiência e a verdadeira inclusão passa por valorizar competências, investir em formação e criar condições para que cada pessoa possa desenvolver o seu talento, independentemente da sua condição.
Como avalia a proposta do Governo de reduzir o grau de incapacidade exigido de 60% para 33% na Lei das Quotas de emprego para pessoas com deficiência? Que impactos positivos e negativos antecipa?
A proposta do Governo reabre um debate essencial sobre a forma como o país encara a inclusão laboral. A redução do grau de incapacidade exigido de 60% para 33% pode representar um passo importante para alargar o acesso das pessoas com deficiência ao mercado de trabalho. Ao aumentar o número de candidatos elegíveis, cria-se uma oportunidade para diversificar as equipas e aproximar as empresas de um princípio de igualdade de oportunidades baseado nas competências e na motivação de cada pessoa.
No entanto, é fundamental que esta alteração não desvirtue o propósito original da lei, que passa por apoiar quem enfrenta as maiores barreiras de acesso ao mercado de trabalho. O risco está em que algumas empresas optem por cumprir as quotas apenas com perfis de incapacidade mais reduzida, deixando de fora precisamente aqueles que mais necessitam de apoio.
Para a Eurofirms Foundation, a eficácia da medida dependerá menos das regras definidas pela nova revisão laboral e mais da forma como é aplicada. A legislação pode abrir portas, mas é a cultura das organizações que determina se essas portas permanecem abertas. Promover a verdadeira inclusão exige um compromisso com a mudança de mentalidades e com a valorização do talento acima de qualquer rótulo.
Que medidas poderiam ser implementadas para garantir que pessoas com maiores barreiras ao emprego não sejam deixadas para trás?
Para garantir a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, é essencial adoptar medidas que promovam a igualdade de oportunidades desde o processo de recrutamento até à integração no local de trabalho. Isso começa com a criação de anúncios acessíveis, redigidos de forma clara e inclusiva. É igualmente importante diversificar os canais de divulgação, estabelecendo parcerias com associações e entidades especializadas. Os processos de selecção devem ser adaptados, permitindo, por exemplo, entrevistas em vídeo com intérprete de Língua Gestual Portuguesa ou em formato escrito, consoante as necessidades da pessoa candidata.
No local de trabalho, a acessibilidade deve ser garantida através de ajustes razoáveis, como a adaptação de postos de trabalho, sempre que necessário. A formação também desempenha um papel fundamental: tanto na capacitação profissional das pessoas com deficiência, como na sensibilização das equipas e lideranças para práticas inclusivas e desmistificando o preconceito.
Por fim, é essencial cultivar uma cultura organizacional inclusiva, com políticas claras de diversidade, envolvimento activo das equipas e criação de espaços de escuta e participação. Estas medidas, quando integradas de forma estratégica, contribuem para ambientes de trabalho mais justos, diversos e verdadeiramente inclusivos.
Com base na experiência da Eurofirms Foundation, quais os principais obstáculos que as pessoas com deficiência enfrentam no acesso ao mercado de trabalho?
O maior obstáculo continua a ser a percepção que ainda prevalece sobre a deficiência. Persistem preconceitos e estereótipos que associam estas pessoas a limitações e não a potencialidades. Essa visão, enraizada muitas vezes de forma inconsciente, reflecte-se em processos de recrutamento pouco inclusivos e em oportunidades desiguais. Muitas vezes, não é a falta de capacidade que exclui, mas a falta de confiança e de conhecimento por parte das organizações.
Apesar de existirem avanços legislativos e incentivos, a inclusão efectiva ainda enfrenta barreiras culturais e estruturais. Falta acessibilidade, formação adaptada e sobretudo preparação organizacional para acolher a diferença. Há empresas que querem integrar, mas não sabem como fazê-lo e é precisamente aí que a Eurofirms Foundation marca a diferença.
Acreditamos que a chave está em actuar em duas frentes complementares: por um lado, apoiar as empresas na criação de processos de recrutamento inclusivos e, por outro, investir em programas de sensibilização e formação que promovam uma mudança real de mentalidade. As campanhas anuais que desenvolvemos procuram precisamente reforçar esta mensagem: o talento está em todo o lado, mas só é reconhecido quando o olhar da sociedade muda.
Que tipo de perfis de candidatos com deficiência são mais frequentemente integrados pelas empresas e porquê?
A inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho tem vindo a ganhar espaço nas estratégias de responsabilidade social e diversidade das empresas. No entanto, ainda se verifica uma tendência para a integração de determinados perfis profissionais.
Com base na experiência da Eurofirms Foundation, os perfis mais frequentemente integrados pelas empresas incluem funções como assistente administrativo, técnico de contabilidade, IT, operador de loja, operador de apoio ao cliente, operador de fábrica, comercial e recursos humanos. Estes cargos têm-se revelado mais acessíveis por permitirem, na maioria dos casos, uma adaptação mais simples do posto de trabalho, bem como uma integração mais imediata nas equipas.
Além disso, estas funções tendem a ter processos bem definidos, o que facilita o acolhimento e a formação inicial, especialmente importante para pessoas que possam necessitar de um período de adaptação mais estruturado. A flexibilidade de horários, a possibilidade de trabalho em equipa e a existência de tarefas com menor exigência física ou cognitiva também contribuem para que estes perfis sejam mais procurados no contexto da inclusão.
Contudo, é fundamental que as empresas alarguem o seu olhar e reconheçam o potencial das pessoas com deficiência em áreas mais diversas e especializadas. A verdadeira inclusão passa por valorizar competências, investir em formação e criar condições para que cada pessoa possa desenvolver o seu talento, independentemente da sua condição.
A Eurofirms Foundation continua empenhada em apoiar este caminho, promovendo o recrutamento inclusivo e o acompanhamento personalizado, com o objetivo de garantir que a diversidade seja, cada vez mais, uma realidade vivida nas organizações.
A Fundação tem observado alguma evolução nas práticas de recrutamento inclusivo nos últimos anos? Em que sentido?
Sim, a Fundação Eurofirms tem vindo a observar uma evolução positiva nas práticas de recrutamento inclusivo nos últimos anos. Nota-se uma maior abertura por parte das empresas para integrar pessoas com deficiência nas suas equipas, não apenas por uma questão de responsabilidade social, mas também pelo reconhecimento do valor que a diversidade traz ao ambiente de trabalho.
Há uma crescente preocupação em tornar os processos de recrutamento mais acessíveis, com anúncios mais inclusivos, entrevistas adaptadas e uma maior colaboração com entidades especializadas. Além disso, verifica-se um esforço mais consistente na formação de equipas de recursos humanos e lideranças, com o objectivo de eliminar preconceitos e promover uma cultura organizacional mais empática e preparada para acolher a diferença.
Outro sinal positivo é o aumento da procura por programas de acompanhamento pós-colocação, como o Aftercare, que ajudam a garantir uma integração mais sólida e duradoura. Ainda há muito por fazer, mas é evidente que o tema da inclusão está, cada vez mais, na agenda das empresas e isso é um passo essencial para a construção de um mercado de trabalho mais justo e representativo.
Um estudo da Eurofirms Foundation revelou que 44% das pessoas com deficiência não se sentem incluídas no trabalho. Quais os principais factores que contribuem para essa percepção?
Apesar dos avanços na inclusão, muitas pessoas com deficiência continuam a não se sentir verdadeiramente integradas no local de trabalho. Esta percepção resulta, em grande parte, de barreiras que persistem, como preconceitos e estereótipos ainda presentes em algumas equipas, bem como de formas subtis de capacitismo que desvalorizam as suas competências.
A falta de acessibilidade continua a ser um obstáculo real, tanto ao nível dos espaços físicos, que muitas vezes não estão adaptados, como das ferramentas digitais, que nem sempre são compatíveis com tecnologias utilizadas por pessoas com deficiência. A comunicação também nem sempre é pensada de forma inclusiva, com a ausência de materiais acessíveis ou de intérpretes de Língua Gestual em momentos-chave como reuniões ou formações.
Outro factor importante é a limitação nas oportunidades de progressão. A pouca representatividade em cargos de liderança e o acesso desigual à formação fazem com que muitas pessoas com deficiência sintam que não têm as mesmas possibilidades de crescimento. A isto junta-se, por vezes, um certo isolamento social, causado pela falta de sensibilização das equipas e pela ausência de iniciativas que promovam o convívio e a empatia.
Por fim, muitas organizações ainda não têm políticas claras de inclusão ou não acompanham de forma consistente a sua implementação, o que leva a que os ajustes necessários demorem a ser feitos ou nem cheguem a acontecer. Tudo isto contribui para que uma parte significativa das pessoas com deficiência não se sinta plenamente incluída no seu ambiente de trabalho.
Que boas práticas têm sido eficazes na criação de ambientes verdadeiramente inclusivos nas empresas?
Uma das práticas mais eficazes para promover a inclusão de pessoas com deficiência nas empresas passa por garantir um recrutamento verdadeiramente acessível. Isto implica adaptar os processos selectivos às necessidades dos candidatos, utilizar uma linguagem clara nos anúncios e estabelecer parcerias com entidades especializadas que possam apoiar na identificação de talento e na criação de condições adequadas.
A par disso, é fundamental investir na formação e sensibilização das equipas. Sessões regulares sobre inclusão, linguagem adequada e combate ao capacitismo ajudam a criar um ambiente mais empático e respeitador. Já a formação contínua dirigida a líderes permite desenvolver uma gestão mais inclusiva e consciente da diversidade de perfis dentro da organização.
Como é que a cultura organizacional influencia a integração plena de colaboradores com deficiência?
A cultura organizacional é o factor que mais condiciona o sucesso ou o fracasso da inclusão. Não basta contratar pessoas com deficiência, é preciso criar condições para que se sintam parte da equipa, com igualdade de oportunidades e perspectivas reais de desenvolvimento.
Uma cultura empresarial verdadeiramente inclusiva é aquela que vê a diversidade como um valor estratégico e não apenas como uma obrigação moral. As organizações que abraçam esta visão registam ganhos claros em inovação, produtividade e envolvimento das equipas. A inclusão não é um custo, é um investimento no capital humano.
A Eurofirms Foundation tem vindo a apoiar as empresas neste caminho através de formações, programas de sensibilização e consultoria organizacional. Estes projectos ajudam as equipas a desconstruir preconceitos e a adoptar práticas que promovem um ambiente de respeito e colaboração. A experiência mostra que, quando a liderança assume um papel activo e o tema é incorporado na cultura corporativa, os resultados são duradouros e a inclusão torna-se parte natural da identidade da empresa.
Que tipo de acções de sensibilização e formação a Eurofirms Foundation tem desenvolvido junto das empresas?
A Eurofirms Foundation tem vindo a desenvolver um trabalho consistente na promoção da inclusão e diversidade no contexto laboral, através da realização de workshops dirigidos a diferentes áreas dentro das organizações. Estas acções formativas têm contribuído para enriquecer o conhecimento e a sensibilidade de equipas de recursos humanos, gestores e responsáveis de equipa, promovendo uma abordagem transversal e integrada à inclusão.
Para além da formação técnica, a Eurofirms Foundation tem também dinamizado sessões de sensibilização que envolvem não só os colaboradores das empresas, mas também os seus familiares. Estas iniciativas permitem aproximar as pessoas da realidade da inclusão, criando espaços de partilha e aprendizagem com quem vive com uma característica (a deficiência) que, embora faça parte da sua identidade, não a define. Ao proporcionar este contacto directo, promove-se uma mudança de mentalidades e reforça-se o compromisso com ambientes de trabalho mais humanos, diversos e verdadeiramente inclusivos.
Pode partilhar exemplos de programas de integração bem-sucedidos promovidos pela Fundação?
Desde 2007, a Eurofirms Foundation tem vindo a provar que a inclusão é possível e gera benefícios concretos: económicos, sociais e humanos. Ao longo destes anos, já apoiou mais de nove mil pessoas com deficiência na integração profissional, alcançando uma taxa de empregabilidade de 52% nos seus programas de formação tecnológica. Paralelamente, através de acções de sensibilização, impactou mais de quatro milhões de pessoas, promovendo uma sociedade mais justa e inclusiva.
Recentemente, em parceria com uma empresa da área tecnológica, a Eurofirms Foundation lançou um bootcamp de Java, destinado a 15 candidatos com deficiência, alguns sem qualquer experiência prévia na área. Este programa inclui quatro meses de formação intensiva, três semanas de estágio e a possibilidade de integração na empresa parceira. Actualmente, os participantes encontram-se a estagiar, dando os primeiros passos numa carreira promissora.
Com esta iniciativa, a Eurofirms Foundation não só forma e valoriza pessoas, como também acrescenta valor às organizações, respondendo a uma das maiores necessidades do mercado: a escassez de profissionais qualificados em tecnologias de informação. É um exemplo claro de como a inclusão pode ser uma solução estratégica para empresas e uma oportunidade transformadora para quem procura emprego.
Como é feita a articulação entre a Fundação, as empresas e os próprios candidatos para garantir uma integração sustentável?
A Eurofirms Foundation tem vindo a afirmar-se como um parceiro de confiança na promoção da inclusão laboral de pessoas com deficiência. Um dos seus projectos de referência é o Programa Aftercare, uma iniciativa que assegura um acompanhamento próximo e personalizado após a contratação, com o objectivo de garantir uma integração bem-sucedida e sustentável nas empresas.
Este programa posiciona-se como um elo entre a pessoa contratada e as equipas da organização, promovendo um ambiente de trabalho inclusivo, seguro e acolhedor para todos. O acompanhamento estende-se ao longo dos primeiros quatro meses após a contratação, com acções estruturadas que permitem identificar necessidades, ajustar processos e facilitar a adaptação ao novo contexto profissional.
Entre as principais etapas do programa, destacam-se:
- Contacto inicial por telefone e e-mail com a pessoa contratada;
- Realização de um questionário de bem-estar no primeiro mês;
- Acompanhamento mensal por e-mail;
- Encerramento com um inquérito de satisfação global.
Durante este período, a Foundation partilha com a empresa um balanço das respostas recolhidas, permitindo uma análise da experiência de acolhimento, das adaptações implementadas e das funções atribuídas. Este processo contribui para uma melhoria contínua das práticas de inclusão.
Importa sublinhar que o Aftercare é um programa bidireccional: tanto a empresa como a pessoa contratada podem, a qualquer momento, entrar em contacto com a Eurofirms Foundation para esclarecer dúvidas ou solicitar apoio adicional.
Ao promover este acompanhamento contínuo, a Eurofirms Foundation reforça o seu compromisso com a inclusão de talento com deficiência, contribuindo para a construção de culturas organizacionais mais diversas, humanas e verdadeiramente inclusivas.
Os dados do Observatório da Deficiência mostram uma taxa de desemprego de 14,7% nesta população. Que estratégias considera prioritárias para reduzir este número?
Para reduzir a elevada taxa de desemprego entre pessoas com deficiência é essencial apostar em estratégias integradas que promovam a igualdade de oportunidades no acesso ao trabalho. Um dos primeiros passos passa por reforçar as políticas públicas de apoio à contratação, através de incentivos fiscais e financeiros às empresas, bem como apoio à adaptação dos postos de trabalho.
Paralelamente, é fundamental investir na qualificação e requalificação desta população, com formações ajustadas às suas capacidades e interesses, especialmente em áreas técnicas e digitais.
Dentro das empresas, é prioritário promover uma cultura de inclusão, com processos de recrutamento acessíveis e livres de preconceitos, formação contínua para líderes e equipas, bem como ambientes de trabalho adaptados, com os devidos ajustes necessários.
Por fim, a monitorização contínua é essencial. A recolha e análise de dados desagregados permite identificar barreiras e medir o impacto das medidas implementadas, orientando planos de acção com metas claras e indicadores que assegurem uma evolução efectiva e sustentável.
Que papel devem desempenhar as empresas, para além do cumprimento legal, na promoção da inclusão?
As empresas têm um papel insubstituível na concretização da inclusão. A lei cria o enquadramento, mas o verdadeiro impacto acontece quando as organizações assumem a diversidade como parte da sua estratégia e não apenas como uma obrigação a cumprir. A inclusão não deve ser uma atitude pontual, mas um compromisso integrado na cultura e na gestão do talento.
De acordo com a nossa experiência na Eurofirms Foundation, a diferença entre cumprir a lei e promover a inclusão está na forma como se encara o recrutamento e o desenvolvimento interno. Quando uma empresa deixa de procurar apenas o “preenchimento de uma quota” e passa a identificar competências, adaptar processos e formar equipas para acolher diferentes perfis, a inclusão torna-se sustentável.
No entanto, isto exige liderança e visão a longo prazo. Envolve preparar gestores e equipas, adaptar espaços, rever critérios de avaliação e garantir oportunidades de progressão. São mudanças estruturais que não se fazem de um dia para o outro, mas que transformam a cultura e geram impacto mensurável, reflectido em motivação, inovação e resultados. As empresas que compreendem este conceito não só contribuem para uma sociedade mais justa, como tornam o seu próprio negócio mais forte e resiliente.














