No âmbito do especial dos 15 anos da Human Resources, desafiámos responsáveis de empresas a perspectivarem os pontos-chave da liderança para os próximos 15 anos.
Por Luís Menezes, CEO Grupo Ageas Portugal
Vivemos um momento de transformação profunda, em que as lideranças precisam de equilibrar dois grandes desafios: dominar a arte da mudança constante e, simultaneamente, criar um impacto positivo e sustentável, que não se limite a indicadores financeiros.
Neste contexto de reinvenção, a gestão de pessoas e projectos já não pode ser apenas focada na rentabilidade. Pelo contrário, deve ser sobre criar valor para todos os stakeholders – colaboradores, clientes, parceiros e a sociedade em geral. É por isso que devemos caminhar para um modelo de liderança intrinsecamente mais humano, colaborativo e orientado para o propósito. Os dias de hoje exigem profissionais que inspirem confiança, promovam inclusão e sejam capazes de tomar decisões ágeis e informadas, num mundo em constante alteração.
Esta profunda transformação que vivenciamos resulta da convergência de várias forças: a aceleração tecnológica, as alterações climáticas, a crescente exigência por responsabilidades sociais, tensões geopolíticas em várias frentes e o impacto da pandemia na forma como trabalhamos. Estas dinâmicas não são meros desafios; são o catalisador de uma nova consciência sobre o papel das empresas e dos seus líderes. Consequentemente, os gestores são desafiados a adaptar-se a um ambiente híbrido, a corresponder a standards mais elevados de transparência e ética, e a abraçar a diversidade não como uma opção, mas como um motor inquestionável de inovação.
Para responder a este cenário complexo e em constante evolução, os líderes do futuro precisam de desenvolver competências que vão muito além das tradicionais. A empatia, a inteligência emocional e a capacidade de escuta activa são essenciais para construir relações genuínas e fomentar ambientes de trabalho inclusivos. No entanto, a realidade actual exige uma adaptação contínua a novas ferramentas e paradigmas.
Um exemplo claro dessa adaptação é a inteligência artificial (IA), que está a redefinir a forma como tomamos decisões e gerimos equipas. O recurso a estas ferramentas permite-nos uma maior celeridade na automação de tarefas e na análise de dados – um avanço já conhecido. Mas a verdadeira revolução reside, de facto, na forma como os novos modelos de trabalho posicionaram a IA como uma poderosa aliada ao lado mais humano da liderança. Não substitui a sensibilidade e percepção de um líder, mas pode ajudá-lo no planeamento de carreiras e mobilidade interna ao identificar oportunidades, recomendar posições ou projectos, ou mesmo nas sugestões de perfis com base em métricas e histórico de resultados.
E, à medida que a inovação avança e as exigências se intensificam, a promoção do bem-estar torna-se imperativa. No Grupo Ageas Portugal, reconhecemos que o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas, embora seja um motor essencial para a inovação e o progresso, pode também trazer desafios significativos para as nossas equipas. A pressão por resultados imediatos e a necessidade constante de adaptação podem, em alguns casos, levar a um ritmo de trabalho excessivo, aumentando o risco de situações de burnout. Esta é uma preocupação que levamos muito a sério.
Estamos cada vez mais despertos para uma cultura de work-life balance como uma necessidade estratégica. Na agenda dos líderes, temas como o bem-estar dos colaboradores devem estar no topo das prioridades. É crucial promover culturas organizacionais que promovam a saúde mental e um acompanhamento cada vez mais com foco no bem-estar sem comprometer a produtividade. Afinal, só assim conseguimos atrair e reter talento, manter as equipas motivadas e garantir o sucesso a longo prazo.
Ao projectar o futuro, quando penso na imagem de um líder de 2030, vejo uma figura que combina a visão estratégica com uma abordagem profundamente humana e empática. Será um facilitador nato, mais do que um controlador, capaz de inspirar e mobilizar equipas inclusivas e globais com um propósito comum. Com uma mentalidade focada no crescimento, estará confortável com cenários em constante mudança, e será um defensor activo da sustentabilidade e da inclusão em todas as suas formas. Terá também um forte compromisso com a ética e a transparência, sabendo que a confiança é o activo mais valioso e insubstituível de qualquer organização.
A liderança, em Portugal e no mundo, já segue este rumo, mas o caminho ainda exige coragem e determinação – há que desafiar e transformar mentalidades e culturas organizacionais que permanecem enraizadas em modelos hierárquicos rígidos.
A transição para uma liderança mais colaborativa e inclusiva exige tempo, esforço e, acima de tudo, a audácia de desconstruir práticas antigas. Porque, em última análise, o futuro da liderança não é um destino a ser alcançado, mas sim um percurso contínuo de transformação, onde cada passo é uma oportunidade de inovar e deixar uma marca significativa no mundo. Não basta gerir; é necessário inspirar.
Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.













