Maioria das empresas não paga despesas adicionais de teletrabalho. Porquê?

Esta é uma das principais conclusões da 41.ª edição do Barómetro Human Resources, mas mais relevante do que perceber se as empresas pagam ou não as despesas extra relacionadas com o teletrabalho, é talvez perceber porque é que isso não está a acontecer, como previsto na lei. E a resposta parece estar precisamente na lei. O impacto da guerra na Ucrânia nas empresas portuguesas (e nas suas pessoas) é outro tema em destaque.

 

Por Ana Leonor Martins

 

Caminhamos a passos largos para o fim do primeiro semestre de 2022, há uns meses que deixaram de existir restrições motivadas pela pandemia em relação ao número de colaboradores a ter presencialmente nas organizações, e a nova lei do teletrabalho está em vigor deste o início do ano, mas as dúvidas persistem, nomeadamente em relação aos custos que as empresas têm de suportar relacionadas com o teletrabalho. Este foi um dos temas em destaque na 41.ª edição do Barómetro Human Resources, mas também não se esqueceu a guerra na Ucrânia, para tentar entender que impacto está a ter (ou não) nas organizações em Portugal. Voltamos ainda ao tema do recrutamento, para perceber mais em concreto quais as apostas das empresas e, numa altura em que tanto se fala da importância de manter os colaboradores motivados e envolvidos com as empresas, será que estas partilham os objectivos definidos para o negócio? E para os seus profissionais? É o que vamos descobrir.

 

Os custos do teletrabalho
O novo regime em vigor trouxe obrigatoriedade à entidade empregadora de assegurar “todo e qualquer acréscimo de custo de energia e/ou telecomunicações/ rede instalada”. Assim, perguntámos aos especialistas do painel do Barómetro Human Resources como estão a gerir este tema nas suas organizações e constata-se que apenas um em cada cinco (20%) paga as despesas adicionais (mas só 8% fazem esse pagamento de acordo com “as contas” previstas na lei; os restantes 12% definiram um valor fixo pago a quem está em teletrabalho, parte ou a totalidade da semana). Visto que 15% não têm pessoas em teletrabalho, e por isso a questão não se coloca, significa que mais de 60% (63%) das empresas não pagam despesas adicionais aos colaboradores em teletrabalho: 25% justificam essa decisão com o facto de o teletrabalho ser facultativo, mas 15% afirmam ser impossível cumprir a lei, por não se conseguir saber qual o acréscimo de custo, e 5% por, fiscalmente, não terem como justificar essas despesas; já 15% alegam ter mantido o subsídio de alimentação mesmo quando os trabalhadores não estão no escritório, e só 3% porque assim acordaram com os colaboradores.

No caso em que as despesas estão a ser pagas – e considerando que só uma ínfima percentagem (12%) se inclui aqui (as restantes não pagam despesas adicionais; não têm pessoas em teletrabalho; ou não sabem/não respondem) – a maioria (8%) paga até 50 euros por mês e ninguém paga mais de 500 euros/ano ou 100 euros/mês.

 

O impacto da guerra
Outro tema incontornável na actualidade é o contexto de guerra que existe desde dia 24 de Fevereiro deste ano, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Os mais de dois meses de guerra estão a ter efeitos não só na Europa, mas no mundo, por isso quisemos perceber se já está a impactar também as empresas em Portugal. Enquanto 13% dos inquiridos afirmam que a guerra não está a impactar a sua empresa, 58% reconhecem já se sentir pressão económica (43% ao nível do custo das matérias-primas e 15% a nível salarial). Por outro lado, 28% constatam que a pressão é a nível logístico, pela falta de matérias-primas e dificuldade no transporte, enquanto a mesma percentagem identifica sobretudo o clima de incerteza, que está a afectar negativamente o negócio. Já 13% destacam que a incerteza está a afectar negativamente as pessoas, no entanto ninguém relaciona essa realidade com o facto de as pessoas estarem mais ou menos dispostas a mudar de emprego. Não será irrelevante referir que 12% ainda não têm percepção de como a guerra está ou não a afectar o negócio.

Menos dúvidas parece haver em relação ao impacto no tecido empresarial português, daqui para a frente, se a guerra se mantiver: dois terços (67%) dos especialistas do Barómetro afirmam que espera que o impacto da guerra na Ucrânia nas empresas se agrave, e 8% esperam mesmo que se “agrave significativamente”. Só 2% acreditam que a guerra não vai impactar as empresas em Portugal, e 5% confiam que o impacto vai diminuir.

 

Atracção e retenção de talento
Não obstante o contexto não ser favorável a nível económico e a incerteza ter voltado a aumentar, as empresas parecem não estar a abrandar as intenções de recrutamento. A escassez de mão- -de-obra é inclusive identificada como um dos maiores desafios das empresas actualmente e, como consequência, a dificuldade de atracção e fidelização de talento. Assim, face à pressão para atrair e reter talento, qual a prioridade das empresas no recrutamento externo? A primeira conclusão que se tira das respostas do painel do Barómetro é que as empresas estão a recorrer mais ao reforço das equipas internas para o efeito (27%) do que ao reforço da utilização de parceiros especializados (22%). Para 27%, a principal aposta tem sido o reforço da utilização de canais digitais, enquanto 18% estão a dar prioridade ao recrutamento interno. De salientar que apenas 3% disseram não estar a recrutar.

Dada esta escassez de profissionais – e perante a perspectiva de recorrer a colaboradores de outras nacionalidades, quase metade dos inquiridos (47%) partilha que vai manter a política que já tinha, mas 28% reconhecem que esse recurso vai “registar um crescimento ligeiro” (13% acham que vai ser um “crescimento significativo”). Ninguém afirma que a procura de colaboradores de outras nacionalidades vai diminuir.

 

Fique a conhecer todos os resultados do XLI Barómetro Human Resources na edição de Maio (nº.137) da Human Resources, nas bancas (se preferir comprar online, tem disponível a versão em papel ou a versão digital).

Conheça também o comentário dos especialistas:

– Rute Ablum, chief Management Officer da PHC Software

– Nelson Pires, director-geral da Jaba Recordati Portugal, Recordati UK/Recordati Ireland

– Pedro Fontes Falcão, gestor e professor do Iscte-IUL

– Mariana Canto e Castro, directora de Recursos Humanos da Randstad Portugal

– Rui Mendes da Costa, presidente da DCH Portugal

– Paulo Barreto, director Central de Recursos Humanos do Crédito Agrícola

– Carla Gama, directora de Pessoas da Allianz Portugal

– Carla Gouveia, Executive coach e fundadora da Healthy Change

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