De acordo com o relatório 2027 State of People Strategy da Lattice, 58% dos profissionais de RH nos Estados Unidos admitiram ter considerado mudar de carreira em 2026, um aumento significativo face aos 48% registados no ano anterior.
Contrariamente ao que se poderia esperar, o principal motivo apontado não foi o burnout. O factor mais referido pelos inquiridos foi a sensação de não serem valorizados pela organização. Logo a seguir surgem o trabalho em permanente modo de crise e o esgotamento profissional, avança a HRD.
A tendência encontra eco noutras investigações sobre o bem-estar dos profissionais de RH, que mostram níveis elevados de desgaste emocional e impactos negativos na saúde e qualidade de vida destes trabalhadores.
Segundo Christine Porath, professora de comportamento organizacional da University of North Carolina at Chapel Hill, os resultados não são surpreendentes. A investigadora afirma que muitas pessoas continuam a não receber reconhecimento pelo seu trabalho, seja por parte das chefias ou dos colegas, uma realidade que afecta directamente o sentimento de valorização e pertença.
Mais responsabilidades, mas nem sempre mais influência
Para Sophie Hurcombe, Chief People and Operations Officer da Lattice, a crescente insatisfação dos profissionais de RH está relacionada com a rápida evolução das suas responsabilidades. As equipas são hoje chamadas a liderar processos de adopção de inteligência artificial, mudanças culturais e desafios relacionados com desempenho organizacional, mas sem que exista um reforço equivalente dos recursos, da autoridade ou do apoio recebido.
Na prática, muitos departamentos de RH enfrentam expectativas estratégicas cada vez mais elevadas, enquanto continuam a ser vistos, em algumas organizações, como estruturas predominantemente operacionais. Esta discrepância entre aquilo que lhes é exigido e os meios disponibilizados poderá estar na origem de uma crescente frustração profissional.
A responsável defende ainda que o burnout deve ser encarado mais como uma consequência do problema do que como a sua causa principal. Quando os profissionais sentem que o seu contributo não é reconhecido ou valorizado, o desgaste acaba por se tornar inevitável.
O impacto da valorização no desempenho
A investigação de Christine Porath conclui que a percepção de reconhecimento tem efeitos directos nos resultados organizacionais. Profissionais que se sentem ouvidos, valorizados e respeitados tendem a apresentar maiores níveis de concentração, criatividade e colaboração, além de demonstrarem menor intenção de abandonar a organização.
O efeito contrário também é evidente. Ambientes marcados pela desvalorização ou pelo desrespeito estão associados a mais erros, menor produtividade, redução da criatividade e aumento do turnover.
A especialista considera que os profissionais de RH podem ser particularmente sensíveis a estas dinâmicas, uma vez que possuem formação específica em gestão de pessoas e tendem a reconhecer com maior facilidade comportamentos de liderança inadequados ou culturas organizacionais pouco saudáveis.
Segurança psicológica ganha relevância estratégica
O relatório identificou ainda uma forte ligação entre segurança psicológica e desempenho. As equipas de RH que trabalham em organizações onde este factor é prioritário revelam uma probabilidade muito superior de afirmar que estão a superar os seus objectivos.
Para Sophie Hurcombe, não existe desempenho sustentável sem um ambiente onde as pessoas possam levantar problemas, desafiar pressupostos, pedir ajuda e expressar opiniões sem receio de consequências negativas. Contudo, sublinha que a segurança psicológica não se constrói através de declarações de intenção, exigindo comportamentos concretos por parte das lideranças.
Perante este cenário, Christine Porath aconselha os profissionais de RH a procurarem apoio junto de mentores, colegas de confiança ou redes externas à organização. Defende igualmente a importância de desenvolver fontes de realização pessoal fora do contexto laboral, reforçando a resiliência e o sentimento de propósito.
A crescente centralidade da inteligência artificial e da estratégia de pessoas no sucesso das organizações faz com que a função de RH assuma um papel cada vez mais decisivo para os resultados do negócio. Ainda assim, os dados sugerem que muitas empresas poderão ter de fazer mais para garantir que estes profissionais se sentem valorizados, apoiados e verdadeiramente incluídos nos processos de decisão.
















